Como uns sapatos portugueses chegaram aos pés da cantora Dua Lipa
A cantora usou um modelo de Willy Chavarría produzido por Luís Onofre num novo anúncio da Nespresso. Tudo começou na semana da moda de Paris e, antes disso, com o PRR.

Ver uns sapatos portugueses nos pés de Dua Lipa na mais recente campanha da Nespresso é um trabalho que pode levar três anos a conseguir. É o que começa por contar ao ECO Paulo Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS, a associação portuguesa de calçado português. Ao abrigo do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), a entidade começou a trabalhar internacionalmente a produção nacional, e, saltem-se muitos passos, é assim que a cantora se cruza com este modelo do designer Willy Chavarria, o mesmo que, soube-se esta semana, fará uma coleção para a Zara.
Pisar o mundo com o calçado português implica, por exemplo, ter representação em várias agências do mundo, nomeadamente Nova Iorque, e significa um encontro entre o saber-fazer português e os designers. Foi o que aconteceu com Willy Chavarria, que em outubro de 2025 esteve em Portugal a trabalhar a sua coleção de sapatos com duas fábricas portuguesas: Mariano Shoes para homem, Luís Onofre para mulher. E foi um dos modelos dessa coleção, que integra o projeto BioShoes4All, uma iniciativa que cruza sustentabilidade, inovação e produção responsável, que foi apresentado pelo designer norte-americano durante a Semana da Moda de Paris e captou a atenção dos estilistas de Dua Lipa, e, finalmente chegou ao anúncio da Nespresso. Para Willy Chavarria, Portugal oferece “precisão, qualidade e um compromisso real com a inovação”.

Entre janeiro e fevereiro, sapatos com selo made in Portugal foram também apresentados no desfile da marca portuguesa Ernest W. Baker em Paris. No desfile de Miguel Vieira em Milão, no âmbito do Portugal Fashion, e em várias colaborações na semana da moda de Nova Iorque com estes designers: Campillo, Daniela Kallmeyer e Libertine, que apresentaram parcerias exclusivas com Mariano Shoes, JJ Heitor e Helena Mar, respetivamente.
Em março, as colaborações entre designers internacionais e designers portugueses voltaram a desfilar, desta vez na noite dos Óscares. A atriz e comediante Chloé Fineman, que vimos no Saturday Night Live, Search Party ou High Fidelity, usou sapatos da marca portuguesa JJ Heitor em colaboração com a americana Daniella Kallmeyer para a festa da Vanity Fair.

Luís Onofre, presidente da APICCAPS, considera que este tipo de colaboração é determinante para o futuro do setor. “Projetos como este demonstram que Portugal não é apenas um país de produção, é um parceiro estratégico no desenvolvimento de produto, capaz de trabalhar lado a lado com designers e marcas globais. Esta proximidade entre indústria e criatividade é o que nos permite acrescentar valor e afirmar o calçado português nos palcos mais exigentes do mundo.”
“Estas colaborações refletem o nosso compromisso em apoiar os designers com competências produtivas de excelência, ao mesmo tempo que destacam a profundidade e versatilidade do calçado português”, afirma Paulo Gonçalves. A indústria portuguesa de calçado exporta mais de 90% da sua produção, segundo os dados da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos.
“Muitas vezes, empresas e designers tēm visões distintas do mesmo negócio”, diz Paulo Gonçalves. Estreitar o caminho entre ambas é o que têm feito, como explica ao ECO. “Na verdade, as empresas têm o conhecimento e dominam as competências técnicas, os designers têm uma visão fresca do mercado. É claramente uma estratégia vencedora”, explica. É o que têm tentado fazer e vão continuar, garante. “Essa é uma aposta que queremos manter”.
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