Um mês de guerra em oito gráficos de mercados
Do petróleo, à dívida, passando pelas ações e pelas taxas de juro, o início do conflito no Médio Oriente provocou um forte abalo (e continua a provocar) nos mercados. Veja o impacto em oito gráficos.
Os ataques ao Irão conduzidos pelos EUA e por Israel, no final de fevereiro, vieram criar uma nova onde de incerteza nos mercados. Depois de um ano de tarifas, negociações e ameaças ao comércio internacional, a guerra no Médio Oriente marcou um novo foco de instabilidade. O encerramento quase total do Estreito de Ormuz desde o início do conflito acelerou uma escalada dos preços da energia e um sell-off nos mercados, com os investidores a temerem um cenário de estagflação e a anteciparem uma inversão na política monetária, para travar uma nova vaga inflacionista.
Apesar de o petróleo ser “o rosto” do impacto da guerra nos mercados, a razia é transversal a outros ativos, desde as ações, à dívida e até ao “refúgio” ouro, sem esquecer a Euribor, que continua a acelerar, perante a expectativa de subidas de taxas de juro já este ano.
Veja o impacto de um mês de guerra em oito gráficos nos mercados.
Petróleo acima dos 110 dólares ameaça economia
O conflito no Médio Oriente e o fecho do Estreito de Ormuz estão a causar forte oscilações nos preços do petróleo. Com os países do Golfo Pérsico a produzirem cerca de um terço do petróleo consumido a nível global e 20% do gás natural, o encerramento deste importante canal, por onde passa cerca de 20% da produção diária global de ouro negro, fez soar os alarmes e chegou a atirar a matéria-prima para máximos de 2022, ao subir para 119,50 dólares.
Apesar de o petróleo ter aliviado desses valores, os receios de novos máximos mantêm-se e o Brent, negociado em Londres e que serve de referência às importações nacionais, segue em torno de 110 dólares por barril. Em Nova Iorque, as cotações rondam os 96 dólares. A matéria-prima escala perto de 53% desde o início do conflito, no mercado londrino, quando negociava nos 73 dólares. Já o WTI acumula uma subida próxima de 45%, no primeiro mês de guerra.
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Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o conflito retirou cerca de 11 milhões de barris por dia da oferta global de petróleo, o que representa a pior crise desde os dois choques petrolíferos da década de 1970 combinados. “Por cada dia em que os fluxos através do Estreito permanecem restringidos, mais de 10 milhões de barris de petróleo ficam em falta… apertando ainda mais o mercado petrolífero”, sintetiza o analista da UBS, Giovanni Staunovo, citado pela Reuters.
Já os analistas do Macquarie Group antecipam que os preços do petróleo cairão rapidamente se a guerra começar a abrandar. No entanto, avisam que os preços poderão subir para 200 dólares se a guerra se prolongar até ao final de junho.
Bolsas tremem com receios de estagflação
Os mercados acionistas mundiais, que negociavam em território de máximos, inverteram a tendência positiva e mergulharam para o vermelho, perante o receio que um cenário de inflação trave a economia global e leve a um aumento das taxas de juro por parte dos bancos centrais mundiais. Enquanto os principais índices do Velho Continente terminaram o primeiro mês de guerra com quedas de dois dígitos – Alemanha e França — , o americano S&P 500 recuou para mínimos de seis meses, perante a incerteza em torno do conflito. O português PSI, apesar de não escapar às quedas, é o que menos desce: perde 4,23% em março.
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Depois dos alertas deixados pelo Banco Central Europeu, em Bruxelas, a escalada dos preços da energia, mas também os riscos para o abastecimento global, são agora o tema central dos discursos dos responsáveis da Comissão Europeia, que já admite um cenário de estagflação.
“Por enquanto, as perspetivas estão envoltas em profunda incerteza. Mas é evidente que corremos o risco de um choque estagflacionista”, admitiu o comissário europeu da Economia, Valdis Dombrovskis, no final da semana passada. Perspetivas pouco animadoras para as empresas e para os investidores, prometendo continuar a pressionar a negociação, enquanto não houver visibilidade sobre uma resolução do conflito.
Euribor agrava custos das prestações da casa
O principal indexante de crédito à habitação tem vindo numa espiral de subida, com o fantasma de 2022 a pairar nos mercados. A taxa a 12 meses fechou a semana passada nos 2,86%, aproximando-se da marca de 3%, num momento em que os mercados já antecipam até três subidas de juros este ano. Este agravamento das taxas que servem de indexante nos créditos da casa já está a aumentar as prestações destes empréstimos. Quem revir nos próximos meses o empréstimo vai sentir a subida dos juros.
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Vários membros do Banco Central Europeu (BCE) têm sinalizado a possibilidade de uma alteração na política de juros da região, face às ameaças inflacionistas colocadas pela guerra. Na semana passada, a presidente do BCE, adiantou que embora reconheça que o impacto causado até agora pelo conflito no Médio Oriente seja diferente da situação provocada pela invasão russa da Ucrânia no início de 2022, quando os preços subiram a dois dígitos, o banco central “não ficará paralisado pela hesitação” se o atual aumento dos custos da energia vier a provocar um agravamento mais generalizado de inflação.
Gás natural custa quase o dobro
Com a exportação de gás natural do Golfo fortemente afetada pela guerra na região, à semelhança do petróleo, os preços do gás natural dispararam no primeiro mês de conflito na região. O holandês Title Transfer Facility, marcava esta sexta-feira os 54,177 euros por Mwh, quase o dobro do registado a 27 de fevereiro, 31,96 euros por MWh, o dia que antecedeu o primeiro ataque ao Irão no âmbito deste conflito. Já o contrato britânico negociava nos 136,66 pence de libra por termia.
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A Europa precisa de importações de GNL para ajudar a encher os seus depósitos de gás, que ficaram esgotados durante o inverno e estão atualmente com cerca de 30% da sua capacidade, segundo os dados mais recentes da Gas Infrastructure Europe. Portanto, dependendo da duração do conflito, a subida de preços poderá ser ainda mais significativa, com impacto negativo para empresas e famílias.
Juros da dívida agravam-se
O agravamento do sentimento nos mercados está a refletir-se nos custos cobrados pelos investidores para emprestar dinheiro aos Estados. As I da dívida soberana disparam desde o início da guerra. A taxa a 10 anos das treasuries dos EUA seguem próximas dos 4,5%, enquanto a yield a 10 anos da República Portuguesa negoceia acima de 3,58%. Já as alemãs bunds saltaram para máximos de 15 anos, com a taxa de referência a superar os 3%.
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Os investidores estão a antecipar que a taxa dos depósitos suba para 2,7% até setembro, face aos atuais 2%, e estão a atribuir uma probabilidade de 60% de a primeira subida de juros ocorrer até maio.
Moeda única perde para o dólar
O euro desvalorizou mais de 2,5% face ao dólar no primeiro mês de guerra, para negociar acima de 1,15 dólares. A “nota verde” tem sido beneficiada pelo seu estatuto de ativo de refúgio, à medida que a guerra no Médio Oriente se intensifica de depois de as negociações entre os EUA e o Irão não terem mostrado avanços na última semana.
Apesar de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter voltado a prolongar um prazo para um possível ataque às infraestruturas energéticas do Irão, até 7 de abril, o nível de incerteza em relação à situação mantém-se elevado, empurrando os investidores para ativos considerados mais seguros, como é o caso do dólar norte-americano.
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Ouro perde brilho com receios de inflação
Após sucessivos recordes, que levaram o ouro a negociar em níveis cada vez mais elevados, a guerra no Irão veio interromper a espiral de ganhos do metal precioso. Desde o início da guerra, o ouro afunda mais de 16%, para cotar em torno dos 4.422 dólares por onça, com os investidores determinados a evitar o metal precioso, mesmo perante um mar de incertezas.
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Os receios de uma subida da inflação e, por consequência, aumentos de taxas de juro e dólar mais alto determinaram a correção do metal precioso nas últimas semanas. Apesar da correção, os analistas ainda veem espaço para uma recuperação. “A recente queda criou uma excelente oportunidade porque os preços caíram abaixo da média móvel de 200 dias, este é um momento incrível para comprar ouro”, afirmou Daniel Pavilonis, estratega sénior de mercado na RJO Futures, citado pela Reuters.
Índice da volatilidade mostra nervosismo
O índice VIX, o chamado índice do medo, disparou desde o início da guerra no Irão. Este indicador, que mede a volatilidade do S&P 500, tem refletido o grande nervosismo dos investidores, que reagem com grande rapidez às notícias que vão saindo, o que se traduz em subidas e descidas bruscas.
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