Quando o céu não é o limite: Tecnológicas já pensam em instalar ‘data centers’ no espaço

Construir centros de dados no espaço pode parecer ficção científica, mas várias tecnológicas estão a desenvolver projetos para tornar esta ideia realidade já nos próximos anos.

Várias empresas mundiais estão a desenvolver projetos para levar centros de dados para o espaço, à boleia de satélitesESA - D. Ducros

A corrida aos centros de dados entre as maiores tecnológicas do mundo nunca foi tão intensa. Num momento em que a procura por capacidade computacional dispara, estas infraestruturas tornaram-se essenciais não só para treinar modelos de inteligência artificial (IA), mas também para sustentar serviços digitais, processar grandes volumes de dados e responder às crescentes exigências da economia digital.

Nos últimos meses, várias empresas do setor anunciaram que estão a trabalhar em projetos que consistem na instalação de centros de dados espaciais. A ideia ainda não saiu do papel, mas está a ser levada a sério por gigantes como a Nvidia, SpaceX, Google e Amazon, bem como por outras menos conhecidas, como a startup Starcloud, especializada nesta área.

Para entender a lógica da ideia, que para além de disruptiva é difícil de concretizar, é necessário conhecer o que são os centros de dados tradicionais e as suas operações. Os data centers são instalações especializadas onde se armazenam, processam e gerem grandes volumes de dados. Equipados com servidores, sistemas de armazenamento e de refrigeração e redes de alta performance, estas infraestruturas garantem que os dados estão organizados e acessíveis de forma rápida e segura. São essenciais para o funcionamento de serviços online, empresas e instituições que dependem da tecnologia no dia-a-dia.

A função principal de um centro de dados é assegurar a disponibilidade contínua da informação, proteger dados sensíveis e permitir a recuperação rápida em caso de falhas ou incidentes de segurança. Estes centros tornam possível a expansão de serviços digitais, a realização de backups e a manutenção da infraestrutura tecnológica que sustenta a internet e os sistemas digitais modernos. No caso da IA, são também os locais onde se treinam os grandes modelos que permitem funcionar serviços como o ChatGPT.

Data center da Start Campus em Sines

No entanto, os data centers consomem uma quantidade significativa de eletricidade, com estudos a apontarem para cerca de 1,5% da eletricidade global anualmente. Este consumo elevado deve-se aos servidores, sistemas de armazenamento e redes que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, e aos complexos sistemas de refrigeração necessários para evitar o sobreaquecimento dos equipamentos, que em alguns casos também ‘consomem’ grandes quantidades de água.

A procura crescente por serviços digitais contribui para que este consumo continue a aumentar, colocando desafios ambientais significativos e exigindo soluções mais eficientes e sustentáveis para reduzir a pegada energética destas infraestruturas.

Quando o céu não é o limite

Segundo a revista britânica The Economist, que cita a empresa de investigação Sightline Climate, construir centros de dados na Terra está a tornar-se cada vez mais numa espécie de “missão impossível”, sendo que neste caso não há um Tom Cruise para fazer milagres.

A capacidade global prevista para entrar em funcionamento este ano poderá sofrer atrasos de 30 a 50%. Entre os principais fatores estão as dificuldades em obter licenças de construção (sobretudo na Europa), a falta de potência elétrica disponível e as demoras nas autorizações para ligação à rede elétrica. Surge assim a ideia de levar centros de dados para a órbita, através de uma constelação de satélites, aproveitando a vantagem de que a energia solar estará sempre disponível.

Elon Musk é uma das figuras mais interessadas e entusiasmadas com a possibilidade de enviar para o espaço hardware que permita ao seu leque de empresas continuar a crescer a um ritmo alucinante. Depois de fundir a SpaceX com a xAI, o magnata norte-americano considera que os “centros de dados orbitais” são essenciais para o futuro da tecnologia, já que “a procura global de eletricidade para IA simplesmente não pode ser respondida com soluções terrestres, mesmo a curto prazo, sem impor dificuldades às comunidades e ao meio ambiente”, disse o empreendedor citado pelo Financial Times em fevereiro, aquando da fusão de empresas. “A longo prazo, a IA baseada no espaço é obviamente a única maneira de alcançar escala”, explicou Musk.

Além disso, este mês, Jensen Huang, CEO da Nvidia, anunciou no evento anual da empresa que a fabricante de placas gráficas está a desenvolver um chip de IA destinado a suportar centros de dados no espaço.

Ao desenvolver chips de IA capazes de operar em ambientes com restrições de tamanho, peso e energia, a Nvidia pretende criar condições para que aplicações de IA funcionem de forma contínua, tanto entre a Terra e o espaço como entre diferentes satélites. O Nvidia Space-1 Vera Rubin Module é o componente mais recente desta plataforma voltada para aplicações espaciais. De acordo com a empresa, a GPU Rubin oferece até 25 vezes mais capacidade de processamento de IA em órbita do que a GPU Nvidia H100, abrindo caminho a novas aplicações em centros de dados orbitais, análise geoespacial avançada e operações autónomas no espaço.

“A computação espacial, a fronteira final, chegou. À medida que implementamos constelações de satélites e exploramos mais fundo no espaço, a inteligência deve existir onde quer que os dados sejam gerados”, afirmou Jensen Huang durante o evento. “O processamento de IA em sistemas espaciais e terrestres permite deteção, tomada de decisões e autonomia em tempo real, transformando centros de dados orbitais em instrumentos de descoberta e naves espaciais em sistemas de auto-navegação. Com os nossos parceiros, estamos a expandir a Nvidia para além do nosso planeta — levando corajosamente a inteligência onde nunca foi antes.

Google e Amazon também estão na corrida. Starcloud já chegou ao espaço

Já no final de 2025, em novembro, a Google anunciou o Projeto Suncatcher, uma iniciativa de investigação ambiciosa que pretende explorar novas formas de escalar a capacidade de computação para inteligência artificial também no espaço. A proposta passa pelo desenvolvimento, a longo prazo, de uma rede de satélites alimentados por energia solar, capazes de operar com chips especializados em IA, aproveitando diretamente a energia do sol para suportar cargas massivas de processamento.

O projeto encontra-se ainda numa fase inicial, mas integra já estudos sobre design de constelações de satélites, sistemas de comunicação e resistência de hardware à radiação espacial. Como próximo passo, a empresa prevê lançar, em parceria com a Planet, dois satélites protótipo até ao início de 2027, com o objetivo de testar esta tecnologia em órbita.

Outro líder de uma das maiores empresas do mundo, Jeff Bezos, da Amazon, já salientou que pretende levar centros de dados para o espaço, aproveitando a energia solar contínua e acreditando que o futuro poderá ser fora da Terra.

Com todas estas empresas de dimensão mundial na corrida ao espaço, é uma startup que se destaca: a norte-americana Starcloud (apoiada pela Nvidia), fundada somente em 2024, que em novembro passado lançou o satélite Starсloud-1, equipado com um chip Nvidia H100. Este lançamento serviu como teste para um projeto a curto prazo, que prevê a construção de um data center de cinco gigawatts em órbita.

A próxima missão comercial da Starcloud, Starcloud-2, contará com um cluster de GPU, armazenamento persistente e sistemas próprios de gestão de energia. O data center deverá estar totalmente operacional em órbita até 2027, segundo as previsões da empresa.

Data Center Schneider Electric, Wortmann, AlemanhaFoto cedida

Quais os maiores entraves? E quando poderá ser uma realidade?

Como seria de esperar, construir um centro de dados orbital é significativamente mais complexo e dispendioso do que erguer estas infraestruturas em solo terrestre atualmente. Os obstáculos são vários e alguns ainda não têm resposta definitiva.

  • Custo de lançamento: Uma das maiores dificuldades prende-se com o custo de colocar os satélites em órbita — os mesmos que irão alojar os chips de IA a bordo. Atualmente, os preços praticados ainda tornam este modelo pouco competitivo face às soluções terrestres, embora a promessa de foguetões reutilizáveis, como o Starship da SpaceX, possa vir a alterar esta equação.
  • Potência e custo dos satélites: Outros fatores que poderão dificultar estes projetos estão relacionados com a potência e o custo de cada satélite. Estes dependem, em grande parte, do peso e do desempenho dos painéis solares e dos radiadores de dissipação de calor, componentes críticos para garantir o funcionamento contínuo dos chips em órbita. A isto acresce um fator ainda desconhecido: o impacto da radiação solar na fiabilidade e longevidade dos chips de IA. São necessárias estimativas rigorosas de todas estas variáveis para determinar, com confiança, a verdadeira viabilidade dos centros de dados orbitais.
  • O problema do calor: Os centros de dados geram quantidades enormes de calor e o espaço, ao contrário do que possa parecer, não resolve o problema de forma simples. Embora o ambiente espacial seja extremamente frio, é também um vácuo, o que significa que o calor não se dissipa por convecção como acontece na Terra. Em vez disso, fica retido dentro dos equipamentos à semelhança do que acontece numa garrafa térmica. Dissipar esse calor de forma eficiente, sem recorrer ao ar ou à água, é um dos maiores desafios de engenharia destes projetos. “No Espaço não há condução, não há convecção, é apenas radiação. Então, temos de descobrir como arrefecer estes sistemas no espaço”, alertou Jenson Huang no evento anual da empresa mais valiosa do mundo.
  • O perigo dos detritos espaciais: Por fim, há um risco que vai muito além da engenharia: o lixo espacial. Com o aumento do número de satélites em órbita, cresce também a probabilidade de colisões. Um único satélite com defeito, que se fragmente ou perca a órbita de forma descontrolada, pode desencadear uma reação em cadeia de choques, destruindo outros satélites e colocando em risco serviços essenciais como as comunicações de emergência, a navegação GPS ou a previsão meteorológica. Este é um cenário que a comunidade científica leva cada vez mais a sério.

Praticamente nenhuma empresa se compromete com uma data concreta para iniciar operações de data centers orbitais, uma vez que a maioria dos projetos ainda se encontra em fase de avaliação ou piloto. O cenário não será fácil, com muitas dificuldades pelo caminho e complexidades associadas a levar este tipo de hardware para o espaço. Apenas a Starcloud aponta 2027 como objetivo para que o centro de dados esteja em funcionamento, mas só o tempo dirá se será mesmo possível ter esta infraestrutura a milhares de quilómetros da Terra.

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