Banca sob pressão dos acionistas para apresentarem ganhos com IA
Bancos vão acelerar investimentos na IA, embora ainda sejam poucos aqueles que conseguem tirar partido económico da nova tecnologia. "Risco não é investir demasiado, mas investir sem transformar."
- Os bancos estão a aumentar os investimentos em inteligência artificial, acreditando que esta tecnologia irá transformar o setor, apesar de desafios na sua implementação.
- Apenas 26% dos bancos reportaram aumento de receitas com a adoção da IA, refletindo um desfasamento entre expectativas e resultados práticos.
- A pressão dos acionistas para demonstrar retorno sobre o investimento em IA pode levar os bancos a acelerar a integração desta tecnologia nas suas estratégias.
Os bancos acreditam que a inteligência artificial (IA) vai transformar profundamente o setor e tencionam reforçar fortemente o investimento nesta área. Isto apesar de só uma minoria conseguir extrair valor da nova tecnologia atualmente, e de a maioria revelar dificuldades em mostrar o retorno da aposta na IA junto dos acionistas. Dados de um estudo que mostra uma indústria ainda presa entre a ambição e execução e cujo diagnóstico de fundo também se aplica a Portugal.
Apenas um em cada cinco bancos (26%) reportou um aumento das receitas com a adoção da IA, segundo o relatório Intelligent Banking, apresentado esta quinta-feira pela consultora KPMG, assente num inquérito a executivos do setor financeiro.
Embora a maioria acredite que os bancos que adotarem esta tecnologia ganharão uma vantagem competitiva significativa no futuro, para já, os resultados dessa aposta são mais modestos, traduzindo-se apenas em ganhos de eficiência.
“Os bancos estão cada vez mais a experimentar IA generativa em casos de utilização isolados, como chatbots, criação de conteúdos e marketing personalizado. No entanto, muitos estão com dificuldades em extrair valor significativo destes esforços. O nosso estudo revela que, embora muitas instituições financeiras vejam a IA como fundamental para o seu futuro e estejam a começar a perceber ganhos de eficiência, apenas uma pequena fração relata ter alcançado um crescimento de receitas com os seus investimentos em IA”, observa o estudo.
Prova de que já não se concebe o futuro da banca sem IA é o facto de a grande maioria (70%) antecipar um aumento do investimento nesta área, com quase 40% a prever aumentar os gastos em mais de 20%.
Porém, para avançarem com estes fortes investimentos vão ter de se explicar muito bem junto dos seus impacientes acionistas. Pelo menos o estudo mostra que 70% dos bancos enfrentam pressão dos seus investidores para mostrar retorno do investimento em IA.
Desafio: Ir além do projeto-piloto
O estudo mostra um setor que ainda vive um momento de desfasamento entre expectativa e realidade em relação ao impacto da IA. Ou, como observa o estudo, ainda tem de ir além dos testes e projetos-pilotos para capturar todo o potencial da IA, que vai exigir muito mais do que investimento em tecnologia e os desafios são muitos.
“O que estudo evidencia é sobretudo um ‘execution gap’, com a maioria dos líderes bancários crente que a IA irá gerar vantagem competitiva e retorno relevante, mas enfrentando um desafio estrutural de transformação, em que a tecnologia avança mais depressa do que a capacidade organizacional de a converter em valor económico”, explica Rodrigo Lourenço, Partner Head of Financial Services da KPMG em Portugal, ao ECO.
Rodrigo Lourenço admite que os bancos estão a apostar em IA tanto por convicção como também por medo de perderem a corrida. “Todos os bancos reconhecem os benefícios da IA na eficiência operacional, na experiência do cliente, na prevenção da fraude ou na modernização dos processos core. Por outro lado, é evidente que a atuação dos concorrentes condiciona e pressiona as respostas rápidas de defesa do posicionamento do mercado. Assim, muitos bancos tendem a avançar para iniciativas de IA antes de terem resolvido questões fundamentais como dados, a governação ou a integração operacional. Este contexto explica também o porquê da maioria das organizações se concentra, sobretudo, em ganhos de eficiência e redução de custos”, assume.

Muitos bancos revelam dificuldades em estabelecer um ambiente de risco suficientemente robusto para suportar uma implementação mais ampla da IA, particularmente em áreas altamente regulamentadas, como a tomada de decisões de crédito ou a monitorização da conformidade, mostra o estudo.
Problemas aos quais se juntam preocupações com os dados (inconsistentes, fragmentados e de baixa qualidade, que limita a eficácia dos modelos de IA) e a escassez de talento especializado.
E Portugal?
O estudo não fornece dados específicos para Portugal, mas Rodrigo Lourenço adianta que a banca nacional “está alinhada com a média europeia” — que está, ainda assim, atrasada em relação a mercados mais avançados dos EUA e alguns asiáticos.
“Os bancos nacionais têm feito progressos relevantes, sobretudo em áreas como eficiência operacional, risco, compliance e automação de processos. No entanto, tal como noutros mercados europeus, a IA ainda é pouco utilizada como motor direto de crescimento de receitas ou de reinvenção do modelo de negócio”, diz o sócio da KPMG Portugal.
Para Rodrigo Lourenço, o desafio não é tanto o tecnológico, mas de escala, integração e foco estratégico, “que são exatamente os obstáculos identificados pelo estudo a nível global”. De resto, a banca nacional apresenta também as mesmas limitações estruturais identificadas no estudo: fragmentação dos dados e dificuldade em escalar pilotos.
“IA não é tema apenas tecnológico”
O responsável da KPMG considera que a “IA não é um tema apenas tecnológico”, mas deve ser encarada como “um pilar da estratégia ao serviço do negócio”. E essa é uma das razões para alguns bancos (poucos e que já perceberam isso) já estarem a conseguir ganhos relevantes com a aposta na tecnologia.
“Estes bancos integram a IA diretamente nos seus principais value streams (p.e. onboarding, concessão de crédito, pagamentos ou prevenção de fraude) em vez de a utilizarem apenas como ferramenta de apoio interno”, concede Rodrigo Lourenço.
Estes bancos também investem de forma consistente em qualidade de dados, infraestrutura escalável e modelos reutilizáveis. E no que toca ao retorno, mais do que o impacto financeiro imediato, valorizam o “impacto em rapidez e qualidade de decisão, time-to-market, inovação e lealdade dos clientes, fatores que, a médio prazo, se traduzem em crescimento sustentável”.
Para quem ainda não tem um caminho claro, o estudo da KPMG estebelece um plano de três fases (enable, embed e evolve) para uma implementação bem-sucedida da IA.
“A mensagem central do estudo é inequívoca e mostra que o risco para a banca não é investir demasiado em IA, mas investir sem transformar. A tecnologia, por si só, não cria valor. O valor surge quando a IA é integrada na estratégia, nos processos e na cultura organizacional”, concretiza Rodrigo Lourenço.
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