Na defesa “se nós não garantimos a soberania, alguém vem garantir”
A IA está a ser usada de forma transversal pelas empresas na linha da frente para garantir a soberania europeia e nacional a nível da defesa e espaço. Que desafios sentem e qual o papel da regulação?

- A discussão sobre a regulação da inteligência artificial (IA) na indústria da defesa destaca a necessidade de inovação e soberania, com as empresas a alertar para riscos de desvantagem geopolítica.
- As empresas de defesa, como a Tekever, enfatizam que a IA ainda requer supervisão humana, pois não possui a capacidade de discernir a veracidade dos dados recebidos.
- A Europa enfrenta desafios significativos na soberania tecnológica, especialmente em hardware, e precisa avançar na produção de chips e infraestrutura para garantir a sua competitividade.
Há muitas IA no grande chapéu da IA e, no caso da defesa, ainda estamos longe de um momento de autoconsciência à la Skynet, numa altura em que se questiona até que ponto o poder de decisão está ainda nas mãos de humanos. As empresas alertam para a tentação de regular a IA aplicada à defesa que pode não só ‘matar’ a inovação, como colocar a Europa em desvantagem face a outras nações num momento geopolítico crucial. Em defesa, há que garantir a soberania. “Se nós não garantimos a soberania, alguém vem garantir.”
Num momento em que tanto se discute a aplicação de inteligência artificial (IA) ao setor de defesa, e até que ponto o poder de decisão está com os humanos, fará sentido estender a mão da regulação a este setor? Estarão as empresas mais ‘protegidas’ de conflitos como os ocorridos entre a americana Anthropic e o Pentágono? O que dizem as empresas nacionais que estão na linha da frente?
André Godinho Luz não olha com bons olhos para a regulação no atual momento de desenvolvimento da IA. E o diretor-geral da Infinite Foundry, que trabalha com o Exército na criação de ‘gémeos digitais’, através do uso de IA, para ajudar no planeamento de ações no teatro de operações, explica porquê.
“A Europa tentou criar um mega AI ACT que depois não deu em nada. Tentar criar uma mega lei, que tenta abarcar algo ainda em grande evolução, faz com que ou matemos a inovação ou depois tenhamos que depurar e quase não dar em nada”, atira André Godinho Luz, durante o painel “Missão: Inovação – Empresas na linha da frente”, da talk “IA na indústria da Defesa – a nova fronteira militar”, organizada pelo eRadar/.IA, que se realizou na segunda-feira, 30 de março, no Estúdio ECO.
Se na Europa tentar constranger demasiado as empresas europeias a algo que depois impede que possa evoluir, porque se evoluir já vou entrar na ilegalidade, enquanto outras jurisdições não têm essas ‘guardrails’. isso faz com que outras jurisdições tenham uma vantagem enorme relativamente a nós.
Demasiadas ‘guardrails‘ podem até ser contraproducentes em termos de eficácia se do outro lado do ‘conflito’ não existir o mesmo tipo de restrições. “Se a Europa tentar constranger demasiado as empresas europeias a algo que depois as impede de evoluir, enquanto outras jurisdições não têm essas ‘guardrails‘, isso faz com que outras jurisdições tenham uma vantagem enorme relativamente a nós”, alerta o diretor-geral da Infinite Foundry.
E não é o único a defender esta visão. Pedro Petiz, diretor de Desenvolvimento Estratégico da Tekever, também argumenta pela necessidade de atuar com cuidado no que toca a balizas demasiado restritivas. “Se outras civilizações não usam essas regras, há aqui uma assimetria e, portanto, temos que perceber como é que jogamos para essa assimetria”, aponta. “Todas as sociedades vão ter as suas normativas. Podem é não ser aquelas que gostamos ou que perfilhamos. Regimes de outra natureza vão ter também as suas limitações, porque também não hão de querer que os próprios desenvolvimentos se virem contra eles próprios.”
Poder de decisão ainda está nas mãos de humanos
Único unicórnio nacional no setor da defesa, a Tekever atua num dos setores de maior crescimento na indústria militar a nível global: os drones. Só em Portugal, estes equipamentos já representam 21% das exportações nacionais no setor militar.
Mas, num momento em que o conflito do Irão voltou a colocar a utilização de drones na ordem do dia e se discute — muito impulsionados pelo braço-de-ferro entre a Anthropic e o Pentágono — quais os limites que se deve impor ao uso do IA no setor da defesa, Pedro Petiz alerta que ainda estamos longe de sistemas completamente autónomos.
Quando falamos depois da tomada de decisão, no caso dos drones nos quais nós trabalhamos, temos sempre o operador in the loop. Até porque o IA por muito avançado que esteja — e está muito avançado — ainda não tem uma perceção para identificar se os dados que recebe estão errados ou não.
“Analisar dados é uma coisa, tomar decisão é outra. É impossível, cognitivamente, para o ser humano analisar à data de hoje, a quantidade de dados que existem, portanto, a IA é muito usado nessa fase, inclusive na área dos drones”, explica.
“Muita informação que é utilizada e processada dos dados que vêm dos sensores, se não for com recurso a técnicas de automação, torna-se bastante difícil a sua utilização. Quando falamos da tomada de decisão, no caso dos drones nos quais nós trabalhamos, temos sempre o operador in the loop. Até porque o IA por muito avançado que esteja — e está muito avançado — ainda não tem uma perceção para identificar se os dados que recebe estão errados ou não”, refere.
Além disso, lembra, a IA exige não só “uma capacidade de processamento grande”, como capacidade de comunicações. “Se tiver mini drones ou pequenos drones, têm que estar ligados a uma rede para conseguirem processar. O drone em si, sozinho, não consegue fazer todo esse processamento. Se eu não tiver comunicações, esse drone deixa de conseguir fazer essa ação à data de hoje“.
Este é o atual estado da arte, mas, “ao ritmo que a tecnologia evolui, não sabemos se daqui a uns anos toda essa capacidade computacional não é possível estar num drone”, admite. Mas, por agora, Pedro Petiz afasta receios de uma IA poderosa e autoconsciente.
“Ainda não estamos na era do Skynet, a IA vai continuar a desenvolver-se, e temos que estar preparados para lidar com ela, porque não é previsível que a IA deixe de ser usada e que reduza a sua capacidade”, diz o diretor de Desenvolvimento Estratégico da Tekever quando questionado sobre se o setor de defesa estava a chegar a um momento Skynet — o nome da IA popularizada nos filmes “Exterminador Implacável”.

E o mesmo diz André Godinho Luz. “Temos vindo a assistir a uma aceleração muito grande do marketing relativamente a essa tecnologia. O meu ponto é que há muitas décadas que já se está a trabalhar nisso e a tecnologia não evoluiu assim tanto. Houve essa história das promps, mas o resto — o processamento de imagem, a otimização de rota, os cálculos físicos, uma série de outras componentes — não evoluiu assim tanto. Houve uma introdução nova, o chat, hoje em dia mais amigável, mas foi só mais uma componente do IA”, refere.
Por isso, “não vai ser já de hoje para amanhã o SkyNet, não vai ser de hoje para amanhã uma série de coisas que nos metem medo, como termos aqui robôs humanoides a tomar decisões”, conclui o diretor-geral da Infinite Foundry.
Soberania começa por chips
Uma discussão em torno do uso de IA que passa também pelo espaço. “O espaço, tal como o IA hoje, deixaram de ser domínios tecnológicos apenas para passarem a ser efetivamente infraestruturas críticas das nossas sociedades”, destaca André Dias. “Não sei exatamente que tipo de posicionamento a Europa deve adotar [na regulação], mas certamente deve ser completamente diferente”, diz o diretor de Espaço do CEiiA. E dá exemplo dos desafios que o setor de defesa e do espaço enfrentam e que a Europa deve estar atenta. “O Open IA irá ganhar a corrida do IA nos Estados Unidos, a China ganha na Terra e depois o Elon Musk ganhará no espaço, a próxima fronteira para onde está a ir”, diz em tom de humor.
No setor espacial, a defesa ganha um novo protagonismo. Corre-se o risco de que a defesa seja o foco único do setor? “Tradicionalmente, o grande financiador do espaço foi, efetivamente, a defesa. Desde os anos 60-70, 90% dos investimentos na área de espaço têm sido todos da área de defesa”, diz André Dias.
A mudança na última década que resultou numa corrida ao espaço dos privados foi, sobretudo, impulsionada pela “diminuição brutal do custo do acesso ao espaço — hoje em torno dos 1.000 dólares por quilo, e com o Starship [da SpaceX, de Elon Musk] foi para os 100 dólares por quilo”, criando a New Space Economy [a nova economia do espaço].
“Criou esta bolha que faz com que seja muito barato e muito fácil enviarmos coisas para o espaço, gerar dados e depois tentar trazer valor disso”, lembra André Dias. “Se efetivamente essa bolha se traduziu em negócio, diria que não. Se forem analisar aquela que é a economia do espaço, não existem ainda unicórnios [na Europa]“, aponta.

Atualmente, a defesa está “novamente” a puxar pelo setor espacial. Mas também a “defesa percebeu que, efetivamente, não tem toda a capacidade, e quando digo capacidade falo muitas vezes também nas pessoas, o mesmo drive tecnológico e desenvolvimento que muitas vezes as entidades do setor privado têm. Portanto, aquilo que há a fazer é combinar o melhor dos dois mundos, também para enfrentar aqueles desafios que vamos ter em particular na área de espaço”, refere.
Hoje a palavra de ordem é uso dual. E exemplo desse conceito aplicado ao espaço é a Constelação Atlântico, projeto em que o CEiiA está envolvido e que, precisamente no dia e hora da conferência, estava a lançar para o espaço, com um foguetão da SpaceX nos EUA, dois novos satélites, um deles da Força Aérea.
Com a Constelação do Atlântico “houve aqui uma inovação introduzida, em particular por Portugal, porque fomos o primeiro projeto a nível europeu que efetivamente pivotou para esta lógica do uso dual do espaço e da importância dos dados espaciais nesta nova economia de defesa que vivemos hoje”, destaca André Dias.
“Temos já três satélites em órbita, hoje [segunda-feira] vamos lançar mais dois. Vamos lançar o primeiro satélite que efetivamente vai ser detido pela defesa numa lógica de soberania nacional, nomeadamente com uma tecnologia SAR, basicamente, um radar que permite observar quer de noite, quer, por exemplo, através das nuvens. Esta constelação estará operacional até ao final de 2027. Tem esta componente fortemente dual, de soberania, Por um lado, sustentabilidade e segurança, por outro lado, a defesa”, aponta o diretor de Espaço do CEiiA.
Com a Constelação do Atlântico “houve aqui uma inovação introduzida, em particular por Portugal, porque fomos o primeiro projeto a nível europeu que efetivamente pivotou para esta lógica do uso dual do espaço e da importância dos dados espaciais nesta nova economia de defesa que vivemos hoje.
“Somos claramente um país periférico de pequena dimensão, portanto a nossa relevância será sempre diminuta, mas é interessante ver também que são muitos destes pequenos países que, efetivamente, têm tomado a liderança para criar esta capacidade” de soberania europeia no espaço, destaca André Dias.
Mas estará efetivamente, na defesa e espaço, impulsionados pela IA, a Europa a ganhar a sua soberania? “Temos que distinguir, quando falamos de soberania, a de software e a de hardware”, diz André Godinho Luz. A de hardware é dominada pela Ásia, e do lado do software são os americanos. “A Europa está aqui um pouco entalada entre duas realidades e perdeu um pouco a competitividade nos dois lados”, considera o diretor-geral da Infinity Foundry.
“Temos desafios gigantescos na Europa porque do ponto de vista industrial estamos muito atrasados. Se não temos um setor industrial saudável, não temos soberania de nada, porque o software precisa hardware para correr. Preciso de chips, de matérias-primas, de capacidade de transformação, depois tenho o produto que é para depois o meu software atuar”, aponta.
“Antes de começarmos a falar de soberania da IA, temos de começar a falar de soberania de átomos [os chips]. E estamos muito longe disso”, lamenta.
“Depois no software andamos um bocado a reboque de ‘deixa cá ver o que é que os americanos, o que é que os chineses vão anunciar. Mas isso é extremamente perigoso. Porque não fomos nós que desenvolvemos o hardware, não sabemos exatamente o que está lá, só vemos uma camada por trás de uma série de outras camadas que não conhecemos”, conclui, atirando mais uma farpa à regulação: “A Europa quis regular algo quando não tinha a base. Preocupou-se com o que é visível para o exterior, mas depois por baixo do tapete tem tudo só lixo.”
Essa “lacuna é reconhecida pela própria Comissão Europeia, aponta Pedro Petiz, daí “ter criado o Chips Act e mais um conjunto de iniciativas”. Mas ganhar soberania não se fica só por ai. Passa pelos chips, pelos centros de dados, pela recolha de dados, pelo processamento do algoritmo, pelas comunicações, “para que depois isto, no final, quando casamos a IA, no nosso caso, com a robótica, essa informação e esse processamento fique alinhado”.
“Ainda há aqui muito trabalho a ser feito”, reconhece o diretor de Desenvolvimento Estratégico da Tekever. E conclui com um alerta. Portugal sente-se distante das “ameaças a Leste, esquecendo muitas vezes as ameaças do Atlântico e, por vezes, que há um conjunto de infraestruturas críticas que passam naquilo que é o nosso espaço. E se nós não garantimos a soberania, alguém vem garantir.”
Assista aqui ao painel “Missão: Inovação – Empresas na linha da frente”
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