Entre o alívio e as dúvidas, o que precisa de saber sobre as primeiras horas do cessar-fogo no Golfo
Investidores e líderes aplaudem o acordo para pausar a guerra, mas a incerteza não terminou, especialmente sobre o plano para reabrir o Estreito de Ormuz. Veja aqui as principais notícias e reações.
Após o anúncio de um cessar‑fogo de duas semanas no conflito no Médio Oriente feito por Donald Trump, e com Israel a aceitar os termos da trégua, o primeiro‑ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou esta quarta-feira que o país respeitará o acordo, mas que “o cessar‑fogo de duas semanas não inclui o Líbano”.
Os EUA e o Irão aceitaram este período de tréguas para dar lugar a negociações que possibilitem um acordo mais duradouro. Essas negociações deverão arrancar na sexta-feira, em Islamabad, no Paquistão.
O anúncio teve impactos imediatos nos mercados, com várias reações internacionais, e começou a abrir caminho à tão esperada reabertura do Estreito de Ormuz, fechado à navegação há mais de um mês.

Neste ponto estratégico, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, a agência Reuters avança que o presidente francês, Emmanuel Macron, está a trabalhar em planos para o Estreito enquanto se reúne com os seus conselheiros e membros do governo. “Cerca de 15 países estão atualmente mobilizados e a participar no planeamento, sob a liderança de França, para permitir a implementação desta missão estritamente defensiva em coordenação com o Irão, de forma a facilitar a retoma do tráfego”, afirmou Macron.
A BBC, que cita a comunicação social iraniana, adiantou as condições de Teerão para reabrir o Estreito de Ormuz, num plano de dez pontos:
- Cessação completa da guerra no Iraque, Líbano e Iémen.
- Cessação completa e permanente da guerra contra o Irão, sem limite temporal.
- Fim de todos os conflitos na região.
- Reabertura do Estreito de Ormuz.
- Estabelecimento de um protocolo e condições para garantir a liberdade e segurança da navegação no Estreito de Ormuz.
- Pagamento integral de compensações pelos custos de reconstrução ao Irão.
- Compromisso total de levantamento das sanções contra o Irão.
- Libertação de fundos iranianos e ativos congelados detidos pelos Estados Unidos.
- Compromisso do Irão de não procurar possuir armas nucleares.
- Cessar-fogo entra em vigor de imediato, em todas as frentes, após a aprovação das condições acima.
Veja aqui os principais desenvolvimentos e reações:
Governo, União Europeia, Papa e JD Vance já reagiram ao cessar-fogo
- Portugal, através de um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, agradece ao Paquistão e a todos os parceiros pela mediação das conversações para alcançar um acordo de paz e “saúda o acordo de cessar‑fogo e a abertura do Estreito de Ormuz alcançados pelos Estados Unidos e pelo Irão”. O ministério, liderado por Paulo Rangel, acrescenta que “este é um primeiro passo determinante para uma solução diplomática duradoura e sustentável do conflito”.
- A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou: “Saúdo o cessar‑fogo de duas semanas que os EUA e o Irão acordaram ontem à noite” e pediu que se alcance “uma solução duradoura” para o conflito, garantindo que a Comissão Europeia continuará a trabalhar para atingir esse objetivo.
- Já Pedro Sánchez, que desde o início do conflito se mostrou crítico do ataque ao Irão, declarou: “O alívio momentâneo não nos pode fazer esquecer o caos, a destruição e as vidas perdidas. O Governo de Espanha não aplaudirá quem incendeia o mundo. O que se impõe agora é diplomacia, direito internacional e paz”.
- O vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou esta quarta-feira que “se o Irão estiver disposto a negociar de boa-fé com os Estados Unidos, é possível chegar a um acordo para pôr fim ao conflito no Médio Oriente”. Vance acrescentou que o presidente dos EUA instruiu a equipa de negociações a “trabalhar de boa-fé para alcançar um acordo”.
- O Papa Leão IX saudou esta quarta-feira o cessar‑fogo de duas semanas no Médio Oriente, apelando à continuação das negociações para pôr fim total ao conflito. Horas antes, o líder da igreja católica tinha classificado a ameaça de Trump contra a população do Irão como “inaceitável”.
- O vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, afirmou esta quarta-feira que Itália não enviará navios para o Estreito de Ormuz após o cessar-fogo entre EUA e Irão. Salvini, que é também ministro das Infraestruturas, sublinhou: “Não está na agenda. Já dissemos que não enviaremos navios a menos que haja uma iniciativa da ONU”.
- O secretário-geral da ONU, António Guterres, saudou também o cessar‑fogo de duas semanas entre EUA e Irão e apelou ao cumprimento das obrigações de todos os envolvidos, “à luz do direito internacional”, sublinhando a necessidade de preparar uma paz duradoura na região.
- Também o presidente do Conselho Europeu, António Costa, saudou o cessar‑fogo de duas semanas entre EUA e Irão e apelou a que seja respeitado para alcançar uma “paz sustentável” na região.
Principais reações nos mercados:
Após semanas de volatilidade, os investidores respiraram de alívio, mas o relógio não para. A atenção volta-se agora para as próximas negociações cruciais entre os EUA e o Irão, referiu Matthew Ryan, analista da Ebury. “A questão fundamental será se isto irá trazer uma paz duradoura, ou se o cessar-fogo de terça-feira serviu apenas para adiar o problema”.
“Suspeitamos que os participantes no mercado não se comprometerão totalmente com uma postura de apetência pelo risco, nem que os futuros do petróleo ou o dólar regressem aos níveis pré-guerra, até que seja alcançado um acordo permanente”, sublinhou.
Entretanto, a incerteza continua no ar. “A forma como o ponto central de discórdia — o programa nuclear iraniano versus as garantias de segurança dos EUA — será resolvido permanece incerta. O mesmo se aplica à dinâmica regional mais ampla e às consequências políticas nos EUA, onde a ratificação de qualquer acordo pode enfrentar oposição interna”, afirma o economista-chefe da Allianz Global Investors (Allianz GI), num comentário divulgado nesta quarta-feira. Para Christian Schulz, este cenário “aumenta o risco de novas iniciativas potencialmente disruptivas como manobra política”, pelo que “parece justificar-se um prémio de risco geopolítico contínuo — e possivelmente elevado — nos preços da energia”.
- Petróleo: Depois de semanas de subidas agressivas, o Brent, principal referência para a Europa, caiu 16,26%, sendo negociado às 13h45 a 91,50 dólares. Já o WTI, referência americana do crude, desceu 17,83% para 92,81 dólares.
- Praças europeias: Os principais índices europeus estão a reagir de forma positiva ao acordo de cessar-fogo mediado pelo Paquistão. O índice Stoxx 600 sobe 4,42%, o PSI valoriza 0,71%, mesmo com a Galp a cair mais de 7,5%, o espanhol IBEX dispara 4,60%, o francês CAC 40 sobe 4,99%, e o alemão DAX avança 5,42%. Em Milão registam-se ganhos de 4,28%, em Londres de 3,20% e o índice neerlandês sobe 3,58%.
- Futuros: Em Wall Street, na sessão de pré-mercado, a expectativa é também de subida, com o S&P 500 a apontar para ganhos de 2,63%, o Dow Jones 2,67% e o tecnológico Nasdaq 3,39%.
- Mercados asiáticos: Na Ásia, o principal índice da Bolsa de Tóquio, o Nikkei, fechou com uma valorização de 5,39% esta quarta-feira, enquanto as bolsas chinesas e de Hong Kong apresentam, até ao momento, ganhos acima de 2,5%..
(Artigo atualizado com as cotações mais recentes às 13h50)
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