FMI pede mais controlo sobre invasão das stablecoins na economia mundial

Sem fronteiras nem regulação eficaz, as stablecoins já movem 316 mil milhões de dólares por trimestre e escapam ao controlo dos bancos centrais. O FMI exige cooperação internacional urgente.

ECO Fast
  • O relatório do FMI revela que os fluxos de stablecoins aumentaram exponencialmente nos últimos cinco anos, passando de 12 mil milhões de dólares em 2020 para 316 mil milhões de dólares em 2025.
  • A crescente utilização de stablecoins pode comprometer a política monetária local, especialmente em países vulneráveis, exigindo uma supervisão regulatória mais robusta e cooperação internacional.
  • O FMI aponta como essencial a cooperação internacional para colmatar as lacunas regulatórias na intermediação financeira não bancária.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Há uma forma de dinheiro digital que já circula em volumes que rivalizam com muitos sistemas bancários tradicionais, e a maioria dos portugueses ainda nunca ouviu falar dela.

Chama-se stablecoins, criptoativos desenhados para não sofrerem as grandes oscilações de preço que caracterizam moedas digitais como o Bitcoin porque o seu valor está sempre ancorado a um ativo real como o ouro, euro ou o dólar, como é o caso do Tether (USDT) e do USD Coin (USDC).

Os fluxos transfronteiriços destes criptoativos digitais dispararam de 12 mil milhões de dólares no primeiro trimestre de 2020 para 316 mil milhões de dólares no primeiro trimestre de 2025, deixando para trás os fluxos de Bitcoin e Ethereum. É este o alerta que consta do mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional (FMI), publicado esta terça-feira e que coloca as stablecoins no centro de uma discussão mais ampla sobre os riscos que os fluxos de capital internacional representam, particularmente para as economias emergentes.

Os fluxos de stablecoins mantêm-se estreitamente ligados à dinâmica do mercado de criptoativos, embora a procura seja frequentemente mais elevada em países com fundamentos fracos e enquadramentos políticos débeis.

Fundo Monetário Internacional

Relatório de Estabilidade Financeira Global

A popularidade das stablecoins não é difícil de explicar. Em países onde a moeda nacional perde valor rapidamente, onde a inflação corrói poupanças e onde o acesso a dólares físicos é limitado, estes ativos digitais funcionam como uma espécie de refúgio acessível a partir de um telemóvel. Países como a Ucrânia, o Vietname e a Bielorrússia já registam fluxos brutos de stablecoins em percentagens de dois dígitos do seu PIB anual, segundo o FMI.

Mas há um problema: o Fundo alerta que “os fluxos de stablecoins mantêm-se estreitamente ligados à dinâmica do mercado de criptoativos, embora a procura seja frequentemente mais elevada em países com fundamentos fracos e enquadramentos políticos débeis, suscitando preocupações de substituição cambial.”

Isto significa que quando as pessoas num país em desenvolvimento começam a usar stablecoins em vez da moeda local, o banco central perde capacidade de controlar a política monetária, com consequências potencialmente graves para toda a economia.

Este fenómeno das stablecoins não existe isolado, mas insere-se numa transformação financeira muito mais vasta que se acelerou após a crise financeira global de 2008. Durante décadas, os bancos foram o principal canal de financiamento externo para os mercados emergentes. Desde a crise, esse papel foi sendo progressivamente assumido por investidores não bancários como fundos de investimento, hedge funds, seguradoras e fundos de pensões.

O resultado é que os fluxos de carteira para estes mercados multiplicaram-se por oito, atingindo cerca de 4 biliões de dólares em termos acumulados até 2025. Atualmente, 80% deste capital tem origem no setor não bancário, o dobro da quota registada há duas décadas, e as dívidas de carteira dos mercados emergentes representam já em média 15% do PIB, face aos 9% de 2006.

Esta transformação trouxe benefícios reais, como o acesso a financiamento mais barato, emissão de dívida a prazos mais longos e melhores condições para as empresas locais se integrarem nas cadeias de valor globais. Mas o FMI é claro quanto aos riscos: “Os fluxos de carteira para estes mercados tendem a ser altamente voláteis, e a sua sensibilidade a alterações das condições financeiras globais parece ter aumentado desde a crise financeira global.”

O FMI refere que os fluxos de stablecoins tendem a intensificar-se nos momentos de maior aversão ao risco global, comportando-se como um ativo de refúgio digital com lógica semelhante à do dólar físico.

O problema é que nem todos os investidores não bancários se comportam da mesma forma quando surgem turbulências. Para medir o impacto, o FMI usa o VIX – o chamado “índice do medo” de Wall Street, que sobe quando os mercados entram em pânico. Um aumento equivalente ao registado em 2022, quando a Reserva Federal americana subiu rapidamente as taxas de juro, está associado a saídas de capitais de dívida dos mercados emergentes de cerca de 1% do PIB trimestral.

  • No caso dos fundos de investimento, esse valor duplica, apontam os analistas do FMI, enquanto os hedge funds revelam-se os mais sensíveis: uma escalada de volatilidade está associada a uma queda de 1,3% nas suas posições em mercados emergentes, enquanto os fundos mútuos recuam cerca de 0,6%.
  • As seguradoras e os fundos de pensões, pelo contrário, não mostram uma resposta estatisticamente relevante ao mesmo choque, mostrando-se, por natureza, investidores de longo prazo menos propensos ao pânico.
  • Mas a situação agrava-se nos países mais vulneráveis, aqueles com dívida pública elevada, reservas cambiais insuficientes ou instituições mais frágeis, que sofrem fugas de capital ainda maiores quando a turbulência chega. Num cenário de stress, um ponto percentual adicional de exposição a investidores voláteis está associado a uma queda de 28% no volume de emissões de dívida soberana e de 45% nas emissões de obrigações empresariais.

O relatório do FMI documenta que estas ligações crescentes com o ecossistema cripto “podem fortalecer a transmissão transfronteiriça de choques financeiros globais e de choques no mercado cripto”, um risco cuja magnitude ainda é difícil de quantificar, mas que se torna mais concreto à medida que gestoras de ativos tradicionais integram produtos ligados a criptoativos nas suas carteiras.

O FMI sublinha que os fluxos de stablecoins tendem a intensificar-se precisamente nos momentos de maior aversão ao risco global, comportando-se como um ativo de refúgio digital com lógica semelhante à do dólar físico, o que pode amplificar a volatilidade cambial nos países mais expostos e corroer a eficácia da política monetária local quando esta mais importa.

Perante este diagnóstico, o Fundo apresenta um conjunto de recomendações que exigem ação tanto a nível nacional como internacional.

  • Aos países emergentes, pede que reforcem os seus fundamentos macroeconómicos, constituam reservas fiscais e cambiais sólidas, e diversifiquem a sua base de investidores – privilegiando os de longo prazo, como seguradoras e fundos de pensões, em detrimento dos mais voláteis.
  • Quanto às stablecoins, o relatório apela a uma supervisão proporcional e a partilha reforçada de dados entre países, reconhecendo que a regulação global permanece fragmentada.

A cooperação internacional é essencial para colmatar as lacunas regulatórias na intermediação financeira não bancária e para limitar a propagação e amplificação transfronteiriça de choques financeiros globais”, destacam os analistas do FMI no relatório. Sem essa coordenação, o risco não desaparece, apenas muda de forma, migrando para os cantos menos vigiados do sistema financeiro mundial.

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