Da semana de quatro dias ao ‘QR Code’ para controlar o abastecimento. Saiba como se está a contrariar a escassez de combustíveis

Multiplicam-se pelo mundo medidas para poupar energia, que vão desde o regresso ao teletrabalho e desligar a iluminação, até novos limites de velocidade e no abastecimento.

Em várias cidades do mundo, os cartazes publicitários, a iluminação das ruas e as monstras das lojas estão a desligar-se mais cedo. Mas também, de dia, a vida está diferente.

Há quem tenha passado a trabalhar quatro dias por semana, e quem tenha trocado o escritório pela mesa da sala, optando pelo teletrabalho. Os filhos também poderão estar por casa, já que algumas escolas e faculdades estão a encerrar, um dia por semana ou mesmo a semana completa. Quem ainda se desloca ao local de trabalho, é incentivado a fazê-lo de transportes públicos ou carros elétricos, e partilhando a boleia, de preferência, fora da hora de ponta. Chegado ao destino, o trabalhador não poderá escolher a temperatura do ar condicionado como bem quiser: 25 graus é o nível indicado. Se, no regresso para casa, for preciso reabastecer o transporte pessoal, a quantidade de combustível a entrar no depósito poderá estar limitada, e o consumo também deverá ser mais controlado, pois a velocidade máxima é mais baixa do que seria normal.

Este é o relato de um hipotético dia de trabalho que junta várias das medidas que estão a ser promovidas em diferentes países, todas com o mesmo objetivo: reduzir o uso de combustível para que não venha a faltar e não encareça ainda mais. Isto num contexto em que o conflito no Irão dura há mais de um mês e não se sabe quando terminará, provocando o estrangulamento de uma das principais artérias mundiais para a circulação de combustíveis fósseis, o Estreito de Ormuz.

No último dia de março, o comissário europeu da Energia, Dan Jorgensen, veio recomendar aos Estados-membros a aplicação de medidas de restrição ao consumo de petróleo, pedindo que se “inspirem” nas dez medidas sugeridas pela Agência Internacional de Energia e que escolham as que mais se adequem à respetiva situação. “É claro que quanto mais conseguirem fazer para poupar petróleo, especialmente gasóleo, e especialmente combustível de aviação, melhor ficamos”, afirmou, para depois rematar: “Recomendamos vivamente que cada país analise as possibilidades que tem.”

É claro que quanto mais conseguirem fazer para poupar petróleo, especialmente gasóleo, e especialmente combustível de aviação, melhor ficamos.

Dan Jorgensen

Comissário Europeu da Energia

Contudo, não é só a União Europeia que está a estudar estas possibilidades. Também na América Latina, mas sobretudo na Ásia, vários países estão já a atuar. Portugal ainda não consta da lista de países que estão a aplicar medidas de restrição ao consumo, pois apenas avançou com apoios para fazer face à subida de preços. Contudo, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, já veio afirmar que considera a poupança de energia “muito útil” para fazer face à imprevisibilidade dos mercados devido ao conflito no Médio Oriente, embora essa afirmação não tenha tido, até à data, reflexo em medidas mais concretas.

Cortes no uso de energia: do teletrabalho aos limites de velocidade

A Agência Internacional de Energia fez o levantamento das medidas que estão a ser adotadas, um pouco por todo o globo, para fazer face ao risco de escassez que advém da turbulência no Golfo. Conta 66 medidas, sendo que a maioria (20) consiste em campanhas de sensibilização ou limites efetivos à procura de combustíveis.

Muitas das medidas são apenas recomendações. Já as medidas mais mandatórias são, na generalidade, dirigidas a funcionários e edifícios públicos. Mas também há sistemas sofisticados a serem impostos à generalidade dos cidadãos: por exemplo, no Sri Lanka, desde 15 de março que só é possível abastecer, em toda e qualquer estação de combustível, exibindo um QR Code, associado previamente ao veículo e número de telefone do utilizador. Desta forma, cada veículo tem direito a uma quota específica de combustível, consoante a categoria em que o automóvel se insere.

“O armazenamento ilegal de combustível por parte de determinados grupos foi reconhecido como um dos principais motivos para a procura anormalmente elevada e em crescimento. Por conseguinte, o governo espera evitar tais práticas ilícitas e garantir a continuidade da vida quotidiana da população e da economia do país”, lê-se num comunicado emitido pelo ministério da Energia do Sri Lanka, justificando a introdução da medida.

Limites à velocidade e às deslocações, assim como a abertura a novas ‘misturas’ com maior incorporação de biocombustíveis, são outras ideias já em prática. Também há incentivos ao uso e compra de veículos elétricos, assim como à utilização de transportes públicos. O fecho de edifícios públicos, e até de faculdades e escolas, bem como o desligar de iluminação a determinadas horas, são outras formas que estão a ser escolhidas para poupar. Teletrabalho e até a semana de quatro dias estão também a ganhar tração. Veja, abaixo, um levantamento das medidas já em vigor, por categoria e por país.

Trabalho a partir de casa
Encorajar ou obrigar a fazer trabalho remoto

  • Camboja: Realização de reuniões online para funcionários públicos.
  • Egito: Um dia de teletrabalho para o setor público.
  • Indonésia: Teletrabalho à sexta-feira para os funcionários públicos.
  • Laos: Trabalho remoto e turnos rotativos para funcionários públicos.
  • Mianmar: Trabalho remoto obrigatório às quartas-feiras para funcionários públicos.
  • Paquistão: Semana de trabalho de 4 dias para funcionários públicos.
  • Filipinas: Semana de trabalho de 4 dias para alguns grupos de funcionários públicos.
  • Sri Lanka: Encerramento de edifícios públicos às quartas-feiras. Incentivo a chamadas online / trabalho remoto.
  • Tailândia: Incentivo ao trabalho remoto e a videoconferências.
  • Vietname: Incentivo ao trabalho remoto.

Arrefecimento/Ar condicionado
Limites de temperatura para ares condicionados

  • Bangladesh: Limitação da temperatura a 25 graus.
  • Camboja: Incentivo ao limite de 24–25 graus em edifícios públicos.
  • Filipinas: Incentivo ao limite de 24 graus em edifícios públicos.
  • Sri Lanka: Limite da temperatura nos escritórios a 26 graus. Incentivo a desligar a energia 1 a 2 horas por dia, priorizando ventoinhas elétricas.
  • Tailândia: Incentivo ao limite de 26 graus.

Viagens governamentais
Limitar viagens de funcionários públicos

  • Camboja: Encoraja a redução de viagens oficiais de longa distância e apela a que se evitem deslocações nas horas de ponta.
  • Egito: Limitação de viagens por funcionários públicos.
  • Indonésia: Limitação de viagens por funcionários públicos.
  • Coreia do Sul: Sistema de restrição de cinco dias de circulação de veículos para instituições públicas
  • Malásia: Limitação de viagens por funcionários públicos.
  • Nepal: Restrição do uso de veículos governamentais.
  • Paquistão: Limitação de viagens por funcionários públicos.
  • Filipinas: Limitação de viagens governamentais não essenciais.
  • Sri Lanka: Limitação de viagens de funcionários públicos, incentivo aos transportes públicos.
  • Tailândia: Evitar viagens ao exterior por parte de funcionários públicos.
  • Vietname: Limitação de viagens por funcionários públicos.

Escolas e universidades
Fecho ou limitação das horas de funcionamento

  • Bangladesh: Encerramento de universidades públicas e privadas
  • Egito: Encerramento a partir das 18h da chamada capital administrativa, onde se concentram os gabinetes governativos, a este do Cairo, para desligar iluminação e aparelhos eletrónicos.
  • Laos: Redução da semana letiva de cinco para três dias.
  • Paquistão: Encerramento de escolas por duas semanas, incentivo ao trabalho remoto.
  • Sri Lanka: Encerramento de escolas e universidades às quartas-feiras.

Campanhas e limite de procura
Apelos ou criação de obrigações para que os consumidores limitem a procura

  • Austrália: Incentiva os cidadãos a reduzirem voluntariamente o uso de combustível.
  • Bangladesh: Pedido aos cidadãos e às empresas para que evitem iluminação desnecessária.
  • Camboja: Empresa estatal de eletricidade insta os cidadãos a reduzir o uso de eletricidade.
  • Egito: Apelo aos cidadãos para poupar combustível, limitar iluminação comercial e pública, e fechar lojas a partir das 21h e a partir das 22h aos fins de semana.
  • Etiópia: Apelo ao público para ser “frugal” no uso de combustível.
  • Índia: Limitação do uso de gás natural pela indústria, reforço da aposta no gás natural canalizado e racionamento do uso comercial de GPL.
  • Indonésia: Incentivo a estratégias de poupança de energia nos edifícios da administração pública.
  • Coreia do Sul: Campanha sobre ações práticas e pedidos para que as grandes empresas consumidoras de petróleo reduzam o consumo de energia.
  • Laos: Campanha a apelar aos cidadãos para pouparem combustível
  • Maldivas: Encher temporariamente as botijas de GPL apenas até metade da capacidade, para fins domésticos como cozinhar.
  • Maurícias: Restrição do uso não essencial de eletricidade (iluminação decorativa, aquecimento de piscinas, fontes).
  • Nepal: Racionamento de GPL para cozinhar (cilindros cheios a metade da capacidade), pedido ao público para limitar viagens e adotar práticas eficientes.
  • Paquistão: Pedido aos governos locais para pouparem energia.
  • Filipinas: Declaração de emergência energética nacional, pedido a agências e consumidores para reduzirem os consumos e promoção de auditorias energéticas.
  • Senegal: Apelo à adaptação dos hábitos de consumo de energia.
  • Singapura: Apelo ao público para poupar energia e usar eletrodomésticos eficientes.
  • Espanha: Redução do imposto sobre o rendimento (IRS) para painéis solares e medidas de eletrificação.
  • Sri Lanka: Sistema nacional de racionamento de combustível por código QR. Desligar a iluminação de painéis publicitários às 21h.
  • Tailândia: Pedido aos trabalhadores de escritório para limitarem o consumo de energia (incluindo usar mais as escadas escadas, desligar dispositivos).
  • Vietname: Pedido aos governos locais para ajudarem a poupar energia.

Transportes
Limitações ao uso de veículos, racionamento de combustível, baixar limites de velocidade e promover o uso de transportes públicos

  • Argentina: Permite uma maior percentagem de bioetanol na mistura de gasolina.
  • Bangladesh: Limites de abastecimento de combustível para veículos; promoção de transportes públicos.
  • Chile: Congelamento ou contenção do aumento de tarifas nos transportes públicos; créditos para táxis comprarem veículos elétricos.
  • Camboja: Redução de impostos de importação para produtos relacionados com veículos elétricos, energias renováveis e fogões elétricos.
  • Egito: Promoção de transportes públicos e obrigatoriedade de redução do uso de combustível nas administrações governamentais.
  • Indonésia: Aceleração do programa de biodiesel.
  • Laos: Incentivo aos transportes públicos, redução de impostos sobre transportes elétricos.
  • Mianmar: Dias alternados para conduzir, racionamento de combustível.
  • Paquistão: Redução do limite de velocidade nas autoestradas. De acordo com a publicação Arab News, o limite de velocidade para automóveis e veículos de transporte ligeiros nas autoestradas foi reduzido de 120 quilómetros por hora para 100 km/h, enquanto os veículos de transporte de passageiros e de transporte pesados passam a estar limitados a 90 km/h em vez de 110 km/h. Nas estradas nacionais, o limite para automóveis e veículos ligeiros foi reduzido de 100 km/h para 80 km/h, enquanto os veículos de passageiros e de transporte pesados passam a poder circular a um máximo de 65 km/h, face aos anteriores 80 km/h
  • Filipinas: Viagens de autocarro gratuitas para estudantes e trabalhadores em cidades selecionadas.
  • Eslováquia: Limite nas compras de combustível, preços mais altos para matrículas estrangeiras.
  • Eslovénia: Limite temporário nas compras de combustível.
  • Sri Lanka: Especificação de quotas de combustível para carros e motas privados.
  • Tailândia: Incentivo à partilha de carro e à redução de viagens desnecessárias, aumento da mistura de biocombustíveis.
  • Vietname: Desencorajamento do uso de veículos privados, promoção de transportes públicos / partilha de carro.

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