Exclusivo Gouveia e Melo promete cluster de robótica militar em “menos de três meses”

Ao ECO/eRadar, o antigo chefe do Estado-Maior da Armada diz que já está a falar com empresas nacionais, mas também em Espanha e na Alemanha, para a criação de um cluster de robótica militar.

Henrique Gouveia e Melo, no encerramento da 7.ª Talk .IA, iniciativa que discutiu como a indústria da Defesa está a encarar a Inteligência ArtificialHugo Amaral/ECO

Henrique Gouveia e Melo, ex-Chefe do Estado-Maior da Armada, diz que o cluster de robótica militar que está a preparar deverá arrancar em “menos de três meses”. “O mercado exige respostas para amanhã“, afirma o almirante e antigo candidato presidencial, em declarações ao ECO/eRadar.

Na sexta-feira, o Expresso revelou que Gouveia e Melo está a preparar um cluster de robótica militar em Portugal e Espanha, que posteriormente alimente a robótica de duplo uso militar e civil.

Sobre esta ideia, o antigo chefe do Estado-Maior da Armada detalha q.b. os contornos deste futuro cluster: “É um conjunto de iniciativas. Por um lado, financiamento vertical dedicado à robótica militar, depois uma aceleradora de toda esta tecnologia, juntando as nossas startups e a tecnologia que existe em Portugal, mas não só, também na Península Ibérica. Na Alemanha, por exemplo, também já temos contactos”, explicou, à margem da 7.ª Talk .IA, dedicada ao uso de inteligência artificial (IA) na indústria da Defesa — uma iniciativa das marcas .IA e eRadar, que decorreu esta segunda-feira no Estúdio ECO, em Lisboa, e na qual o almirante foi orador.

Haverá ainda “um integrador que faz toda a logística do processo, porque, quando se vendem produtos novos, há que manter uma cadeia logística, e muitas vezes as empresas falham porque não mantém essa cadeia logística de apoio ao cliente. E é este stack de coisas que nós estamos a fazer”, elenca.

Não preciso de dinheiro do Estado. Temos financiamento privado. Isto é uma iniciativa totalmente privada porque não temos tempo a perder. O mercado está a exigir respostas para amanhã, não para daqui a cinco anos. E se isto não for feito de um modelo totalmente empresarial, se estivermos dependentes do Estado, não conseguimos atingir os nossos objetivos.

Henrique Gouveia e Melo

Almirante e antigo chefe do Estado-Maior da Armada

“Estamos a fazer tudo ao mesmo tempo, a colar estas peças, e em menos de três meses temos o processo a andar”, garante Gouveia e Melo, que adianta que já está a falar com empresas nacionais. “Claro que já falei com empresas portuguesas”, diz (quais, não revela).

“O segredo é um bocado a alma do negócio, agora não vou aqui dizer quem é que são os parceiros e com quem é que nós estamos a falar“, afirma, quando instado a detalhar com que empresas está em conversações.

Gouveia e Melo não adianta igualmente quais os financiadores por detrás do seu projeto. “Não preciso de dinheiro do Estado. Temos financiamento privado. Isto é uma iniciativa totalmente privada porque não temos tempo a perder. O mercado está a exigir respostas para amanhã, não para daqui a cinco anos. E se isto não for feito de um modelo totalmente empresarial, se estivermos dependentes do Estado, não conseguimos atingir os nossos objetivos”, atira.

Não preciso de dinheiro do Estado. Temos financiamento privado. Isto é uma iniciativa totalmente privada porque não temos tempo a perder.

Henrique Gouveia e Melo

Almirante e antigo chefe do Estado-Maior da Armada

“A única coisa que eu desejo verdadeiramente do Estado, e já disse, é que o Estado não atrapalhe. Ou com regulação excessiva, ou com impedimentos burocráticos, porque é isso que depois faz atrasar a evolução das empresas e a competitividade das empresas”, acrescenta.

Qual o capital privado e que valor foi já angariado para o projeto é informação que o militar também não revela. “Há muito capital disponível para ideias boas e projetos bons. E, portanto, este capital está disponível”, diz apenas. Quanto? “Não vou especificar isso, mas é mais que suficiente”, garante.

Antes de ser questionado pelo eRadar, Gouveia e Melo já tinha abordado o projeto no seu discurso na 7.ª Talk .IA: “A boa notícia para Portugal é que países pequenos têm menos inércia”, realçou. O que joga a favor quando se fala de um projeto como a criação de um cluster de robótica militar.

“Num país pequenino, seria quase uma tentativa irrealista. Mas não é. Porque quem tem menos inércia faz curvas a 90º. Quem tem inércia faz curvas a 3 / 4º. Quando chega ao novo rumo, já passou muito tempo. E o mundo está em forte aceleração”, destaca. “Por isso, IA nas forças armadas é uma coisa essencial. Vai acontecer. Quem não quiser vai ficar para trás”, conclui.

Henrique Gouveia e Melo, no encerramento da 7.ª Talk .IA, iniciativa que discutiu como a indústria da Defesa está a encarar a Inteligência Artificial.Hugo Amaral/ECO

Para o antigo chefe de Estado-Maior da Armada, o não uso da IA pelas forças armadas é assumir uma derrota antecipada. “Dizer que os militares não vão usar isto é a mesma coisa que dizer que os militares vão ser batidos por um adversário que esteja disponível para usar isto”, apontou no seu discurso.

Num momento de aceleração de conflitos, “há um conjunto de decisões que vão ter que passar por robótica, por um lado, mas por IA. Porquê? Porque a decisão é muito rápida. Portanto, o ser humano não tem velocidade para processar a informação em tempo. E nós, militares, estamos todos preocupados com isso. Porque as ameaças, de outra forma, não conseguimos combatê-las”, argumentou.

“Um dos outros problemas que nós temos no comando e controlo é que nós queremos controlar coisas que são muito rápidas. Precisamos de uma grande banda de comunicações para passar muitos dados e as comunicações são o problema. É o calcanhar de Aquiles deste processo. Portanto, qual é o caminho para evitar isso? Mais autonomia no drone ou no equipamento”, considera.

E dá um exemplo do papel da IA em situação de conflito. “Entre o ser humano dizer ‘tenho aqui um míssil hipersónico’, perguntar ao comandante ‘senhor comandante, temos um míssil hipersónico’, já o míssil hipersónico bateu”.

Na prática, “a aceleração da ameaça vai fazer com que o homem não tenha tempo para decidir”, por isso, o envolvimento humano terá de “no treino do sistema” ou do algoritmo, aponta o ex-chefe da Marinha.

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