“Crise estrutural” na aviação vai influenciar preço da Lufthansa na compra da TAP

"Já estamos a observar efeitos estruturais a ocorrer no setor. Por isso, este será naturalmente um dos componentes da nossa avaliação", afirma administrador executivo do grupo.

ECO Fast
  • A Lufthansa confirmou que apresentará uma proposta não-vinculativa para a privatização da TAP até quinta-feira, apesar da crise no setor aéreo.
  • A companhia enfrenta desafios devido ao aumento dos preços do combustível e à suspensão de rotas, que podem impactar a avaliação da TAP.
  • A participação na privatização da TAP é vista como uma estratégia de longo prazo, com a Lufthansa a querer garantir uma posição forte no mercado brasileiro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Um avião da TAP irrompe em direção aos céus perto da sede da Lufthansa, mesmo ao lado do aeroporto de Frankfurt. “É um sinal”, exclama Andreas Bartels, que lidera a comunicação do grupo alemão, desfazendo quaisquer dúvidas de que a Lufthansa vai entregar até quinta-feira uma proposta não-vinculativa na privatização da TAP.

A intenção é vocalizada por Tamur Goudarzi-Pour, o administrador executivo responsável pela estratégia do grupo: “Fazemos parte do processo e tencionamos fazer uma oferta não-vinculativa esta semana”, diz num encontro com jornalistas portugueses, na segunda-feira.

A guerra no Médio Oriente – que já duplicou o preço do combustível dos aviões, anulou rotas e está a afetar a procura – não demove a Lufthansa. Mas o contexto do setor pode influenciar negativamente a avaliação da TAP.

Tamur Goudarzi-Pour não tem dúvidas que se está a assistir “a uma crise estrutural da indústria” de aviação, “devido aos efeitos que já se observam no preço e disponibilidade do combustível”. A Lufthansa foi obrigada a suspender oito rotas até ao final de outubro e anunciou na terça-feira uma reprogramação da sua operação de verão, que inclui mais voos para a Península Ibérica.

Questionado sobre o impacto que poderá ter no preço a oferecer pela TAP, o responsável afirma que “sendo estrutural temos sempre de internalizar na nossa oferta”.

“Não significa que estamos a fazer um desconto por causa do Irão. Temos de pensar o que é o caminho estrutural da indústria”, refere o administrador executivo, acrescentando que “não sabemos ainda quão grave a crise vai ser”.

Já estamos a observar efeitos estruturais a ocorrer no setor. Por isso, este será naturalmente um dos componentes da nossa avaliação.

Tamur Goudarzi-Pour

Administrador executivo da Lufthansa

“Já estamos a observar efeitos estruturais a ocorrer no setor. Por isso, este será naturalmente um dos componentes da nossa avaliação”, acrescenta Tamur Goudarzi-Pour, referindo ainda que a participação na privatização da TAP tem “uma perspetiva de longo prazo”, pelo que a Lufthansa, que em 2026 celebra 100 anos, irá “apresentar uma proposta que seja também sustentável ao longo dos próximos anos”.

O responsável fez questão de salientar que a crise mostra a importância de fazer parte de um grande grupo de aviação, que no caso da Lufthansa incluiu ainda a Swiss, Brussels Airlines, Austrian Airlines, ITA Airwais, Eurowings e Discover Airlines. “Quando se trabalha com um grupo de companhias é possível, em caso de crise, trabalhar operacionalmente os diferentes hubs de forma a ter maior resiliência”, destaca.

Processos de tripulantes e Azul serão analisados na due diligence

Não é só a crise na aviação que pode baixar o valor da TAP. O gestor foi também confrontado com o eventual custo com os processos judiciais movidos pelos tripulantes de cabine ou a dívida de 189 milhões reclamada pela companhia aérea brasileira Azul em tribunal.

“Quaisquer questões em aberto na Azul ou entre o pessoal de cabine — acordos, desacordos, todos esses aspetos — serão colocados em cima da mesa caso o governo nos escolha para a próxima fase, e teremos de continuar a analisá-los”, responde Tamur Goudarzi-Pour, acrescentando que só na fase seguinte será feita uma auditoria prévia mais pormenorizada (due diligence) à TAP. Quando for mais claro, o tema será “discutido com o Governo”.

A proposta não-vinculativa terá de incluir uma oferta financeira, mas que não compromete a Lufthansa. O valor poderá mudar quando for apresentada a proposta vinculativa, em função do que for apurado na due diligence.

Quem escolhe o CEO?

O facto de o Governo ter colocado à venda apenas uma participação minoritária já foi considerado problemático por um dos interessados: o grupo IAG, dono da British Airways e Ibéria, que segundo notícias na imprensa internacional estaria inclinado a nem sequer apresentar uma oferta não-vinculativa.

A Lufthansa preferia “ter um caminho claro para a maioria”, como acontece em relação à ITA Airways, onde tem a opção de passar de 41% para 90%, mas “não irá sair do processo nesta fase porque o Governo disse que uma maioria não é possível”, assegura o administrador executivo da Lufthansa.

A questão do capital importa por causa da influência que o comprador pode ter na gestão. O Executivo português tem dito que apesar de vender uma participação minoritária, o controlo será dado ao acionista privado, mantendo-se a obrigação de preservar a marca, o hub em Lisboa e as ligações à diáspora e aos PALOP.

O gestor considera que isso “é necessário para conseguir extrair os benefícios” da primeira fase. O tema já fará parte da proposta não-vinculativa, mas terá de ser discutido de forma mais profunda com o Governo, com quem a Lufthansa voltou a reunir recentemente.

Tamur Goudarzi-Pour não quis responder se a Lufthansa queria ter o poder de nomear o CEO da TAP, mas há a expetativa de que seja seguido um modelo semelhante ao da ITA, onde o presidente executivo, Jörg Eberhart, foi nomeado pelo grupo alemão. No conselho de administração, composto por cinco membros, três foram escolhidos pelo governo de Georgia Meloni, incluindo o presidente.

“Foi claro desde o início: o Governo italiano disse à Lufthansa que não queria gerir a companhia, mas queria ter transparência e poder supervisionar o processo”, explicou Eberhart. “Isto é a chave da governance da ITA, mas há alguns temas em que os acionistas decidem em conjunto, e até agora têm sido decisões unânimes”.

Enquanto entidade autónoma, pode até alcançar alguma rentabilidade, mas isso não é sustentável. Para crescer e ter um mercado atrativo, precisamos das sinergias de um grupo maior.

Jörg Eberhart

CEO da ITA Airways

O CEO da ITA enumerou vantagens da integração, como a maior facilidade em comprar aviões e a capacidade da Lufthansa, com a sua escala, de conseguir contratos mais vantajosos com os fornecedores, nomeadamente com as empresas de leasing de aviões.

Lufthansa alerta para crescimento da IAG no Brasil

A elevada quota de mercado da TAP nos voos entre a Europa e o Brasil, de cerca de 20%, tem sido valorizada como o principal atrativo da companhia aérea por todos os interessados, onde se inclui ainda o grupo Air France-KLM, que também deverá avançar com uma oferta não-vinculativa.

“Nós já estamos no Brasil, mas com a TAP tornamo-nos uma grande força”, considera Tamur Goudarzi-Pour, que vê potencial para crescer ainda mais. “É possível desenvolver mais o Brasil, que é metade da América do Sul”, considera.

Os concorrentes também estão a investir. “Sabemos que Madrid [a Iberia] cresceu muito a oferta o ano passado e este ano para o Brasil“, alerta o gestor, admitindo que com a maior capacidade pode fazer preços mais atrativos. “Estamos a olhar para a oferta dos concorrentes e estou certo que a TAP também está a olhar para isso”, acrescenta.

Com um novo aeroporto, o administrador executivo da Lufthansa vê a companhia portuguesa a lançar-se noutros voos e passar a oferecer destinos para outros países da América do Sul. Mas, “isso é uma história para mais tarde”.

(O jornalista viajou para Frankfurt a convite da Lufthansa)

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