“Há algo de fundamentalmente diferente nos jovens desta geração”: O novo retrato do consumo de notícias
As redes sociais já são o principal meio pelo qual os mais jovens se informam. Mas o que mais revelam os dados? Como é esse consumo feito? Um estudo promovido pelo Reuters Institute traça o retrato.
As redes sociais são o principal meio através do qual os jovens acedem às notícias. Se, em 2015, os jovens entre os 18 e os 24 anos tinham contacto com a informação através dos websites e aplicações dos órgãos de comunicação social, o retrato alterou-se. De que maneira? Como se define, então, este novo panorama? O estudo “Understanding Young News Audiences at a Time of Rapid Change”, promovido pelo Reuters Institute, revisita dados dos últimos 12 anos para traçar um retrato desta geração de consumidores de informação.
Há pouco mais de dez anos, 21% dos jovens afirmavam que as redes sociais eram a sua principal fonte de notícias. Atualmente, esse valor sobe para 39% e ultrapassa os websites e apps — que de 36% em 2015 descem agora para os 24%. Em sentido inverso às redes socias, a televisão caiu para os 21%.

O próprio ecossistema das redes sociais sofreu alterações profundas. Se o Facebook dominava em 2015, agora TikTok, Instagram e Youtube são as plataformas preferidas por esta faixa etária. Nestas redes, os jovens preferem os criadores de ‘notícias’ — 51% — aos jornalistas e meios tradicionais — 39%. O relatório destaca que estes valores “estão essencialmente invertidos” quando se analisa o comportamento dos utilizadores com mais de 55 anos.
Apesar desta tendência, os investigadores notam que fica “em aberto” a questão de saber até que ponto os criadores substituem, em vez de complementarem, os órgãos de comunicação tradicionais no acesso à informação. Ainda assim, os dados sugerem que quem consome mais notícias através de criadores online “são também as que têm maior probabilidade de consumir notícias de fontes tradicionais — são amantes de notícias (news lovers)“.
De forma transversal, os jovens mostram uma maior preferência por ouvir ou assistir a formatos noticiosos online do que os grupos mais velhos, embora a leitura continue a liderar na maioria dos mercados. O consumo de podcasts é também superior nesta faixa etária, mas, curiosamente, a preferência por podcasts estritamente noticiosos é menor face ao registado pelo público mais sénior.
“É importante ter em mente que os jovens são consumidores ávidos de meios digitais — mesmo que esse consumo de media tenha menor probabilidade de girar em torno de conteúdos alinhados com uma definição mais tradicional de notícias”, ressalva o documento. Analisando 48 mercados em 2025, 60% dos jovens admitem sentir que estão “sempre ligados à internet”, um contraste significativo com os 40% registados entre a população com 55 ou mais anos.
O que atrai os jovens nas notícias?
A maioria dos jovens — 64% — consome informação diariamente, um valor que, ainda assim, fica aquém dos 87% registados na faixa com mais de 55 anos. O estudo atribui esta diferença ao facto de o consumo via redes sociais ser menos intencional e mais incidental. Ao depararem-se com notícias nestas plataformas, os jovens tendem a fazê-lo “enquanto lá estão por outros motivos, sendo menos provável que se recordem da marca noticiosa que as forneceu“, o que acaba por enfraquecer “a ligação direta das pessoas às marcas de notícias”.
Apenas um terço dos jovens — 35% — esteve “muito” ou “extremamente” interessado nas notícias em 2025. Entre os maiores de 55, esse valor era de 52% Em termos temáticos, a política perde terreno para os conteúdos divertidos e de entretenimento. Os jovens do sexo masculino estão comparativamente mais interessados em ciência e tecnologia e as do sexo feminino em saúde mental.
A maioria das pessoas, em todas as gerações, favorece a ideia de notícias imparciais, mas os jovens pensam com maior frequência — 32% face a 19% das pessoas com mais de 55 anos — que “não faz sentido que os meios de comunicação sejam neutros em certas questões”, como as alterações climáticas ou o racismo.
Sobre a aparente falta de interesse pela informação, o estudo nota que “o interesse tem sido historicamente mais baixo entre os mais jovens“, com fatores como “estarem menos interessados ou envolvidos politicamente e terem hábitos ou preferências menos definidos” a serem apontados como prováveis razões.
“Há quem argumente que parte disto é fruto da fase da vida, afirmando que os jovens irão ‘amadurecer’ para o interesse e consumo de notícias à medida que passam para o emprego a tempo inteiro, têm filhos ou contraem empréstimos habitacionais”, apontam os investigadores.
Contudo, os autores do relatório sublinham que os dados sugerem que “há algo de fundamentalmente diferente nos jovens desta geração“, com “uma maior dependência dos smartphones e das redes sociais, a falta de hábitos definidos ou de lealdade a marcas de notícias, bem como diferenças nas preferências e objetivos subjacentes”.

O news avoidance — evitamento intencional de notícias — foi outro tema dissecado. Pouco menos de metade dos jovens — 42% — afirma que evita notícias “às vezes” ou “frequentemente”, contra 37% entre os indivíduos com 55 ou mais anos.
“Ao contrário do que se assume frequentemente, os jovens entre os 18 e os 24 anos não têm maior probabilidade de evitar notícias do que qualquer outra pessoa com menos de 55 anos. No entanto, o news avoidance tem aumentado de forma uniforme em todos os grupos etários ao longo do tempo, subindo de 30% entre os 18–24 anos em 2017, e de 25% entre o grupo de 55+ anos no mesmo ano”, aponta-se.

Apesar desce cenário, o relatório desmistifica a ideia de que os jovens desconfiam mais que outras faixas etárias dos media tradicionais. Em 2025, 37% dos jovens confiavam na maioria das notícias, uma diferença de apenas nove pontos percentuais em relação aos maiores de 55 anos — 46%.
A inteligência artificial (IA) surge como uma ferramenta cada vez mais natural para esta demografia. Cerca de 15% utiliza a IA para aceder a notícias semanalmente, em comparação com os 3% registados nas pessoas com 55 anos ou mais. Têm também uma visão mais positiva em relação ao jornalismo assistido por IA e são mais propensas a dizer que utilizam a IA para ajudar a navegar e simplificar notícias complexas.
O impacto e os desafios para a Imprensa
O padrão de consumo acidental através das redes sociais “prejudica seriamente os modelos de receita publicitária e de audiência de que a maioria dos editores depende“. Assim, “para os editores de notícias, um dos desafios não é apenas chegar aos jovens, mas chegar até eles de formas que os incentivem a fazer parte da sua audiência principal”.
No caminho para “potenciar os benefícios das novas plataformas” estão riscos como a dependência de sistemas opacos das plataformas. “Os debates políticos em torno da proibição de plataformas para jovens introduzem mais incerteza, podendo interromper caminhos já estabelecidos de acesso a notícias entre os adolescentes”, destaca ainda o relatório.
A solução, aponta o estudo, passa pela diversificação de plataformas. “Organizações de todos os tipos — tanto tradicionais como nativas digitais — que utilizam estas plataformas precisarão de continuar a testar estratégias para trazer as audiências de volta a espaços onde tenham maior controlo e possam gerar receitas mais facilmente, tais como websites, aplicações e newsletters, ou redes fechadas como o WhatsApp e o Telegram”, pode ler-se.
Encontrar a “voz” certa é outro obstáculo. As redações enfrentam o teste de conseguir “fazer a ponte entre a credibilidade institucional e uma entrega nativa das plataformas”, seja adotando tons mais conversacionais, o humor ou mesmo estabelecendo parcerias com criadores independentes. O principal desafio será “encontrar o equilíbrio certo — que envolva o público sem entrar em conflito com os princípios fundamentais do jornalismo ou com as identidades das marcas”.
O meio digital permanece “altamente dinâmico e experimental”. “Os meios e influenciadores orientados para a juventude beneficiam frequentemente de uma compreensão mais intuitiva da narrativa, estética e normas das plataformas, mas enfrentam limitações persistentes de receita e, por vezes, dependem da reportagem original das organizações tradicionais”, diz-se, por um lado.
Por outro lado, o relatório aconselha que “os media estabelecidos devem ponderar até que ponto podem esticar as suas marcas para servir as audiências mais jovens sem alienar as mais velhas, seja expandindo a sua oferta principal ou desenvolvendo produtos diferenciados”.
“A colaboração, a adaptação e a clareza estratégica serão essenciais para navegar num cenário onde a visibilidade e a relevância continuam a ser os desafios centrais“, conclui-se.
Metodologia
O documento baseia-se em relatórios de investigação qualitativa e quantitativa e em conjuntos de dados dos últimos 12 anos, em particular do Digital News Report de 2013 a 2025. Para garantir comparações históricas precisas desde 2013, a análise foca-se num grupo fixo de nove mercados principais — Reino Unido, Estados Unidos da América, França, Alemanha, Dinamarca, Itália, Espanha, Japão e Brasil — , evitando distorções causadas pelo alargamento do estudo a novos países.
Os dados quantitativos deste relatório provêm maioritariamente dos inquéritos do Digital News Report, mas, em alguns casos, recorreram a outros inquéritos, incluindo os relatórios sobre Generative AI e News Audiences do projeto ” AI and the Future of News “.
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