BRANDS' ECO Custo da energia trava eletrificação da indústria
No Portugal Energy Storage Forum, decisores do setor energético alertaram que os elevados custos da eletricidade e a falta de políticas claras travam projetos cruciais para a transição.
A competitividade da indústria nacional tem sido fortemente afetada pelos elevados preços da energia, desafio que o armazenamento e o autoconsumo podem ajudar a minimizar. No entanto, o enquadramento regulatório pouco claro e a imprevisibilidade do investimento continuam a travar projetos que contribuem para a eletrificação. Estes e outros temas foram debatidos na primeira edição do Portugal Energy Storage Forum, organizado pela Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), que juntou esta terça-feira, em Lisboa, os principais intervenientes do setor. O evento contou com a Huawei como Premium Partner, e a AFRY, EML, Engie e Triple Watt como Partners.
Se a eletrificação é um caminho inevitável, os peritos consideram que não deixa de estar repleto de desafios ao nível da rede, do armazenamento, da regulação e da incerteza no retorno de investimentos. Há consensos sobre os próximos passos, mas persistem as barreiras que travam o progresso.
Indústria sob pressão
Eliminar o fóssil é necessário e desejável, mas a competitividade da economia nacional não pode ficar para trás, acredita Carla Pedro, diretora-geral da Associação Portuguesa da Química. “O processo de descarbonização está em curso”, no entanto, “Portugal não compara bem em custos de eletricidade”, apesar da crescente incorporação de energias renováveis.
O formato distinto dos apoios nacionais são um entrave ao desenvolvimento do país, principalmente em relação às grandes indústrias intensivas europeias, que contam com auxílio estatal e “apoios em vários formatos”. Perante a crise energética que o mundo atravessa, se as medidas portuguesas não forem equivalentes às dos restantes países europeus, “nunca vamos comparar bem e ser competitivos”.
Temos grandes dificuldades em manter custos de eletricidade competitivos em comparação com outras geografias
Também Nuno Martins, diretor executivo da Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Elétrica (APIGCEE), alertou que o custo da energia continua a ser um fator crítico. “Temos grandes dificuldades em manter custos de eletricidade competitivos em comparação com outras geografias”, disse, referindo ainda os custos adicionais e a falta de escala dos mecanismos de compensação.
E se por um lado o autoconsumo e o armazenamento de energia são bons candidatos a soluções, por outro, a sua adoção é desafiante. Os atrasos no licenciamento de novos projetos e a “incerteza regulatória e sinais contraditórios das políticas públicas” dificultam ainda mais uma transição que, por si só, já é complexa, afirmou Carlos Sampaio, CEO da Elergone.
A utilização de baterias para armazenar energia é importante para minimizar falhas na rede, que têm impacto direto na produção industrial, mas o investimento sem apoios afasta, muitas vezes, o setor dessa realidade, destacaram Nuno Rodrigues, diretor de energia e transição energética da Navigator, e Teresa Marques, responsável de energia e planeamento integrado de produção da Bondalti.
Não podemos esquecer que o acesso à rede é uma questão de segurança para a Europa
O desafio passa por criar condições de mercado que valorizem o papel do armazenamento, mas que também compensem quem investe em baterias pelo seu contributo para a rede, defendeu Samuel Ferreira, responsável pelo desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia da Huawei Digital Power Portugal.
Redes sem resposta estrutural
Além da dificuldade de licenciamento e da complexidade regulatória, há um outro problema: a falta de preparação. “O planeamento quanto à gestão da rede ainda é muito reativo”, apontou Vidushi Dembi, analista da WindEurope, defendendo a necessidade de uma abordagem mais preventiva em linha com o crescimento das energias renováveis. “Não podemos esquecer que o acesso à rede é uma questão de segurança para a Europa”, sublinhou, avisando que, depois de planear, é preciso investir e focar em projetos que tragam equilíbrio ao sistema.
A flexibilidade nas ligações à rede foi identificada como uma solução temporária, mas insuficiente. Falta clareza sobre o seu funcionamento e impacto, o que limita a sua aplicação.
O enquadramento legislativo existe, o problema está na execução. “Temos boa legislação europeia, mas falta implementar”, explicou, ao referir-se à implementação da Diretiva Europeia de Energias Renováveis, que deve ser uma prioridade para todos os Estados-membros. A par disso, é necessário evoluir para sistemas de licenciamento mais simples, digitalização dos processos e uniformização de ferramentas.
Embora as baterias possam ajudar a estabilizar receitas, continuam a representar um investimento significativo
Patrick Clerens, secretário-geral da Energy Storage Europe, destacou a crescente necessidade de armazenamento num sistema que ainda apresenta elevada inércia. Pela primeira vez, disse, existe uma preocupação concreta com a capacidade de armazenamento, associada não só a custos, mas também à independência energética.
Financiamento em causa
Como qualquer sistema complexo, a rede elétrica é composta de múltiplas variáveis e desafios, em que o financiamento está naturalmente incluído. Retomando a questão do armazenamento, Juan José Blanco García, da Axpo Iberia, destacou o papel das baterias na mitigação do excesso de produção de renováveis, na resposta à volatilidade dos preços, mas também na possibilidade de gerar novas fontes de receita através da flexibilidade. Só com estabilização de receitas, apontou, podem os projetos de armazenamento ter viabilidade financeira.
Ainda assim, os desafios persistem. Os custos elevados estão a afetar diferentes tecnologias, dificultando o financiamento de projetos. “Embora as baterias possam ajudar a estabilizar receitas, continuam a representar um investimento significativo”, explicou Raoul Filaine, responsável pelo desenvolvimento de renováveis da Engie em Portugal.
Ao contrário do que acontece com o armazenamento hídrico, uma tecnologia mais madura e com maior longevidade e estabilidade, as baterias têm ciclos de vida mais curtos, o que implica investimento mais constante e maior incerteza, acrescentou Filipe Almeida-Santos, chief financial officer da Movhera.
No caso português, o principal entrave parece estar na previsibilidade das receitas. João Macedo Santos, CEO da Akuo Portugal, sublinhou que, mesmo que o licenciamento possa não ser um obstáculo, “as receitas são muito questionadas”, o que afasta investidores. O atraso face a Espanha no desenvolvimento de mecanismos de capacidade pode traduzir-se numa perda de investimento para Portugal, acrescentou.
Sem previsibilidade, enquadramento claro e planeamento, o armazenamento continuará a ser reconhecido como essencial, mas difícil de concretizar na realidade nacional.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Custo da energia trava eletrificação da indústria
{{ noCommentsLabel }}