Euro digital é importante para responder a “ameaça americana” das stablecoins

Economista Ricardo Reis não vê o euro digital a ter grande impacto no funcionamento dos bancos. Mas salienta a importância do projeto para a Europa manter a sua soberania financeira e monetária.

O economista Ricardo Reis considera que o euro digital não será assim tão relevante para o funcionamento dos bancos, mas vai ser muito importante para a Europa manter a sua soberania financeira e monetária, a qual se encontra “ameaçada” pelas stablecoins privadas com base em dólar.

“Em relação ao euro digital, é importante, mas é preciso notar que não será extremamente relevante para o funcionamento dos bancos”, começou por dizer o professor da London School of Economics no encontro Fora da Caixa, organizado pela Caixa Geral de Depósitos (CGD).

“Os bancos terão de se ajustar na questão do sistema de pagamentos, que já é bastante eficiente na Europa, e para uma possível maior fluidez dos depósitos, mas não me parece que, e até pelo atraso que tem tido o processo do euro digital, que a sua introdução vá mudar de uma forma particularmente radical o que é relacionamento dos bancos com os seus diferentes stakeholders”, acrescentou antes de salientar a importância do projeto no sistema financeiro europeu com um todo, “mas mais para manter como está”.

Para Ricardo Reis, isto tem a ver com “a ameaça das stablecoins” que estão a surgir nos EUA.

“Havendo uma stablecoin baseada no dólar, que torna as transações relativamente eficientes e rápidas fora dos EUA, temos todo um potencial para o dólar começar a ser mais usado fora de fronteiras, nem que não seja pelo grande lado da economia que vive um pouco à margem da lei, se quiser”, explicou.

Em concreto, detalhou, há uma grande procura por anonimidade. “E era isso que hoje em dia na nossa economia digital só o papel oferece. E é isso que as stablecoins oferecem potencialmente a muitas pessoas pelo mundo fora”.

O economista refere que “seria gravíssimo que na Europa não respondêssemos com a isso com o euro digital”, pois há procura que existe para isso e porque, caso contrário, “deixaria que o dólar, de facto, conquistasse a nossa soberania monetária”

“O euro digital chegará ao ponto, no entanto, de poder ser usado na Venezuela ou no Irão? Os planos de momento do BCE não são assim tão ambiciosos, mas, pelo menos na Europa, é importante manter essa soberania financeira e monetária. Nem que não seja em resposta a essa ameaça americana”, sublinhou Ricardo Reis.

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