Irão também atinge tecnologia renovável com constrangimentos logísticos e custos aumentados
A cadeia de valor das renováveis também é afetada pelo conflito no Irão, apesar das recentes tréguas. Custos da tecnologia e problemas nas entregas são as principais ameaças.
“Os custos mais elevados de combustíveis, matérias-primas, seguros e fretes estão a aumentar os custos de produção e transporte em todo o sistema industrial, incluindo para painéis solares, baterias e componentes eólicos”, alertou a 12 de março Robert Muggah, fundador do Igarapé Institute, num artigo de opinião publicado no site do Fórum Económico Mundial.
“Até ao momento, as cadeias de produção e abastecimento têm demonstrado resiliência, sem disrupções relevantes, embora pressionadas pela atual situação geopolítica”, observa agora, em declarações ao ECO/Capital Verde, o CEO da Greenvolt. João Manso Neto conclui que o impacto daqui para a frente dependerá “da escala e duração do conflito, embora os sinais mais recentes de abrandamento das tensões apontem para uma tendência de estabilização dos preço”.
Ainda assim, concede que o contexto de guerra no Irão “veio introduzir alguma pressão adicional nos preços [de painéis solares, baterias e tecnologia eólica], sobretudo por via do aumento dos custos energéticos e logísticos, nomeadamente o transporte marítimo”.
[A guerra no Irão] veio introduzir alguma pressão adicional nos preços [de painéis solares, baterias e tecnologia eólica], sobretudo por via do aumento dos custos energéticos e logísticos, nomeadamente o transporte marítimo.
O líder da Greenvolt indica que a pressão nos preços destas tecnologias começou a tornar-se visível cerca de duas semanas após o início do conflito, acompanhando a evolução dos mercados energéticos e, em particular, do barril de petróleo. O preço do barril subiu mais de 60% em março, embora esta quarta-feira tenha chegado a aliviar 13%, com o anúncio de um acordo de tréguas entre os Estados Unidos e o Irão, o qual prevê a reabertura do Estreito de Ormuz durante pelo menos duas semanas.
“Neste momento, o principal risco identificado está associado a eventuais constrangimentos e atrasos logísticos”, considera o CEO, indicando que a Greenvolt tem um departamento dedicado a monitorizar continuamente os eventos, antecipar e ajustar, sempre que necessário, as decisões de aquisição.
De acordo com a Agência Internacional de Energia, a região do Golfo produz cerca de 8% da oferta global de alumínio, “que é utilizado em várias tecnologias de energia”. Luís Pinho, CEO da Helexia, indica que o Médio Oriente é “um nó relevante” no comércio de alumínio, do qual “a cadeia de valor do solar fotovoltaico depende fortemente”, e entende que “a Europa é particularmente exposta” a este risco por ser “fortemente importadora de módulos e componentes”.
“Naturalmente, o acordo de tréguas [entre Estados Unidos e Irão] altera de alguma forma tom e intensidade dos impactos [do conflito nas cadeias de valor da energia], mas não os invalida”, reflete Luís Pinho.
Na produção de tecnologia fotovoltaica, “o principal risco continua a ser o aumento de custos e os prazos de entrega”. Na visão deste gestor, a tendência de aumento de preços na cadeia, face ao acordo, “vai estabilizar um pouco, mas dificilmente vai ser revertida enquanto pesar incerteza geopolítica”.
“Após mínimos históricos em 2024 e 2025, os preços de módulos fotovoltaicos no mercado europeu começaram a subir no início de 2026”, indica o CEO da Helexia. Já entre fevereiro e março, “refletindo já custos logísticos mais elevados e ajustamentos na oferta”, índices de referência como o pvXchange mostram aumentos na ordem dos 6%.
Por seu lado, o engenheiro eletrotécnico Gonçalo Aguiar considera que “ainda é cedo para notar a subida de preços, porque os equipamentos painéis solares que são vendidos hoje em dia estão em stock”. Porém, nota aumentos no cobre, alumínio e outros metais e materiais importantes para construção dos mesmos.
Já João Nuno Serra, CEO da empresa de produção de energia solar Enforce, afirma que a empresa não está, de momento, a sentir o agravamento de preços. Remete antes para uma subida sentida no início do ano, provocada pelo anúncio do governo chinês da retirada de apoio ao IVA a fabricantes exportadores chineses de painéis, com efeito a partir de 1 de abril.
Manso Neto concorda que, no que toca a energia solar, o ciclo de preços já vinha a inverter antes do atual contexto, impulsionado sobretudo por ajustamentos na produção na China, mas também pelo aumento do custo de algumas matérias-primas. Gonçalo Aguiar recua ainda mais: é uma tendência que remonta ao rescaldo da guerra na Ucrânia.
O cenário mais provável no curto prazo é de custos mais elevados e atrasos pontuais.
No que diz respeito à tecnologia eólica, esta “é particularmente vulnerável” a choques em matérias-primas como o aço, cobre, alumínio, assim como a turbulência na logística, devido às dimensões e complexidade dos componentes, esclarece Luís Pinho. Assim, os “projetos offshore serão os mais expostos, dado o peso da logística no custo total”. É a subida dos custos de transporte marítimo, combustível e seguros cria pressão sobre o CAPEX de novos projetos, mas varia consoante contratos, níveis de stock e localização geográfica.
Já o “setor das baterias parte de uma posição mais robusta”, de um grande alívio recente nos preços, embora as baterias destinadas à Europa e à América do Norte sejam as mais sensíveis aos aumentos de fretes, seguros e energia, afirma Pinho. João Nuno Serra não antevê também qualquer subida, mas “talvez uma estagnação”.
Outro “aspeto crítico”, na ótica do engenheiro eletrotécnico Gonçalo Aguiar, será o custo da eletrónica no qual se apoiam as energias renováveis, caso exista uma disrupção nas cadeias de abastecimento de elementos chave para a produção de chips e circuitos. É por exemplo o caso do hélio, que é um subproduto da extração de gás natural.
Além disso, Aguiar vê como ameaçada outra categoria das renováveis, a biomassa, já que as centrais terão os custos de recolha, transporte e processamento da biomassa florestal impactados com o aumento dos preços de petróleo, se este aumento se tornar estrutural durante vários meses.
Luís Pinho vê também alguma exposição da eletrónica de potência – inversores e sistemas de controlo são sensíveis a custos de transporte e seguros, especialmente em cadeias globais mais e mais fragmentadas – e das próprias redes elétricas, pois cabos, transformadores e subestações “dependem fortemente” de cobre e alumínio. “Qualquer pressão nesses mercados afeta diretamente a modernização das redes, que é crítica para a integração de renováveis”, afirma.
O líder da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), Pedro Amaral Jorge, salienta ainda que o custo do investimento em tecnologia renovável pode sair prejudicado da guerra no Irão, caso esta se prolongue e leve a que a taxa diretora do Banco Central Europeu suba. Isto porque os projetos de renováveis são intensivos em capital, e o custo do capital pode subir.
O acordo de tréguas desta quarta-feira “reduz o risco de rutura imediata, mas o risco geopolítico mantém-se, e a incerteza vai continuar a pesar sobre as decisões”, afere Luís Pinho. Assim, “o cenário mais provável no curto prazo é de custos mais elevados e atrasos pontuais. Uma disrupção mais prolongada poderá traduzir-se ou obrigar a re-precificação de projetos e revisão dos calendários de comissionamento”, pontua.
Transição pode abrandar, mas evidencia-se como alternativa
No final de contas, Gonçalo Aguiar considera que “o setor das renováveis vai ter exposição limitada, e a subida dos custos será sempre inferior às alternativas diretamente expostas aos preços dos combustíveis fósseis”. E deduz que alguns projetos renováveis que tenham sido planeados em condições financeiras mais favoráveis perderão parte da sua viabilidade, o que “pode ser uma força de pressão negativa no ritmo de transição”.
"Portugal tendo condições climáticas favoráveis será um dos principais beneficiários desta situação.”
Contudo, simultaneamente, se “os preços de eletricidade aumentarem, devido ao aumento do preço do gás natural, poderá ser o sinal para muito consumo (industrial por exemplo) apostar em soluções de produção renovável para fazer derisking dos seus custos de produção”.
“Portugal tendo condições climáticas favoráveis será um dos principais beneficiários desta situação”, conclui.
Para João Manso Neto, “o atual enquadramento geopolítico, marcado por maior incerteza, pode atuar como um catalisador da procura por soluções descentralizadas”, e indica que as empresas procuram cada vez mais previsibilidade e controlo sobre os custos de energia, o que tende a reforçar o interesse por soluções de autoconsumo, tanto individual como coletivo.
Em paralelo, aguça o interesse por contratos de aquisição de energia (PPA, na sigla em inglês) no segmento de grandes projetos (utility–scale), “onde a previsibilidade de custos é cada vez mais relevante para a competitividade e o planeamento a longo prazo”.
Este conflito no Médio Oriente não trava a transição energética, mas pode torná-la mais cara, mais lenta e mais complexa de executar, sobretudo na Europa.
Na mesma linha, o CEO da Helexia entende que “este conflito no Médio Oriente não trava a transição energética, mas pode torná-la mais cara, mais lenta e mais complexa de executar, sobretudo na Europa”. Ao mesmo tempo, “torna-a também mais urgente e estrategicamente fundamental para reduzir a nossa dependência de outras regiões do globo”.
“Em Portugal, a aposta nas renováveis tem sido, aliás, um fator determinante para conter o aumento dos preços da eletricidade”, argumenta por fim Manso Neto. Pedro Amaral Jorge alinha: “Quanto menos renováveis tivermos no sistema, mais cara vai ser a eletricidade”.
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