Portugal cresce a metade da velocidade europeia na adoção de IA
Empresas ainda sentem desafios na integração de ferramentas com método e impacto mensurável no negócio, apontam peritos. Por outro lado, é preciso planear cuidadosamente a automatização de processos.
Portugal é o país da União Europeia com adoção mais lenta de inteligência artificial (IA), apontam os dados do Eurostat, referentes a 2025, que foram levados à conferência “Inteligência Artificial no Centro dos Negócios”, organizada esta quinta-feira pelo ECO com apoio da PwC. Nuno Loureiro, Data & AI Partner da PwC, lembrou que apenas 12% das empresas portuguesas com mais de dez trabalhadores utilizam IA, contra uma média europeia de 20%. Aliás, o ritmo de adoção cresce 21% ao ano em Portugal, enquanto na Europa atinge os 58%.
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No debate participaram Sara Candeias (Banco Montepio), Paulo Pereira (Altice) e Marco Navega (Zurich) -
António Costa, diretor do ECO, na sessão de abertura da conferência -
O keynote ficou a cargo de Nuno Loureiro, Data & AI Partner PwC -
“Estamos a passar de uma discussão sobre tecnologia para uma discussão sobre negócio”, afirmou António Costa, diretor do ECO, na abertura. “Isso já mostra que estamos numa fase diferente”, reconheceu, embora ainda existam desafios nesta transformação.
No keynote, Nuno Loureiro procurou recentrar o debate menos no fascínio tecnológico e mais no método. Se em 2023 a discussão estava sobretudo concentrada sobre o que era a IA generativa e, em 2024, sobre os seus casos de uso, em 2026 a pergunta mais relevante passa a ser outra: “o como”, isto é, “quais é que são as decisões-chave” e “os modelos de decisão” que devem orientar um projeto empresarial de IA.
Para o responsável da PwC, o problema não está apenas em adotar a tecnologia, mas em escolher bem onde começar. Muitas empresas continuam a abordar a IA a partir de uma ideia isolada ou de um departamento específico, sem garantir que esse é o problema mais material a resolver. Por isso, explicou, o trabalho prévio de definição de prioridades tornou-se central e é preciso cruzar impacto, complexidade e volume para identificar onde é que, de facto, a tecnologia pode gerar retorno mais depressa e com menos risco. “Tipicamente, olhamos primeiro para esta vertente do quick wins”, disse, referindo-se aos casos em que “o impacto é alto” e os projetos são suficientemente simples para permitir ganhos rápidos e evolução progressiva da maturidade tecnológica.
Em 95% dos casos, o valor está efetivamente em usarmos modelos que já existem e criarmos uma arquitetura lógica, um produto que os utilize nos momentos certos
A ideia central do keynote foi, aliás, pragmática e mostrou que o valor não está, na maioria dos casos, em desenvolver modelos próprios, mas em usar bem os que já existem. “Em 95% dos casos”, apontou, o valor desta mala de ferramentas tecnológicas está precisamente em usar modelos existentes e não em desenvolver LLMs proprietários. Nuno Loureiro citou o caso da Bloomberg, que investiu 10 milhões de dólares num modelo financeiro especializado, lançado duas semanas depois do GPT-4 e com pior desempenho. “Do ponto de vista comercial, que era um grande objetivo deste projeto, acabaram por ter aqui um falhanço”, resumiu.
O especialista sublinhou ainda que as soluções empresariais mais eficazes raramente são apenas soluções de IA generativa. Na prática, combinam modelos generativos com programação determinística, processamento de dados, integração com sistemas internos e ferramentas de analítica. Em alguns casos, bastam “10, 20 regras de negócio” para resolver um problema com “100% de precisão”, sem necessidade de acrescentar uma camada probabilística que introduza erro onde ele pode ser evitado.
O custo unitário de usar modelos de IA caiu a pique nos últimos anos, mas isso não significa, por si só, soluções mais baratas. À medida que as arquiteturas evoluíram e se tornaram mais complexas, passaram também a multiplicar as chamadas aos modelos. “Muitas vezes o custo da solução até pode ser igual ou superior”, assegurou.
Tecnologia implica nova mentalidade
Seguiu-se o painel dedicado aos desafios da integração de IA no centro da estratégia das empresas, que juntou representantes da Zurich, Altice Portugal e Banco Montepio, com moderação de Shrikesh Laxmidas, diretor-adjunto do ECO.
Os colaboradores passam a ser coordenadores de agentes. E as chefias passam a ser arquitetos de decisão
“Só vou conseguir tirar valor desta camada [tecnológica] quando tiver todos os colaboradores a utilizar estas ferramentas”, considera Marco Navega. O diretor de Tecnologia e Operações da Zurich explica que a seguradora criou, em março de 2023, o “Zurichat” e estabeleceu uma framework de governação STAR – Secure, Transparent, Accountable, Reliable. “Apesar de ser um modelo que pode estar a decidir qualquer coisa [na empresa], alguém é sempre responsável por aquela decisão”, explica. Para lá da responsabilização da tomada de decisões e com a chegada de trabalhadores digitais, há também alterações à forma como as equipas funcionam e interagem. “Os colaboradores passam a ser coordenadores de agentes. As chefias passam a ser arquitetos de decisão”.
Paulo Pereira, diretor de IA da Altice Portugal, descreveu a operadora de telecomunicações como uma organização com presença em múltiplas geografias que enfrenta a mudança cultural. “Isto não é um tema tecnológico de todo. É um mote para mentalidades, cultura, processos”, acredita. Esse trabalho não é novo e a equipa cresceu dez vezes em apenas seis meses, até porque foi necessário talento para implementar cerca de 50 casos de uso em dois anos. A experimentação de soluções, porém, terminou há um ano.
Sobre o retorno do investimento, o responsável lembra que “os acionistas pedem tudo, rápido e barato”, mas que a resposta passa pela definição de indicadores de performance concretos. Por exemplo, no atendimento ao cliente o objetivo não é reduzir o tempo de cada chamada, mas eliminar por inteiro a necessidade de entrar em contacto. “Quando o cliente ligar, queremos que resolva sozinho”, explica, numa perspetiva de eficiência e melhoria da satisfação.
Para Sara Candeias, diretora de dados do Banco Montepio, há ainda obstáculos a superar, nomeadamente ao nível da aplicação e da geração de valor. “A Portugal não lhe falta demos, que são fantásticas. Mas faltam as fundações para as alavancar”, aponta. O banco passou cerca de 18 meses a construir uma estrutura de governo de dados antes de avançar com a IA, embora a especialista considere que é possível reduzir o prazo a seis a oito meses noutras indústrias.
Os resultados, partilha, têm sido muito positivos – há hoje milhares de documentos processados mensalmente com 90% de precisão e um custo operacional de cerca de mil euros por mês. A plataforma de agentes corporativos registou uma adoção de 700% ao mês. “Isto não é pôr um chouriço ao fumeiro”, diz, para sublinhar que a aposta não se ficou apenas por um projeto simbólico.
História longa, riscos novos
O encerramento coube ao professor Fernando Mira da Silva, do Instituto Superior Técnico e do INESC, que procurou enquadrar o momento atual numa história mais longa da inteligência artificial. Ao recuar a Alan Turing e a 1950, recordou que uma parte importante das perguntas que hoje regressam ao debate público acompanha a IA desde a origem. “É difícil falar de inteligência artificial e da origem da inteligência artificial sem falar de Alan Turing”, afirma, lembrando que foi ele “o primeiro a colocar a questão sobre se podem as máquinas pensar”.
Ao longo da intervenção, sublinhou também que o célebre teste de Turing, que durante décadas pareceu um horizonte distante, foi entretanto ultrapassado mais depressa do que muitos esperavam. Mas a sua advertência incidiu menos sobre a capacidade das máquinas e mais sobre o risco de diminuição das capacidades humanas num contexto de automação crescente.
“Existe um risco, claro, quando começamos a fazer o deployment destes sistemas em larga escala, da fadiga da supervisão humana”, alertou. À medida que os sistemas se multiplicam, o supervisor pode transformar-se apenas num mero aprovador automático de decisões, num “efeito do carimbo administrativo” em que se valida por rotina mais do que com um verdadeiro escrutínio.
A inteligência artificial é um alvo em movimento, em movimento muito acelerado. Provavelmente daqui a seis meses, grande parte do que eu disse aqui é para o lixo. Exceto a parte da história
Para mitigar esse risco, o perito defende a introdução de casos menos previsíveis, intervenções que exijam atenção real do operador e até a rotação de funções, à semelhança do que acontece com os controladores aéreos.
Ainda assim, o professor não quis terminar sem uma última palavra otimista, embora de forma cautelosa. “A IA é um alvo em movimento muito acelerado”, disse Fernando Mira da Silva. “Provavelmente daqui a seis meses, grande parte do que disse é para o lixo, exceto a parte da história”, rematou.
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