MG S5 EV: Oxford (re)nasceu em Xangai e não correu mal
A marca que os britânicos criaram e os chineses reconstruíram chega com um SUV elétrico por um preço que coloca a concorrência em sentido, mas nem tudo se resume à carteira.
Nos anos 70 do século passado, qualquer entusiasta do MGB descapotável reagiria com um silêncio constrangido se alguém lhe dissesse que, décadas depois, a sua marca britânica favorita pertenceria a um fabricante chinês e produziria SUV elétricos com cinco lugares para famílias. Esse futuro improvável é hoje e chega pela mão do MG S5 EV.
A história da marca merece um parêntese. A Morris Garages nasceu em Oxford em 1924, e durante décadas foi o endereço britânico do automobilismo acessível – do roadster MGB ao MGF, passando pelo Midget, gerações de condutores foram conquistados pelo octógono vermelho.
Em 2005, a MG Rover entrou em colapso e a marca foi adquirida pela gigante chinesa SAIC Motor dois anos depois. Hoje, da herança britânica resta o logótipo e alguma nostalgia. A engenharia veio de Xangai e o S5 EV é a prova de que essa mudança não foi de todo uma capitulação.

O modelo sucede diretamente ao ZS EV, mas parte do mesmo ponto de partida do aclamado MG4 elétrico, o hatchback que se tornou um fenómeno de vendas na Europa pela equação qualidade/preço.
A versão 64 kWh, com um motor de tração traseira de 228 cv, testada pelo ECO, cumpre o 0-100 km/h em 6,1 segundos e declara 480 quilómetros de autonomia WLTP. Em condução real e mista, esperam-se entre 380 e 400 quilómetros — honesto e suficiente para a maioria dos condutores.
O carregamento DC suporta até 139 kW, o que permite ir dos 10% aos 80% em menos de 30 minutos. A tração traseira a este preço é um detalhe que poucos rivais oferecem, e nas curvas nota-se: há equilíbrio e até algum prazer ao volante que a maioria dos SUV de tração à frente nesta categoria simplesmente não consegue proporcionar.
O MG S5 não é de todo o carro que vira cabeças no cruzamento da Avenida da Liberdade. Para quem prefere passar em silêncio, é precisamente isso que oferece.
Esteticamente, o S5 EV escolhe a contenção. As linhas são modernas e cuidadas, os faróis LED dão presença urbana ao conjunto, mas a dianteira é suficientemente discreta para não provocar nem entusiasmo nem desconforto.
Não é de todo o carro que vira cabeças no cruzamento da Avenida da Liberdade. Para quem prefere passar em silêncio, é precisamente isso que oferece. Para quem espera que um elétrico de nova geração arrisque mais personalidade visual, a deceção será moderada, mas real. Mas é no interior que o S5 EV convence de forma mais sólida.
A MG claramente resolveu as principais reclamações acumuladas no MG4 e no ZS EV, e fê-lo de uma só vez. O tablier está quase inteiramente revestido em materiais macios, o volante envolto em pele sintética perfurada e a qualidade de construção geral deixa rivais de preço equivalente num embaraço justificado.
O ecrã tátil de 12,8 polegadas é nítido e bem organizado, mas o destaque vai para os botões físicos do ar condicionado, uma opção tão sensata quanto escassa num mercado que decidiu enterrar os comandos táteis em três submenus.
O sistema MG Pilot funciona acima do esperado, e há um atalho direto no volante para o silenciar: simples, prático, raro. O apoio lombar ajustável fica, porém, reservado às versões superiores – uma limitação difícil de justificar no equipamento de série. Além disso, o espaço disponível também não dececiona. A bagageira de 453 litros, o piso plano e a ampla zona traseira posicionam o S5 EV ao nível dos rivais mais sólidos da categoria. Dois adultos de 1,80 metros fazem a viagem sem reclamações.
A suspensão é o ponto que divide. Em contexto urbano, filtra bem as irregularidades do piso lisboeta. Na autoestrada e em estrada nacional com pavimento degradado, o comportamento torna-se agitado e transmite uma trepidação que outras ofertas concorrentes, como o Skoda Elroq, não partilham. Os travões têm uma resposta inicial brusca: não é exclusivo deste carro, mas também não é algo a ignorar.
A fiabilidade continua a ser o principal ponto de interrogação sobre qualquer MG. No estudo de satisfação What Car? de 2024, a marca foi eleita a menos fiável do Reino Unido: 37% dos modelos com menos de cinco anos registaram avarias, e, em 58% desses casos, o carro ficou imobilizado mais de uma semana. O MG4, que partilha a plataforma com o S5 EV, foi o modelo com pior desempenho em toda a tabela.
Os dados de 2025 e 2026 apontam para uma melhoria gradual, com a MG a aproximar-se dos rivais coreanos nas métricas de satisfação. No mercado português, a marca responde com uma garantia de sete anos ou 150 mil quilómetros, aplicável ao veículo completo, incluindo bateria e motor elétrico, e com garantia anticorrosão também de sete anos, aqui sem limite de quilómetros.
A 36 mil euros na versão Comfort 64 kWh, o MG S5 EV entrega autonomia real suficiente, um interior acima da média, segurança certificada e um prazer de condução que o preço não fazia prever. Contudo, é importante não esquecer as limitações: suspensão inconsistente em estrada, design que não arrisca, historial de qualidade ainda em reabilitação.
A MG não precisa de ser perfeita para se tornar uma boa compra. Precisa de ser suficientemente boa e, desta vez, ficou bastante perto desse objetivo.
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