Gouveia e Melo defende “mais autonomia” nos drones militares
"A certa altura, o homem vai sair do loop de decisão. Não há hipótese", disse o almirante e ex-candidato presidencial. "No futuro, os drones serão culpados ou não dos seus atos."

- Henrique Gouveia e Melo defendeu na 7.ª Talk .IA a necessidade de maior autonomia para drones e equipamentos militares, devido à aceleração das ameaças.
- O ex-chefe da Marinha destacou que a regulação excessiva na Europa pode atrasar o desenvolvimento tecnológico, colocando a liderança da região em risco.
- Gouveia e Melo acredita que a robótica e a inteligência artificial podem aumentar significativamente a produtividade, essencial para enfrentar o desafio demográfico europeu.
A “aceleração” das ameaças em contexto militar “vai fazer com que o homem não tenha tempo para decidir” — logo, “a certa altura, o homem vai sair do loop de decisão”. A previsão foi feita esta segunda-feira por Henrique Gouveia e Melo, num discurso sobre o papel da inteligência artificial (IA) no setor da Defesa em que defendeu “mais autonomia no drone ou no equipamento”. “Não há hipótese”, sublinhou o militar na reserva.
O antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, e recém-candidato presidencial, discursava na 7.ª Talk .IA — uma iniciativa do ECO e do eRadar — sobre um assunto que tem merecido uma ampla discussão a nível internacional: o crescente uso de sistemas autónomos na guerra, incluindo armas letais. Um debate que ganhou dimensão nas últimas semanas devido à guerra no Irão e ao braço-de-ferro entre a Anthropic e a Administração Trump.
No discurso proferido esta segunda-feira, 30 de março, Gouveia e Melo posicionou-se claramente a favor do crescente uso de tecnologias de IA na Defesa e contra a regulação na Europa: “Dizer que os militares não vão usar isto é a mesma coisa que dizer que os militares vão ser batidos por um adversário que esteja disponível para usar isto”, apontou.
Veja aqui o discurso na íntegra:
Para justificar esta necessidade de descentralizar o comando militar, dando mais autonomia às máquinas, Gouveia e Melo apontou para a “aceleração” dos conflitos: “Há um conjunto de decisões que vão ter que passar por robótica, por um lado, mas por IA. Porquê? Porque a decisão é muito rápida. Portanto, o ser humano não tem velocidade para processar a informação em tempo. E nós, militares, estamos todos preocupados com isso. Porque as ameaças, de outra forma, não conseguimos combatê-las.”
Dito isso, acrescentou: “Um dos outros problemas que nós temos no comando e controlo é que nós queremos controlar coisas que são muito rápidas. Precisamos de uma grande banda de comunicações para passar muitos dados e as comunicações são o problema. É o calcanhar de Aquiles deste processo. Portanto, qual é o caminho para evitar isso? Mais autonomia no drone ou no equipamento”, defendeu.
Para justificar esta delegação da decisão nas máquinas, o almirante deu como exemplo um possível ataque com um míssil hipersónico a um navio. “Entre o ser humano dizer ‘tenho aqui um míssil hipersónico’, perguntar ao comandante ‘senhor comandante, temos um míssil hipersónico’, já o míssil hipersónico bateu”. Resumidamente: “A aceleração da ameaça vai fazer com que o homem não tenha tempo para decidir.” Como tal, o envolvimento humano nesta cadeia de decisão automática terá de acontecer a montante, “no treino do sistema” ou do algoritmo, disse o ex-chefe da Marinha.
Dizer que os militares não vão usar isto é a mesma coisa que dizer que os militares vão ser batidos por um adversário que esteja disponível para usar isto.
“No futuro, os drones serão culpados ou não dos seus atos”
Na 7.ª Talk .IA, Henrique Gouveia e Melo referiu-se também ao infame ataque a uma escola em Minab, na província de Hormozgan, no sul do Irão, que resultou na morte de 168 pessoas, incluindo uma centena de crianças, configurando um crime de guerra — e cuja autoria é atribuída aos EUA pela Amnistia Internacional.
“Por exemplo, o que pode ter acontecido no Irão foi um erro de análise. (…) O que provavelmente aconteceu é que havia muitos relatórios de informação que foram processados de forma estatística, por IA, e se calhar os últimos relatórios não tiveram o peso que teriam em termos do que era a estatística da análise, e consideraram que aquilo continuava a ser uma instalação da Guarda Revolucionária do Irão.”
Numa altura em que se apuram responsabilidades, Gouveia e Melo considerou que as próprias máquinas poderão vir a ser responsabilizadas, a partir do momento em que têm autonomia: “No futuro, os drones serão culpados ou não dos seus atos, porque nós, seres humanos, já lhes demos a autonomia que nós não a conseguimos controlar. E nós estamos a criar novos seres. É um novo ser.”
“Temos que nos preparar para esses novos seres”, continuou. “Porque depois dizem ‘bem, vamos culpar quem fez o hardware ou o sistema operativo que desenvolve aquilo’. Não, porque esse drone ou esse equipamento aprendeu com a sua própria realidade. Portanto, ele passou a ter consciência. Tendo consciência, tem que ser julgado”, indicou o ex-candidato.

Da “excessiva” regulação à “burrocracia” europeia
Na mesma intervenção, Henrique Gouveia e Melo advertiu que “há uma bolha” na IA. Mas, logo de seguida, reconheceu que a tecnologia está a desencadear “uma revolução”. “Não estamos a ver a dimensão do processo na sua totalidade”, afirmou o ex-candidato presidencial.
As palavras seguintes tiveram como alvo a Comissão Europeia. “Uma excessiva preocupação com a regulação o que vai fazer é atrasar a Europa. E, se calhar, esta terceira revolução humana vai ser uma revolução que vai estar à volta do Pacífico, ou seja, entre os EUA e a Ásia e o Pacífico. Portanto, nós podemos perder, verdadeiramente, um papel fundamental na próxima liderança tecnológica e, com isso, perdermos a liderança até económica”, avisou Gouveia e Melo. “Para além da excessiva regulação, gostamos de acrescentar a camada da burocracia — ia-me fugir a voz para a verdade, que era a burrocracia“, reforçou.
Para contornar esse risco, o almirante prescreveu “um novo ecossistema” no eixo Atlântico: “Isto é a minha tese. Ou a Europa se une aos Estados Unidos e, de alguma forma, à África, que está a crescer, e cria à volta do Atlântico um novo ecossistema que consegue competir com o ecossistema do Pacífico, ou vamos ter o fim: a nossa civilização vai ficar em segundo ou terceiro plano”, asseverou.
Além da constituição deste ecossistema, o mesmo pode e deve ser acelerado com recurso às tecnologias que estão a ser desenvolvidas, ainda que de uso civil: “Não há militares e civis. Há uma sociedade. E as coisas não têm fronteiras. Quando qualquer coisa acontece numa parte da sociedade, naturalmente ela transita para outra parte da sociedade. E vice-versa.” Para Gouveia e Melo, “seria muito estúpido uma sociedade ter um problema por resolver, havendo uma solução ao lado, e não a usar”.
Uma excessiva preocupação com a regulação o que vai fazer é atrasar a Europa.
“Eu ainda tenho esperança de ter um humanóide em casa”
Há vários subdomínios dentro da IA, mas o foco do almirante está apontado a um em específico: dias antes, o Expresso revelou que Gouveia e Melo está a preparar um cluster de robótica militar em Portugal e Espanha, que posteriormente alimente a robótica de duplo uso militar e civil. Essa inclinação ficou evidente no seu discurso no Estúdio ECO.
“Nós um dia vamos ter em casa um humanóide que faz as tarefas de casa”, afirmou, podendo até ser um confidente: “Não se cansa, é capaz de nos aturar”, brincou.
“Isto vai acontecer ainda nas nossas vidas”, garantiu. “Eu ainda tenho esperança de ter um humanóide em casa que me trate da cama, me passe a roupa e depois, no fim do dia, ainda fale comigo, sempre com a mesma alegria, com sorriso na cara, sem dizer que eu não faço nenhum, que sou um mandrião.”
Serão tecnologias como essa que permitirão “aumentar a produtividade da nossa economia gigantescamente”. “Um trabalhador que é um braço mecânico não se cansa. Um trabalhador com precisão é melhor que um trabalhador que pode fazer coisas com mais defeito ou menos defeito dependendo da forma como dormiu. E nós vamos ter um aumento da produtividade gigantesco.”
“Por que é que é uma boa notícia? Porque há menos gente a trabalhar, fruto do problema demográfico europeu e de outros países, para mais gente que tem que ser sustentada por essa menos gente que está a trabalhar. Se não houver um aumento da produtividade gigantesco, o problema não se resolve. E o problema da produtividade vai ser resolvido precisamente através da inteligência artificial e da robótica”, concluiu Henrique Gouveia e Melo.
A 7.ª Talk .IA discutiu o papel da IA na indústria da Defesa. Tratou-se de uma iniciativa da Comunidade .IA, um projeto editorial do ECO, em parceria com o eRadar, marca dedicada à Defesa e Segurança.
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