Arrow prevê aumento do malparado. “Se as taxas de juro subirem, algumas famílias não poderão pagar”
João Bugalho, CEO da Arrow Global Portugal, antecipa um crescimento no incumprimento do crédito. Gestora britânica vai investir cerca de 50 milhões em habitação acessível só este ano.
- A Arrow Global antecipa um aumento no incumprimento de crédito caso as taxas de juro continuem a subir, mas não espera uma crise semelhante à de 2008.
- João Bugalho destaca que os bancos em Portugal estão melhor preparados, com um rácio de empréstimos não-produtivos significativamente mais baixo do que os 55 mil milhões de euros registados após a crise financeira.
- A empresa investirá 50 milhões de euros em habitação acessível, reconhecendo a oportunidade no mercado, onde a oferta não acompanha a procura.
A gestão de ativos de crédito malparado foi o primeiro negócio que a Arrow Global adquiriu em Portugal, em 2015. O CEO da gestora de investimentos britânica, João Bugalho, antecipa uma nova subida do incumprimento se as taxas de juro aumentarem, mas nada parecido com o que aconteceu após a crise financeira. Diz ainda que a banca está muito melhor preparada.
“Se as taxas de juro subirem, algumas famílias não poderão pagar”, afirma João Bugalho, convidado do Transatlantic Talks, um podcast do ECO em parceria com a Amcham Portugal, em que também participou Omer Wilsom, da Start Campus. O conflito no Médio Oriente está a acelerar a inflação, fazendo antever uma política monetária mais agressiva por parte do Banco Central Europeu. As Euribor, que servem de referência ao crédito à habitação estão já a subir, tendo dado em março o maior salto em três anos.
Oiça aqui ao podcast:
João Bugalho considera que o ciclo “vai mudar”, mas não crê que “vá haver uma grande mudança”, sobretudo nada comparável ao que aconteceu a seguir à grande crise financeira de 2008. “Não esperamos ver isso novamente”, diz.
“Portugal tinha, na altura, 55 mil milhões de NPL [empréstimos não-produtivos], o que é uma loucura para a dimensão da nossa economia”, afirma o CEO da empresa que em 2015 adquiriu a gestora portuguesa de crédito malparado Whitestar à Lehman Brothers. “Agora é muito mais baixo. É um dos melhores rácios da Europa, e os bancos estão muito preparados para lidar com isso“, considera.
“Haverá mais NPL à medida que o crédito aumenta. Inevitavelmente, uma coisa está ligada à outra. E se a situação económica se agravar de forma significativa, penso que veremos números maiores. Mas não esperamos que seja nem de longe parecido com o que aconteceu há 20 ou 15 anos”, reforça.
50 milhões para a habitação acessível este ano
O preço elevado da habitação em Portugal, a falta de oferta e os incentivos criados pelo Governo para a habitação acessível levaram a Arrow Global a criar, em parceria com o Grupo Ferreira, uma empresa para esta área de negócio, chamada Nexor. O fundo britânico tem 70% do capital e a empresa de construção do Porto os outros 30%.
“Temos já dois projetos em desenvolvimento, um em Vila Nova de Gaia e outro em Setúbal, para 150 habitações. Estamos a analisar uma série de locais diferentes em Portugal“, afirma João Bugalho. O investimento previsto só para este ano são cerca de 50 milhões de um total de 458 milhões.
É preciso ser inteligente na forma como se mantém os custos de construção muito apertados e as guerras não ajudam nesse sentido.
“É preciso ser inteligente na forma como se mantém os custos de construção muito apertados e as guerras não ajudam nesse sentido”, refere João Bugalho, assinalando que o tempo de execução é um risco. “O desenvolvimento é sempre um jogo a longo prazo, em que entre o momento em que se define a estratégia e a procura de um local, a negociação do local, o desenvolvimento de um conceito, o licenciamento, a construção e a venda, podem decorrer dois, três, quatro anos em Portugal”.
O CEO da Arrow Global considera, no entanto, que existe uma oportunidade. “O fosso entre a oferta e a procura existe claramente. O mercado está muito bem sustentado. E o cidadão médio português está a ter muitas dificuldades em comprar casa”, assinala.
Assista à entrevista legendada:
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