FMI avisa que guerras destroem mais riqueza do que crises financeiras

FMI alerta para perdas acumuladas de produção de 7% ao longo de um período de cinco anos nos países em que ocorrem os conflitos. No entanto, impacto tende a persistir ao longo de mais de 10 anos.

ECO Fast
  • Os conflitos armados geram perdas económicas superiores às crises financeiras, com impactos duradouros que afetam a produção e o investimento.
  • O FMI estima que a produção nas economias afetadas por conflitos pode cair cerca de 7% nos primeiros cinco anos, com efeitos de contágio para países vizinhos.
  • As recuperações económicas após guerras são lentas e desiguais, dependendo da durabilidade da paz e da eficácia das políticas de estabilização e reconstrução.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Os conflitos armados provocam perdas económicas superiores às das crises financeiras ou de catástrofes naturais, com impactos que persistem mais do que uma década. A conclusão é do Fundo Monetário Internacional (FMI), que alerta para o choque na economia gerado pelas guerras, nomeadamente com subida de inflação, fuga de capitais e queda abrupta do investimento.

Numa análise intitulada “A macroeconomia dos conflitos e da recuperação”, divulgada esta quarta-feira, a instituição liderada por Kristalina Georgieva assinala que “os conflitos geram perdas significativas e persistentes de produção nas economias onde ocorrem os combates, bem como efeitos de contágio não negligenciáveis para outros países“.

Perdas superam as associadas a crises financeiras ou a desastres naturais graves e dão origem a difíceis trade-offs macroeconómicos entre políticas monetárias, orçamentais e externas, além de deixarem cicatrizes duradouras.

Com base nos conflitos ocorridos após–Segunda Guerra Mundial, o FMI estima que, para a economia média afetada diretamente por um conflito, a produção cai abruptamente no início do conflito, atingindo perdas acumuladas de cerca de 7% ao longo de um período de cinco anos. No entanto, estas perdas tendem a persistir mesmo após um período de dez anos.

“Estas perdas superam as associadas a crises financeiras ou a desastres naturais graves e dão origem a difíceis trade-offs macroeconómicos entre políticas monetárias, orçamentais e externas, além de deixarem cicatrizes duradouras”, alerta a instituição de Bretton Woods.

Fonte: FMI

Ou seja, as perdas de produção tendem a refletir-se em contrações prolongadas do consumo privado e do investimento, à medida que os rendimentos das famílias diminuem e a incerteza aumenta, a par de uma reorientação da despesa pública para fins militares. “As posições orçamentais dos governos deterioram-se, uma vez que a sua capacidade de arrecadar receitas enfraquece”, realça o FMI.

Ademais, as exportações tendem a reduzir-se de forma mais acentuada do que as importações, conduzindo a uma deterioração temporária da balança comercial, ao mesmo tempo que a incerteza gerada pela guerra alimenta fugas de capitais, levando os governos em tempo de guerra a introduzirem controlos de capitais e “a recorrerem a fluxos de financiamento contracíclicos para financiar os défices comerciais”.

Paralelamente, o FMI encontra evidências de que a dinâmica da guerra contribui ainda para uma “depreciação sustentada da taxa de câmbio, perdas de reservas e pressões inflacionistas, evidenciando o papel do setor externo na amplificação dos desafios macroeconómicos em contexto de guerra”.

Na análise publicada em antecipação à divulgação do World Economic Outlook (WEO), que será conhecido na próxima semana e sobre o qual Georgieva já sinalizou que trará uma revisão em baixa do crescimento mundial devido à guerra no Irão, pode ler-se ainda que, para além dos países diretamente afetados, os países vizinhos e parceiros comerciais também enfrentam no curto prazo “modestas perdas de produção, mas não negligenciáveis”. Todavia, estas tendem a dissipar-se gradualmente à medida que o ajustamento económico e as respostas de política mitigam as perturbações iniciais.

Recuperações “lentas e desiguais”

O FMI alerta ainda que as recuperações económicas após guerras “são lentas e desiguais”, dependendo de forma crítica da durabilidade da paz — em cerca de 40% dos episódios pós-conflito do pós-Segunda Guerra Mundial, os países voltaram a registar conflitos nos cinco anos seguintes.

Quando a paz é sustentada, a produção recupera, mas frequentemente continua modesta em relação às perdas sofridas durante o conflito. Em contraste, em contextos pós-conflito frágeis, onde a violência regressa, as recuperações tendem a estagnar”, explica.

Nos cálculos do FMI, a produção aumenta gradualmente, atingindo cerca de 3,9% cinco anos após o fim do conflito, sendo recuperada apenas cerca de metade da perda de produção observada cinco anos após o início do mesmo.

“Quando a paz é sustentada, a produção recupera, mas frequentemente continua modesta em relação às perdas sofridas durante o conflito. Em contraste, em contextos pós-conflito frágeis, onde a violência regressa, as recuperações tendem a estagnar

Neste sentido, a instituição de Bretton Woods assinala que “a evidência empírica e os estudos de caso destacam o papel central da estabilização macroeconómica precoce, de reestruturações decisivas da dívida e do apoio internacional — incluindo ajuda e desenvolvimento de capacidades — na restauração da confiança e na criação de condições para a recuperação pós-conflito”.

Considera ainda que os esforços de recuperação são mais eficazes quando acompanhados por reformas internas destinadas a reconstruir instituições e a capacidade do Estado, promover a inclusão e a segurança, e mitigar perdas de capital humano.

Deste modo, conclui que embora “a recuperação pós-conflito seja intrinsecamente desafiante e dependente do contexto, a paz duradoura, a estabilização credível e a ação política coordenada são essenciais para alcançar recuperações mais robustas e sustentáveis”.

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