Cessar-fogo no Irão traz “alívio”, mas empresas continuam sob pressão e incerteza
Apesar do “alívio” nos mercados após o cessar-fogo no Irão, associações empresariais sublinham que os custos continuam elevados e a incerteza persiste.
- A trégua de duas semanas entre os EUA e o Irão é vista com cautela pelas associações empresariais, que alertam para um impacto limitado no curto prazo.
- Os preços da energia permanecem elevados e o risco geopolítico continua, o que impede uma recuperação rápida e significativa do ambiente empresarial.
- As associações empresariais pedem medidas governamentais robustas para mitigar os custos elevados, pois o cessar-fogo não resolve os problemas estruturais da crise.
A trégua de duas semanas entre os EUA e o Irão está ser encarada com prudência pelas associações empresariais. Apesar de alguns sinais positivos nos mercados internacionais, os representantes dos vários setores alertam que o impacto real nas empresas será limitado no curto prazo e dependerá, sobretudo, da duração, da recuperação da confiança e da normalização dos mercados.
Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), reconhece que o anúncio representa “uma oportunidade e traz algum alívio à crise energética provocada pela guerra“, mas considera que o cenário permanece frágil. Apesar da queda imediata dos preços do petróleo e do gás e da reação positiva das bolsas, lembra que os “preços da energia continuam acima dos níveis pré-conflito e que o risco geopolítico não desapareceu”.
Para que os negócios sintam uma melhoria significativa no ambiente empresarial, o presidente da AEP sublinha que “é preciso um acordo definitivo na região, que permita uma diminuição dos riscos e a melhoria da previsibilidade, fatores essenciais para o desenvolvimento da atividade económica”.
O anúncio do cessar-fogo é uma oportunidade e traz algum alívio à grave crise energética provocada pela guerra (…) Contudo, continua a ser uma situação muito grave. Os preços da energia continuam acima dos níveis pré-conflito e o risco geopolítico não desapareceu, foi adiado.
“Este cessar-fogo pode evitar uma recessão mais profunda, mas não termina com a desaceleração global que já estamos a viver”, afirma o líder da AEP, recordando que, ainda esta semana, o diretor executivo da Agência Internacional de Energia alertou que a atual crise ser mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas.
O diretor geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) manifesta esperança de que o cessar-fogo “evolua para o fim definitivo do conflito e para a estabilização da situação no Médio Oriente, permitindo a normalização gradual dos mercados”. Ainda assim, Rafael Alves Rocha alerta que os “preços do petróleo e do gás natural não deverão regressar tão cedo aos níveis anteriores ao conflito, o que significa que a fatura energética das empresas também continuará mais elevada do que antes do conflito”.
Do lado da indústria metalúrgica e metalomecânica — o “campeão das exportações” nacionais —, o vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP) sublinha que o contexto continua marcado pela “incerteza”. “Tudo é neste momento imprevisível. Em todo o caso, antes de a situação melhorar, é certo que ainda irá agravar-se mais”, afirma Rafael Campos Pereira.
O porta-voz da AIMMAP destaca que os efeitos económicos da guerra tendem a fazer-se sentir com atraso, pelo que “no imediato, o cessar-fogo irá ser pouco relevante”, afastando um alívio rápido para as empresas.
Por sua vez, a APIGCEE — Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia Eléctrica, destaca que “os danos já infligidos em infraestruturas de produção de gás natural deixam antever um impacto prolongado nos preços do gás natural, mesmo que se restabeleça o tráfego marítimo no Estreito”, apesar de o preço dos futuros de gás natural terem reagido positivamente ao anúncio do cessar-fogo. Ainda com essa correção, “a queda observável para já é de apenas uma fração daquilo que subiu nas últimas semanas, pelo que não há ainda sinais objetivos de que a crise energética esteja perto de terminar“.
Do lado da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira reforça que os efeitos positivos poderão ser sentidos, de forma mais imediata, nos mercados financeiros, mas que “irão ainda demorar algum tempo a fazerem-se sentir no bolso das empresas e dos consumidores“. “Os custos sobem como um foguete, mas descem como uma pena”, sintetiza Luís Mira, defendendo medidas governamentais mais robustas para mitigar o impacto dos custos elevados.
Custos como os da energia e combustíveis, por exemplo, sobem como um foguete, mas baixam como uma pena.
O porta-voz da CAP critica ainda a falta de apoio às empresas em Portugal, comparando com a resposta mais célere de Espanha. Luís Mira afirma que o “aliviaria a situação das empresas seria a adoção, por parte do Governo, de um pacote agressivo de medidas para mitigar o aumento colossal dos custos“.
“A abertura de todas as vias de comércio internacionais são boas para a economia global e terão um efeito positivo em Portugal, mas precisam mais do que meras duas semanas para serem plenamente sentidas”, alerta o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal.
A instabilidade prolongada preocupa também setores específicos. Hélder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP), alerta que a destruição de infraestruturas energéticas e a incerteza nos mercados deverão traduzir-se numa “indefinição durante muitos meses quanto aos preços dos combustíveis e do gás”.
Numa altura em que Bruxelas aconselha os europeus a viajar menos, o setor automóvel antecipa uma redução do uso de veículos devido aos elevados custos dos combustíveis, ao mesmo tempo que se acelera a reflexão sobre alternativas energéticas.
Já a vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), Mafalda Trigo, afirma que os preços dos combustíveis deverá baixar na próxima semana, na sequência da forte descida do custo do petróleo na manhã desta quarta-feira, depois de Trump anunciar um cessar-fogo de duas semanas que inclui a suspensão de bombardeamentos, condicionada à reabertura do estreito pelo qual passava 20% do comércio mundial de crude antes dos ataques de 28 de fevereiro.
“Neste momento, [os combustíveis] já estão com uma previsão de baixa, mas ainda não temos valores. Se formos a ver os mercados internacionais, supõe-se que vai baixar”, disse ao ECO a vice-presidente da associação que reúne os postos de abastecimento. No entanto, alerta que “numa próxima semana nunca vai haver uma quebra assim tão significativa”, mas espera que possa ser “anulado o aumento da semana passada”.
Por seu lado, o porta-voz da Epcol — Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes, João Reis, é mais recuado nas previsões. Concede que “se a situação normalizar e o estreito abrir, a tendência [do preço dos combustíveis] será descer“. Contudo, “a manter-se assim [a situação], não creio que haja grande hipótese de descer”, prevê, frisando a instabilidade: “andamos aqui de hora a hora ao sabor do que dizem o senhor Trump e do que fazem os iranianos”.
Para este responsável, a ditar o futuro dos preços dos combustíveis estão sobretudo dois fatores: a abertura — ou não — do estreito de Ormuz e a dimensão dos danos nas infraestruturas do Médio Oriente, desde refinarias até pipelines e unidades de armazenamento. Uma vez que esta pode ser uma “arma política”, não crê se se saiba, para já, a verdadeira dimensão da destruição. “O que posso dizer é que vamos analisar. No fim da semana vamos avaliar isto. Neste momento é completamente absurdo dizer se [os preços dos combustíveis] vão subir ou descer“, atira.
Por sua vez, António Reis, presidente da Associação Nacional de Escolas de Condução (ANIECA), destaca que, embora o cessar-fogo esteja a contribuir para “acalmar os mercados e reduzir os preços do petróleo”, o impacto nas empresas será, para já, residual. No caso das escolas de condução, recorda que estas estão a “suportar um acréscimo de cerca de 60 cêntimos por litro, sem qualquer tipo de apoio e sem a possibilidade de ajustar os preços dos contratos em curso”.
“O eventual alívio no preço dos combustíveis terá, para já, um impacto muito limitado ou mesmo nulo”, refere o líder da Associação Nacional de Escolas de Condução.
Apesar de considerarem o cessar-fogo temporário uma evolução positiva, as associações empresariais sublinham que este é insuficiente para resolver os problemas estruturais provocados pelo conflito.
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