“Otimismo cauteloso” convive com dúvidas sobre controlo e calendário. Mais de 800 navios devem sair de Ormuz a “conta-gotas”
Apesar do cessar-fogo EUA-Irão, permanecem dúvidas sobre a passagem de navios no estreito, nomeadamente calendário, fluxo e pagamentos. Armadores globais pedem "regresso imediato à liberdade".
- O cessar-fogo de duas semanas no Médio Oriente, alcançado entre os Estados Unidos e o Irão, permite a reabertura do estreito de Ormuz, mas gera incertezas sobre a passagem de navios.
- A Câmara Internacional de Navegação saudou o acordo, que representa um alívio para os marinheiros, mas alertou para a necessidade de garantir a liberdade de trânsito no estreito.
- As negociações futuras em Islamabad serão decisivas para a manutenção do cessar-fogo, com preocupações sobre a possibilidade de novas hostilidades na região.
O cessar-fogo de duas semanas no Médio Oriente, depois de os Estados Unidos e o Irão terem chegado a acordo duas horas antes do limite do ultimato feito por Donald Trump, implica a reabertura do estreito de Ormuz. No entanto, mantém-se um impasse sobre os trâmites da passagem de navios, nomeadamente o calendário, o fluxo e os pagamentos.
Para a Casa Branca, o estreito vai voltar a funcionar como uma espécie de Via Verde, mas para Teerão não é bem assim. O presidente norte-americano afirma que o cessar-fogo significa uma “abertura completa, imediata e segura” e o tráfego fluirá livremente, enquanto o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros diz que a passagem de navios acontecerá “através da coordenação com as Forças Armadas do Irão e com as devidas considerações às limitações técnicas”.
A diferença entre “abertura completa” e “limitações técnicas” terá implicações no transporte de matérias-primas, entre as quais petróleo, gás, combustível de aviação (jet fuel), enxofre ou ureia. É por esse motivo que os armadores – empresas que gerem e exploram navios de mercadorias, mostram um “otimismo cauteloso” perante as notícias desta madrugada, de acordo com a Bloomberg.
A Câmara Internacional de Navegação (ICS – International Chamber of Shipping), que representa cerca de 80% da tonelagem mercante mundial, saudou o “cessar-fogo condicional” entre os Estados Unidos e o Irão e espera que “sinalize o início de um regresso à estabilidade na região”. A organização mundial de navegação caracterizou a notícia como “um alívio para os 20 mil marinheiros que estiveram na linha da frente desta crise”, mas alertou para a necessidade do “regresso imediato à liberdade” dos navios.
A câmara empresarial da indústria da armação referiu que os países, quer dentro quer fora da região do Golfo Pérsico, “devem trabalhar com o setor marítimo para garantir trânsitos ordenados e sem impedimentos através do estreito” e mostrou-se disponível para “apoiar neste processo de todas as formas possíveis”, de acordo com um comunicado divulgado esta quarta-feira.
“Vai demorar tempo”
O analista de navegação Lars Jensen explicou que “ainda não mudou nada” no estreito e “vai demorar tempo” para que a confiança dos operadores seja reposta. Em declarações esta manhã à BBC, o ex-executivo da dinamarquesa de logística Maersk antecipa que diversos navios irão sair do Golfo nos próximos dias, mas a entrada acontecerá a “conta-gotas” devido ao risco de, caso o cessar-fogo seja quebrado, as embarcações ficarem presas.

Nas últimas semanas, perante os ataques e a incapacidade de garantir a segurança da tripulação e das cargas, os navios têm-se mantido ancorados em ambos os lados do estreito de Ormuz, pelo que o tráfego marítimo diminuiu significativamente e fez disparar o valor das matérias-primas, como o petróleo. Agora, os armadores estão a tentar compreender os detalhes deste cessar-fogo e esperam, segundo o relato das das agências noticiosas internacionais, uma janela de oportunidade para retirar os mais de 800 navios presos no Golfo Pérsico.
Além da ICS, a Associação Japonesa de Armadores (JSA – Japanese Shipowners’ Association) foi uma das poucas organizações a posicionar-se publicamente sobre a expectativa perante a reabertura do estreito, mas disse apenas que ainda ia verificar os detalhes do acordo EUA-Irão antes de divulgar informações adicionais.
Ao telefone durante 25 minutos, sobre este tema, estiveram precisamente Tóquio e Teerão. A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, pediu ao presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que acalme rapidamente as tensões no Médio Oriente e garanta a segurança dos navios que navegam pelo estreito de Ormuz.
Por sua vez, Pequim apelou à cooperação internacional, quando questionados sobre eventuais taxas que o Irão e Omã pudessem impor taxas aos navios. A China espera que todas as partes trabalhem em conjunto para facilitar a retoma rápida da passagem normal pelo estreito de Ormuz, até porque é uma rota importante para o comércio internacional de bens e energia, e salvaguardar a segurança, a estabilidade e a passagem desimpedida nesta região serve os interesses comuns da comunidade internacional.
Seul tem 14 milhões de barris de crude retidos
A Coreia do Sul é outro dos países afetados pelo bloqueio em Ormuz. Mais concretamente, Seul tem retidos oito navios com produtos petrolíferos, cinco graneleiros, dois com gás liquefeito, um porta-contentores e um navio de transporte de carros retidos. Na região estão mais sete petroleiros que transportam 14 milhões de barris de crude – o equivalente ao consumo de petróleo da Coreia do Sul em cinco dias. Por essa razão, os ministérios do Comércio, Indústria e Recursos Naturais, Negócios Estrangeiros e Oceanos vão agora trabalhar em conjunto para ajudá-los a atravessar a rota marítima em segurança, após este cessar-fogo.
Os analistas do Deutsche Bank levantam a questão: O cessar-fogo vai manter-se? As negociações podem levar a uma cessação permanente das hostilidades? “Vimos alguns ataques de Israel e do Irão durante a noite, embora estes possam já estar a ser planeados antes do cessar-fogo condicional. Também temos assistido a comentários contraditórios sobre se o cessar-fogo se estenderá às ações de Israel no Líbano”, alertam.
Em research, os especialistas advertem ainda que o comentário de Donald Trump na noite passada, de que “quase todos os vários pontos de discórdia anteriores foram acordados”, indica “um patamar mais baixo para um acordo, mas o plano de 10 pontos divulgado pelo Irão inclui elementos como o levantamento de todas as sanções e o controlo do Estreito de Ormuz pelo Irão, que anteriormente eram inaceitáveis para os Estados e os seus aliados”.
Os próximos dias serão cruciais, até porque as negociações (oficiais) deverão começar na capital paquistanesa, Islamabade, na sexta-feira, e ditarão o rumo destas tréguas.
Estreito de Ormuz é uma via marítima, localizada entre o Irão, os Emirados Árabes Unidos e Omã, com cerca de 33 km por onde se movimenta cerca de um quinto das remessas globais de petróleo.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
“Otimismo cauteloso” convive com dúvidas sobre controlo e calendário. Mais de 800 navios devem sair de Ormuz a “conta-gotas”
{{ noCommentsLabel }}