Do desperdício ao valor: Empresas portuguesas transformam resíduos em negócios
De entulho de obras a plástico das praias ou resíduos de pedreiras, o que antes era descartado está hoje a ser transformado em produtos e novos negócios.

Os resíduos estão a deixar de ser um custo para se tornarem numa oportunidade de negócio. Da construção ao têxtil, passando pelo calçado ou pela pedra natural, há cada vez mais empresas portuguesas a transformar desperdício em matéria-prima. Conheça os exemplos.
Dupla de arquitetos minhotos ‘reveste’ negócio com entulho das obras
Após seis anos a exercerem em Viena, na Áustria, os arquitetos Patrícia Gomes e Luís Lima regressaram a Portugal em 2020 com o objetivo de “redefinir” o futuro dos materiais de construção. A dupla criou o projeto Matterpieces, que transforma os desperdícios da construção, como telhas, tijolos, cimento e pedras, em novos materiais de revestimento e até mobiliário.
Numa fase inicial, começaram por incorporar desperdícios de obra nos projetos de arquitetura, mas “rapidamente” perceberam que “para fazer a diferença” não podiam limitar-se a processar apenas quilos de resíduos — era necessário pensar em toneladas.
Fundado em 2022 na garagem dos pais dos fundadores, o projeto Matterpieces já desviou 50 toneladas de resíduos dos aterros. Nos próximos dois anos, os responsáveis estimam ultrapassar as 360 toneladas processadas, um número que já “reflete o compromisso em reduzir a extração de matérias-primas”.
A partir de entulho de obra, a empresa disponibiliza atualmente 13 texturas em catálogo, disponíveis em painéis ou ladrilhos, com diferentes tipos de acabamento.
Finalista do programa de aceleração de ideias sustentáveis Triggers, promovido pela Casa do Impacto, e premiada no LX Circular, um programa de inovação que promove a ideação e a aceleração de soluções que impulsionam a transição para uma economia circular e regenerativa, a Matterpieces está agora a desenvolver novas soluções para aumentar o seu portefólio, sendo a internacionalização do projeto uma das próximas apostas.
Inteligência artificial já está a ‘despir’ o desperdício têxtil
“São olhos dentro do tear que permitem detetar os defeitos em tempo real. Isto é uma revolução.” É assim que a diretora de qualidade da Impetus descreve a tecnologia da startup Smartex.ai, que recorre à Inteligência Artificial para identificar falhas na produção têxtil, evitando desperdício e reduzindo custos. Em 25% da produção, a têxtil de Barcelos conseguiu uma redução de 10% nos defeitos finais.
Cada tear está equipado com sensores e oito câmaras que captam fotografias em tempo real. A tecnologia permite produzir e inspecionar um rolo de malha de 80 metros em apenas 75 minutos. Tempo que inclui a colocação do rolo na máquina e a retirada.
Com esta tecnologia, as fábricas têxteis conseguem aumentar a eficiência da produção, reduzir os custos e tornar a indústria têxtil mais sustentável. A Impetus, que pertence à família Figueiredo, começou a utilizar a Smartex.ai em 2021. Dos 20 teares da empresa de Barcelos, cinco já estão equipados com a tecnologia da startup do Porto.
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Fábrica da Impetus onde é utilizada a tecnologia da Smartex Ricardo Castelo/ECO -
Ricardo Castelo/ECO -
Fábrica da Impetus onde é utilizada a tecnologia da Smartex Ricardo Castelo/ECO -
Ricardo Castelo/ECO -
Tércio Pinto, managing director da Impetus Ricardo Castelo/ECO
O sistema tem um algoritmo que interrompe a produção quando um defeito se torna repetitivo. “Com esta tecnologia estamos a parar o defeito e a controlar a qualidade do produto desde o início, explicou ao ECO, no ano passado, Tércio Pinto, managing director da Impetus.
Antes desta solução, alguns dos defeitos só eram detetados no produto final. O que para a Impetus se traduzia em “prejuízo e tempo para voltar a produzir o que estava mal”, explica o managing director da têxtil.
Além de detetar o defeito em tempo real com recurso às câmaras dentro do tear, os rolos depois de inspecionados são cravados com um QR Code, uma espécie de “passaporte” para tecidos, que permite rastrear o material ao longo de todo o processo e fornece informações como a composição, o peso, o comprimento, o consumo e as emissões.
Para além da tecnologia, o grupo Impetus, especializado na produção de roupa interior, desenvolveu um fio a partir do próprio desperdício têxtil. “Temos um conjunto de homewear que integra 30% deste reaproveitamento pós-industrial”, refere Hernani Dias. Este conjunto produzido com materiais regenerativos e reciclados permite reduzir em 67% o consumo de água e 54% em emissões de CO2, destaca o responsável de sustentabilidade da empresa.
Todos os anos são gerados 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis, o que equivalente a um camião de roupa queimada ou depositada em aterros a cada segundo, de acordo com o relatório da Fundação Ellen MacArthur.
Brasileira transforma em Sintra resíduos das pedreiras em peças de design
Gisella Tortoriello, com “sangue brasileiro, mas coração português”, é arquiteta de formação, mas trabalha há mais de duas décadas na indústria da pedra natural. Está em Portugal há 19 anos a representar no mercado internacional as pedras nacionais de mármore, calcário e granito. Com a pandemia da Covid-19, a empreendedora teve a ideia de transformar os resíduos das pedreiras de mármore em peças de design. E assim nasce a Olivah.
Cinco anos depois, 40% das criações da startup localizada em Sintra são exportadas para mercados como Bélgica, França e EUA.
Vasos, mesas, comedouros para cães, banheiras e secretárias são apenas alguns dos artigos desenvolvidos através dos resíduos de pedra natural extraídos do Alentejo (mármore), Santarém (calcário), Vila Nova de Foz Côa (xisto) e região norte (granito). “Vamos buscar resíduos para além das pedreiras a fábricas locais”, refere ao ECO a fundadora.
As peças podem ser feitas por medida ou adquiridas através de um catálogo com coleção própria. A título de exemplo, um comedouro para cão custa 140 euros e uma mesa de centro ronda os 950 euros. Entre os projetos, destaca-se uma banheira enviada para Miami com um custo de sete mil euros.
Na Gala StonebyPortugal 2025, no Palácio da Bolsa, o Studio Olivah foi distinguido com o Prémio de Design de Produto pela coleção Stools, integrada na linha Lugares.
Calçado feito com plástico recolhido nas praias portuguesas
Todos os anos entram entre 4,8 e 12,7 milhões de toneladas de plástico nos oceanos, segundo um relatório da Comissão Europeia. Consciente deste problema, a ativista Adriana Mano estava a fazer uma ação de limpeza na praia quando teve a ideia de transformar este lixo em calçado. E assim nasceu a Zouri Shoes, marca portuguesa de calçado sustentável conhecida pela reutilização de lixo plástico oriundo dos oceanos.
Criada em 2018, a marca portuguesa lançou as primeiras sapatilhas dois anos depois. Cada par é produzido na cidade do Berço, em Guimarães, com matérias-primas sustentáveis, desde a borracha natural ao algodão orgânico. Até à data e através deste projeto, já foram recolhidas 21 toneladas de lixo das praias portuguesas.
Para além das sapatilhas, a marca conta ainda com uma linha de sandálias, que já representa uma fatia significativa das vendas. As Zouri estão disponíveis na loja online, na loja física em Braga e através de uma rede de revendedores na Alemanha, Suíça e Bélgica. No final de abril vão lançar uma coleção de alpercatas com um preço de 79 euros, revela ao ECO, a fundadora. “É tudo vegan, 100% feito em Portugal”, garante Adriana Mano.
No ano passado, foram vendidos cerca de 15 mil pares, dos quais 12 mil corresponderam a sandálias. A exportação representou 50% do volume de negócios.
De resíduos industriais nascem peças de mesa sustentáveis
O grupo Costa Nova Indústria inaugurou, no final de 2023, uma unidade industrial em Aveiro dedicada ao fabrico de coleções de artigos de mesa a partir de matéria-prima reciclada, a Ecogres-Cerâmica Ecológica, um investimento de 14 milhões de euros.
Com capacidade para produzir 30 mil peças por dia, a Ecogres destaca-se por adotar um modelo de economia circular, utilizando mais de 95% de materiais reciclados. As embalagens são feitas de materiais 100% reciclados e biodegradáveis, enquanto a energia utilizada é totalmente certificada como de origem renovável, proveniente de painéis fotovoltaicos ou adquirida externamente.
“Com pastas cerâmicas compostas por mais de 95% de resíduos e subprodutos industriais, a valorização de águas residuais e a aposta em painéis fotovoltaicos e fornos preparados para hidrogénio, a Ecogres é um exemplo de uma indústria ambientalmente responsável e tecnologicamente avançada”, refere a empresa no seu site.

Em 2024, a Ecogres produziu mais de 1.400 toneladas de pasta cerâmica, tendo utilizado apenas cerca de 6% de matéria-prima virgem, o que permitiu reduzir de forma muito significativa a quantidade de matérias-primas extraídas, assim como as emissões de CO2.
No ano passado, a Ecogres – Cerâmica Ecológica, do Grupo Costa Nova Industria, foi distinguida com uma menção honrosa, na 1.ª edição dos Prémios dos Fundos Europeus, com o projeto ECOGRES 4.0, destacado pelo seu contributo para uma indústria cerâmica mais sustentável.
Resíduos da pesca transformados em soluções para captura de carbono
Um consórcio nacional e internacional vai desenvolver, até 2028, uma tecnologia baseada em aerogéis híbridos para capturar e reutilizar dióxido de carbono (CO2), a partir de resíduos da indústria da pesca.
Intitulado de AERO2cycle, o projeto tem como objetivo desenvolver aerogéis funcionais (materiais ultraleves e altamente porosos) incorporando biochar, um material carbonizado obtido através do aquecimento controlado de resíduos orgânicos na ausência de oxigénio, neste caso subprodutos da pesca como escamas, pele e espinhas.

Em comunicado, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia explica que este material (biochar) será combinado com polímeros de líquidos iónicos, que apresentam elevada afinidade para o CO2, dando origem a materiais híbridos capazes de capturar e converter dióxido de carbono. Os materiais serão estruturados através de impressão 3D, permitindo a conceção de reatores adaptáveis a diferentes configurações industriais e facilitando a sua futura integração em sistemas de captura de carbono.
O projeto AERO2cycle é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e liderado pela Associação para a Inovação e Desenvolvimento da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e conta com a participação da Universidade de Évora e do B2E CoLAB, bem como com colaboração científica da Universidade de Santiago de Compostela e da Universitat Jaume I.
Sogrape valoriza 98% dos resíduos
O ano passado, a Sogrape — maior empresa portuguesa de vinhos, dona das marcas Mateus Rosé, Barca Velha, Esteva, Sandeman ou Porto Ferreira —, gerou cerca de 2.034 toneladas de resíduos em Portugal, dos quais 98% foram valorizadas. Apenas 48,83 toneladas tiveram como destino o aterro.
No âmbito das embalagens, e em parceria com a Sociedade Ponto Verde, a Sogrape assegurou, em 2024, a reciclagem de 57% das embalagens colocadas no mercado, evitando cerca de 625 toneladas de emissões de CO2.

Segundo a Sogrape, este desempenho resulta de diversas iniciativas de economia circular, “incluindo a redução do peso das garrafas, a otimização da relação produto/embalagem por palete, a reavaliação das cadeias de distribuição logística e a incorporação de matérias-primas recicladas ou certificadas”.
Presente em mais de 120 mercados, a Sogrape fechou 2024 com lucros de 16 milhões de euros e reforça o compromisso com a economia circular no âmbito do programa “Seed the Future”.
Estes exemplos demonstram como os resíduos podem ser reaproveitados e gerar valor acrescentado. No entanto, no ano passado, alertou Fernando Leite, CEO da Associação de Municípios para a Gestão Sustentável de Resíduos do Grande Porto (Lipor), que “Portugal está a perder, nos 60% de resíduos que envia para aterro, uma grande oportunidade de se reindustrializar e de se tornar um país onde a indústria regresse para criar emprego e valor”.
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