Tesouro volta a pagar mais para se financiar a longo prazo. Leilão a 10 anos supera os 3,3% e a 14 anos ultrapassa os 3,6%
O que prometia ser o leilão de obrigações a 10 anos mais caro em 12 anos foi aliviado pelo anúncio de cessar-fogo de Trump. Mas o custo pago continua a ser mais elevado do que nas últimas emissões.
O IGCP – Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, liderado por Pedro Cabeços, emitiu esta quarta-feira 1.278 milhões de euros em obrigações do Tesouro, num duplo leilão das linhas com maturidade em junho de 2036 (OT 3,25% 13jun2036, a 10 anos) e em junho de 2040 (OT 3,375% 15jun2040, a 14 anos), com um montante indicativo global definido entre 1.250 milhões e 1.500 milhões de euros.
A operação decorreu sob um ambiente que poucas horas antes seria difícil de antecipar. Na terça-feira, as yields das obrigações do Tesouro português a 10 anos chegaram a negociar acima dos 3,5% no mercado secundário, num nível que colocava o Tesouro a caminho de pagar o empréstimo de longo prazo mais caro dos últimos 12 anos.
Mas a madrugada de quarta-feira trouxe uma mudança de cenário, com Donald Trump a anunciar um cessar-fogo de duas semanas no Médio Oriente, que inclui a suspensão dos bombardeamentos sobre o Irão, desencadeando uma queda de 20 pontos base nas yields das obrigações do Tesouro a 10 anos até aos 3,3%, na maior correção num único dia desde fevereiro de 2023.
Este movimento fez com que no leilão a 10 anos, relativo à linha OT 3,25% 13jun2036, o Estado assumisse o pagamento de 3,304% para se financiar em 745 milhões de euros, e tivesse contado com uma procura 1,8 vezes acima da oferta.
No último leilão comparável, realizado a 11 de fevereiro, a República emitiu 673 milhões de euros com uma yield de 3,142%, o que significa que, mesmo com o alívio desta manhã, o custo suportado na emissão de hoje ficou 16,2 pontos base acima dessa referência.
No leilão a 14 anos, relativo à linha OT 3,375% 15jun2040, o Estado emitiu 533 milhões de euros a uma taxa de 3,61%, com uma procura 1,56 vezes acima da oferta. A última operação comparável neste segmento, realizada a 8 de maio de 2024, resultou na colocação de 608 milhões de euros com uma yield de 3,297%, que se traduz num custo 31,3 pontos base abaixo do registado neste leilão.
Segundo Filipe Silva, diretor de Investimentos do Banco Carregosa, os resultados dos leilões de hoje espelham “as expectativas do mercado relativamente à trajetória futura das taxas de juro, num enquadramento marcado pelas tensões geopolíticas decorrentes do conflito com o Irão.”
A viagem de uma noite
A inversão de expectativas protagonizada esta manhã pelos mercados obrigacionistas ilustra bem a volatilidade que tem dominado a dívida soberana europeia desde que o conflito no Médio Oriente se intensificou.
Desde finais de fevereiro, as yields das obrigações a 10 anos subiram de forma transversal na Zona Euro: as Bunds alemãs passaram dos 2,65% para perto dos 3,1%; em França, a subida foi superior a 57 pontos base; os títulos espanhóis negoceiam nos 3,58% e os italianos nos 3,99%.
Portugal não ficou imune. A expectativa de inflação mais elevada, alimentada pelo choque petrolífero decorrente dos ataques dos EUA e de Israel ao Irão, obrigou os investidores a exigir maior retorno pelo risco de emprestar ao Estado português.
O anúncio do cessar-fogo de Trump veio travar, pelo menos temporariamente, essa espiral, mas não reverteu por completo os ganhos acumulados nas últimas semanas.
Apesar do encarecimento progressivo do crédito soberano, o IGCP chega a estes leilões numa posição relativamente confortável no plano do calendário.
Segundo o Programa de Financiamento da República para o segundo trimestre, Portugal cumpriu 35% do objetivo de emissão anual de obrigações do Tesouro até ao final de março, mais do que proporcional relativamente ao período decorrido do ano.
O boletim mensal de março do IGCP revelou ainda que o custo médio de emissão da dívida em 2026 se situava nos 3,1% até esse mês, um nível que, à luz dos resultados desta manhã, deverá registar uma nova pressão em alta.
Como notou Pedro Brinca, professor da Nova SBE, em declarações ao ECO antes dos leilões, “estamos a fazer rollover de dívida que estava a 0% com dívida a 3,5%, mais o aumento do stock“, alertando que os dois efeitos combinados “devem aumentar umas décimas nos encargos da dívida/PIB.”
O cessar-fogo anuncia um possível alívio, mas a conta da guerra no Irão ainda está longe de estar fechada.
(Notícia atualizada às 11h25 com declarações de Filipe Silva, diretor de Investimentos do Banco Carregosa.)
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