Turismo resiste na Páscoa, mas clientes estão mais cautelosos e sensíveis ao preço
Apesar da incerteza global, a procura turística na Páscoa mantém-se estável. O desvio de fluxos de destinos considerados menos seguros pode beneficiar Portugal.
- A procura turística para a Páscoa deverá manter-se estável em relação ao ano passado, apesar da instabilidade internacional e da cautela dos consumidores.
- Portugal pode beneficiar, no curto prazo, do desvio de turistas de países em conflito no Médio Oriente.
- O setor da restauração enfrenta um ambiente de incerteza, com custos elevados e consumidores mais cautelosos, o que pode afetar a sua resiliência a longo prazo.
A Páscoa deverá manter níveis de procura turística globalmente estáveis face ao ano passado, mas será claramente marcada pela instabilidade internacional. Apesar da “resiliência” do setor, tanto o turismo como a restauração operam num contexto de maior cautela, pressão nos custos e consumidores mais sensíveis ao preço.
O diretor-geral de vendas da Agência Abreu, Pedro Quintela, explica ao ECO que “grande parte das reservas para a Páscoa já estava feita”, fruto da antecipação habitual dos clientes, “mantendo-se globalmente em linha com o período homólogo”.
Contudo, “com o atual contexto geopolítico”, registou-se “uma adaptação nas escolhas, com os clientes a privilegiarem destinos que oferecem maior perceção de estabilidade”, segundo o porta-voz da agência. Pedro Quintela diz também que a “procura mantém-se dinâmica, sobretudo para destinos de sol e praia e circuitos mais próximos, em especial na Europa, e também nas Américas“.
Esta leitura é corroborada pelo presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), Miguel Quintas, que identifica duas tendências muito claras nas reservas para a Páscoa: a inexistência de procura nos destinos do Médio Oriente e reforço da procura por destinos europeus, em particular Espanha e capitais europeias.
“Não estamos perante um desaparecimento da procura turística, mas sim de uma redistribuição da procura para geografias que o cliente sente como mais estáveis neste momento”, refere Miguel Quintas.
Já o responsável da Abreu diz que observa também “uma maior racionalização”, com os clientes “mais atentos ao preço e mais flexíveis nas escolhas, seja ao nível das datas, da duração da viagem ou do destino”.
Os orçamentos de viagem têm-se mantido, assim como o interesse de viajar, mas há mais sensibilidade ao preço, maior comparação entre opções e mais procura por destinos de menor risco percebido e por soluções economicamente mais equilibradas.
Segundo o Barómetro do Turismo do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), as perspetivas para a Páscoa “apontam para uma procura globalmente estável, similar aos resultados de 2025, tanto no mercado interno como externo, acompanhada por um crescimento das receitas”.
No mercado interno, a 76.ª edição do Barómetro do Turismo mostra que a maioria dos profissionais antecipa níveis semelhantes no número de hóspedes (53%) e dormidas (51%), com 40% a prever aumento das receitas. Já na procura externa, as perspetivas também são de estabilidade em hóspedes (55%) e dormidas (50%), com igual percentagem (40%) a apontar para subida das receitas, ainda que com sinais de maior pressão na taxa de ocupação.
De acordo com os resultados do inquérito “Balanço Carnaval e Perspetivas Páscoa 2026” da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), as reservas para o fim de semana da Páscoa situam-se em 57%, com um preço médio de 147 euros, abaixo dos 75% de ocupação e 150 euros registados no ano passado. A vice-presidente da associação ressalva, contudo, que se trata de períodos não diretamente comparáveis, seja no horizonte temporal como a recolha de dados.

Entre regiões, e acima de média nacional, a Madeira lidera com 75% de ocupação e preço médio de 184 euros, seguida da Grande Lisboa (66% e 168 euros) e do Algarve (63% e 121 euros). No extremo oposto, o Centro apresenta 39% de reservas, seguido da Península de Setúbal (41%) e do Alentejo (47%).
O inquérito da AHP evidencia que a instabilidade no Médio Oriente começa a refletir-se no setor hoteleiro. Embora 60% das unidades não reportem alterações, 24% dos hoteleiros já identificam um abrandamento nas reservas ou aumento de cancelamentos. Simultaneamente, 16% referem um aumento da procura, associado ao desvio de fluxos turísticos de outros destinos. Os inquiridos da Península de Setúbal e dos Açores são os que mais sentem um aumento de cancelamentos ou abrandamento de reservas.
O mercado interno mantém-se como um dos principais motores da procura para as férias e para o fim de semana da Semana Santa, apontado por mais de 70% dos inquiridos, seguindo-se Espanha e Reino Unido. Em sentido contrário, destaca-se uma redução da procura proveniente dos Estados Unidos, mencionado apenas por 22% dos hoteleiros para o fim de semana, face aos 38% mencionados no ano anterior.

Cristina Siza Vieira, vice-presidente da AHP, associa este abrandamento do mercado norte-americano à instabilidade: “os americanos prezam muito a estabilidade e sentem-se mais desconfortáveis em viajar para fora quando o seu país está em guerra aberta”, referindo ainda existir “prudência no consumo” face à volatilidade dos mercados.
“Grande incerteza” e “prudência” na restauração
Do lado da restauração, o cenário é de maior cautela. A secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal AHRESP, Ana Jacinto, afirma ao ECO que a “Páscoa será marcada por um ambiente de grande incerteza”, com o setor a atravessar uma fase de “prudência” agravada pelo contexto internacional.
“As empresas continuam a demonstrar resiliência, mas operam num equilíbrio muito frágil e altamente sensível a qualquer perturbação”, refere a porta-voz da associação que representa as empresas de restauração, defendo que “será fundamental acompanhar de perto a evolução deste contexto e garantir condições para que as empresas possam continuar a fazer aquilo que têm feito até aqui: resistir”, remata.
Esta Páscoa decorre num ambiente de grande incerteza. As empresas continuam a demonstrar resiliência, mas operam num equilíbrio muito frágil e altamente sensível a qualquer perturbação.
Mais do que um impacto direto do conflito, a responsável aponta para “uma cautela crescente por parte dos consumidores”, num contexto já pressionado pelo aumento dos custos, perda de poder de compra e instabilidade económica. No entanto, assegura que “não existe, para já, um padrão significativo diretamente associado ao conflito”, mas sim decisões mais tardias e ajustamentos no consumo.
Ana Jacinto recorda ainda a sucessão de choques que o setor da restauração tem vindo a enfrentar: “a pandemia, que deixou muitas empresas com níveis de endividamento ainda por resolver”; a “guerra na Ucrânia, que trouxe uma inflação difícil de absorver, sobretudo na energia e nas matérias-primas”; os “fenómenos climáticos extremos – o chamado comboio de tempestades – que provocaram danos, interrupções de atividade e perda de procura em várias regiões”; e agora a guerra no Irão “com efeitos imediatos no aumento dos combustíveis e, por arrasto, em toda a cadeia de valor, o que se traduz num agravamento direto dos custos operacionais para a restauração e, também, para o alojamento turístico”.
“Perante este cenário, as empresas fazem aquilo que sempre fizeram: adaptam-se (…). Mas importa ser claro: a margem de manobra é hoje muito reduzida”, resume a secretária-geral da AHRESP.
No início do ano, o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, anunciou um novo apoio aos restaurantes para ajudar o setor a superar a crise. O programa prevê até 60 mil euros por empresa, sendo 70% reembolsáveis e 30% a fundo perdido se forem atingidos os resultados estabelecidos. O objetivo é apoiar negócios que “precisam de algum investimento para se manter em pé”.
Turismo português pode beneficiar do desvio de fluxos causado pelo conflito no Médio Oriente
O conflito no Médio Oriente poderá, ainda assim, traduzir-se num desempenho positivo para o turismo nacional. De acordo com o Barómetro do Turismo do IPDT, 64% dos inquiridos antecipam um melhor desempenho do setor em Portugal devido à reconfiguração dos fluxos turísticos internacionais, “evidenciando a perceção de que Portugal poderá beneficiar do desvio de procura de regiões mais expostas ao risco geopolítico”.
A vice-presidente executiva da AHP considera que “Portugal poderá beneficiar, no curto prazo, de um desvio de turistas de destinos como Chipre, Turquia ou Egito, sobretudo para destinos de resort. “É um efeito de substituição que já se sente neste momento”, nota Siza Vieira.
Portugal poderá, no curto prazo, beneficiar de um desvio de turistas provocado pela guerra no Irão.
Ainda assim, alerta que se trata de “um sol de pouca dura”, pois “vai abrandar para todos”. “Há um nível muito elevado de incerteza e, sem sabermos a duração do conflito, no médio e curto prazo há muitas nuvens no horizonte”, acrescentou, lembrando que o turismo é um setor que “vive sempre de confiança e estabilidade”.
Também a porta-voz da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal refere que “historicamente, o turismo e as atividades associadas têm demonstrado resiliência em fases iniciais de instabilidade internacional, podendo até beneficiar de desvios de fluxos de outros destinos”. No entanto, Ana Jacinto reforça que à medida que os conflitos se prolongam, “os impactos tornam-se mais evidentes, sobretudo através da pressão sobre os custos e da moderação no consumo”.
Apesar de o Conflito no Médio Oriente não estar, para já, a travar as viagens da Páscoa, os preços dos voos em Portugal já refletem este contexto, com aumentos que podem chegar aos 20%.
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