Centeno reformou-se com 72% do último salário. Banco de Portugal já encontrou “solução” para mais cinco consultores
Santos Pereira revelou que foi o próprio ex-governador que lhe disse que "gostaria de ver as possibilidades de um acordo", depois de perder a corrida para vice-presidente do BCE.
Álvaro Santos Pereira revelou esta quarta-feira que Mário Centeno se reformou de forma antecipada do Banco de Portugal com uma taxa de substituição de 72% (percentagem do último salário), inferior à média de outros trabalhadores da instituição, e que foi o próprio que quis perceber quais as condições para um acordo de saída depois de perder a corrida para vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). O governador adiantou ainda que o supervisor já encontrou uma solução para cinco dos sete consultores do Banco de Portugal, figura que já anunciou que quer eliminar.
“Foi-lhe atribuída uma pensão com uma taxa de substituição inferior à média dos trabalhadores do banco. Relembro que a taxa de substituição mede a percentagem do último salário na reforma a receber. Para ser mais preciso, a taxa de substituição no caso da reforma do professor Mário Centeno foi de 72%, enquanto a taxa de substituição média de um colaborador do Banco de Portugal ronda os 78%”, disse Santos Pereira na Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública.
O governador recusou divulgar o valor da reforma de Centeno, que se encontra em Miami onde está a dar aulas numa universidade. O ex-governador receberia entre 14 mil e 15 mil euros, pelo que terá ficado com uma pensão a rondar os 10 mil euros.
Foi-lhe atribuída uma pensão com uma taxa de substituição inferior à média dos trabalhadores do banco. Relembro que a taxa de substituição mede a percentagem do último salário na reforma a receber. Para ser mais preciso, a taxa de substituição no caso da reforma do professor Mário Centeno foi de 72%, enquanto a taxa de substituição média de um colaborador do Banco de Portugal ronda os 78%.
Aos deputados, o governador justificou que a reforma antecipada de Centeno se insere numa estratégia de eliminar a figura de consultor da administração e anunciou que o banco já encontrou uma solução para cinco dos sete consultores da administração que estavam ativos quando tomou posse.
“Nestes números obviamente excluí propositadamente o trabalhador que tinha reforma prevista. Temos apenas duas situações cuja solução ainda está a ser delineada. Os restantes solicitaram a passagem à reforma no decurso do presente ano ou foram integrados em funções de gestão específicas.”
Deu o exemplo de um consultor da gestão que está a trabalhar no âmbito do FMI, do Financial Sector Assessment Program.

“Gostaria de ver as possibilidades de um acordo”
Mais tarde, e depois de questionado sobre quem partiu a iniciativa do acordo, Santos Pereira contou que após ter iniciado funções em outubro falou com Mário Centeno sobre o seu futuro. Inicialmente Centeno disse que tinha como prioridade a candidatura a vice-presidente do BCE, corrida que perdeu para o ex-governador croata.
“No dia após a minha posse, tive uma conversa com o ex-governador para fazermos uma transição, como é natural. E eu perguntei ao ex-governador o que tencionava fazer, sabia que tinha direito a ficar. E ele disse que a sua prioridade era a vice-presidência do BCE. Como há o período de ‘cooling off’, a prioridade vai ser a candidatura a vice presidente do BCE”, contou.
Santos Pereira lembrou que a candidatura dependia do apoio institucional, mas assegurou a Centeno que lhe daria todo o apoio nesse processo. “É bom ter portugueses nestes cargos”, salientou.
Falhada a candidatura, houve uma segunda conversa em que Mário Centeno disse: ‘Gostaria de ver as possibilidades de um acordo’”. “E depois houve conversas a nível técnico entre o diretor de recursos humanos e Centeno e chegou-se a acordo”, relatou Santos Pereira. “É tão simples quanto isto”, disse, recusando a ideia de que tenha favorecido o ex-governador.
“Se houve prémio foi para o Banco de Portugal”
Por mais do que uma vez Santos Pereira lembrou as poupanças de 2,2 milhões de euros com a saída antecipada de Centeno do Banco de Portugal. “O banco provisionou 5 anos e meio de pensões e poupou 11 anos em salários”, disse.
E questionou diretamente os deputados: “Que funções alguém como o ex-governador devia ter no Banco de Portugal? Podia ser diretor ou responsável pela edificação do novo edifício? Ou devia estar a fazer estudos para o Banco de Portugal? Não faz sentido”.
“Se houve algum prémio foi para o Banco de Portugal”, defendeu, reclamando o mérito da solução encontrada para Centeno que “não envolveu dinheiro dos contribuintes”: “Foi serviço público”.
(Notícia atualizada às 11h47)
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