Saúde perante o seu maior ponto de viragem: cinco desafios estruturais que irão redefinir o sistema de saúde na próxima década

  • Servimedia
  • 7 Abril 2026

Por ocasião do Dia Mundial da Saúde, o Instituto Coordenadas de Governança e Economia Aplicada, elaborou uma análise sobre os desafios estruturais que o sistema de saúde vai ter na próxima década.

Esta análise destaca um cenário marcado pelo envelhecimento da população e pela crescente pressão sobre a sustentabilidade do sistema.

Segundo o Icgea, as mudanças estruturais, como a transformação da pirâmide etária e a irrupção de novas tecnologias, obrigam a repensar o modelo de saúde. Jesús Sánchez Lambás, vice-presidente executivo do instituto, afirmou que «a saúde tornou-se um dos grandes eixos de competitividade dos países».

O estudo salienta que já não se trata apenas de sistemas de assistência, mas de estruturas críticas que condicionam o desenvolvimento económico e social. «Os sistemas de saúde que não forem capazes de se adaptar a este desafio ficarão sob pressão em termos de sustentabilidade e resposta», acrescentou Sánchez Lambás.

O primeiro desafio identificado é a transformação do sistema de saúde, que deve adaptar-se à inovação biomédica e digital. A transição de doenças agudas para crónicas coloca a necessidade de modelos mais integrados e centrados no doente. A incorporação de terapias avançadas também aumenta os custos e as exigências organizacionais.

INOVAÇÃO E ACESSO

O acesso equitativo à inovação na área da saúde continua a ser um desafio. As associações de doentes têm destacado a necessidade de garantir direitos como o acesso a uma segunda opinião médica. A sustentabilidade do sistema de saúde dependerá da sua capacidade de integrar a inovação e garantir o acesso equitativo.

A digitalização e o uso da inteligência artificial estão a transformar a prática clínica. Projetos como o Scribe, da Quirónsalud, estão a melhorar a eficiência do sistema e a restabelecer uma relação mais direta entre médico e paciente. Ao mesmo tempo, a autonomia estratégica no fornecimento de medicamentos tornou-se uma prioridade.

A segurança no fornecimento de medicamentos é crucial num contexto global incerto. Iniciativas como as promovidas pela Cofares procuram garantir a disponibilidade de medicamentos essenciais. A capacidade industrial também desempenha um papel fundamental na resiliência do sistema, com empresas que reforçam a autonomia estratégica.

O segundo desafio é a transformação demográfica, em que o envelhecimento da população aumenta a procura de cuidados de saúde. As pessoas com mais de 65 anos, especialmente as com mais de 80, estão a aumentar significativamente a pressão sobre os recursos de cuidados de saúde. A chave já não é apenas aumentar a esperança de vida, mas garantir anos funcionais e saudáveis.

ENVELHECIMENTO E CUIDADOS

Este fenómeno exige uma abordagem integral no sistema de cuidados. Promover hábitos como o exercício físico é essencial para melhorar a qualidade de vida na terceira idade. Iniciativas como as da GOfit destacam o impacto positivo da atividade física adaptada na prevenção da fragilidade.

A crescente dependência exige o reforço dos modelos de cuidados de longa duração. A Espanha enfrenta uma escassez de talentos na área dos cuidados, o que obriga a uma colaboração entre os setores público e privado. Entidades como a DomusVi estão a desenvolver políticas para atrair e fidelizar talentos no setor.

O impacto do envelhecimento é mais acentuado nas zonas rurais, onde as farmácias rurais são um pilar essencial do sistema. Estas farmácias não só dispensam medicamentos, como também oferecem cuidados básicos. Garantir a sua sustentabilidade é fundamental para assegurar a equidade territorial.

O terceiro desafio é a transformação do cancro, que está a passar de uma doença aguda para uma patologia crónica. Os avanços no diagnóstico e no tratamento aumentaram significativamente a sobrevivência, mas também aumentaram a complexidade da abordagem clínica. O cancro deixa de ser, em muitos casos, um episódio agudo.

CANCRO E DOENÇAS CRÓNICAS

A inovação na área oncológica está a gerar avanços significativos, mas também coloca desafios no acesso aos tratamentos. A prevenção e a sensibilização continuam a ser fundamentais, especialmente no caso do cancro da pele. Iniciativas como as da ISDIN reforçam a importância da prevenção desde tenra idade.

As doenças crónicas, como as cardiovasculares e metabólicas, constituem outro grande desafio. A sua elevada prevalência e a relação com fatores de risco modificáveis exigem uma mudança no modelo de cuidados de saúde. A gestão das doenças crónicas é, provavelmente, o maior desafio estrutural que os sistemas de saúde enfrentam.

Por último, a saúde mental consolidou-se como um desafio emergente. O aumento de perturbações como a ansiedade e a depressão afeta a produtividade e a coesão social, pelo que a saúde mental deixou de ser uma área periférica para se tornar um elemento central do sistema de saúde.

A saúde deixou de ser uma área exclusivamente assistencial para se tornar uma questão de Estado. A capacidade de antecipar e transformar o sistema de saúde marcará a diferença entre os modelos que evoluem para estruturas sustentáveis e aqueles que ficam sobrecarregados pela inércia do passado.

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