Irão. “Empresas não podem subir preços tão facilmente como fizeram em 2022”, diz economista-chefe da Coface
Economista-chefe da Coface antecipa que se a guerra se prolongar este mês, BCE vai subir juros na reunião de junho e alerta que conflito poderá ter impacto mais duradouro na produção de petróleo.
A escalada dos preços da energia, provocada pelo conflito no Médio Oriente, já está a refletir-se na subida da taxa de inflação, que acelerou, em março, para 2,5% na Zona Euro, e deverá levar o Banco Central Europeu (BCE) a subir juros no encontro de junho, caso a guerra dure mais este mês, antecipa o economista-chefe da Coface. Apesar do recente cessar-fogo, a situação continua precária e incerta. Para Bruno de Moura Fernandes, apesar da pressão nos preços, que poderá revelar-se mais duradoura, as empresas não terão a mesma facilidade que tiveram em 2022 para passar a fatura para os consumidores.
“É difícil saber realmente o que vai acontecer com o conflito”, realça Bruno de Moura Fernandes, notando que quanto mais durar o conflito, “mais os impactos também vão ser duradouros”. O responsável acredita que além dos preços da energia, que já estão mais altos, vai haver uma “contaminação para o resto dos preços”. “A inflação subjacente vai subir e depois vamos ter um impacto também na atividade [económica] “, explica.
Com os preços do petróleo a negociarem acima dos 100 dólares por barril e alguns analistas a anteciparem que possam escalar até aos 200 dólares, Bruno de Moura Fernandes refere que “não vamos voltar à normalidade e basicamente os mercados estão a dizer isso, já não é só um impacto totalmente temporário e vai ser duradouro porque vai faltar mercado — problemas no Estreito de Ormuz retiraram 11 milhões de barris diários da oferta global — , vai faltar petróleo no mercado também a longo prazo ou pelo menos a médio prazo”, devido aos danos causados em infraestruturas energéticas.
Falando antes do anúncio do atual cessar-fogo, o economista-chefe da seguradora de crédito avisava que os efeitos do conflito vão depender de quanto este durar, seja em termos de impacto na economia, seja nos juros. Certa parece uma mudança na política de taxas de juro do BCE nos próximos meses, com impacto direto no rendimento das famílias e na economia.
“Se o conflito durar além de abril, no mês de junho, o Banco Central Europeu vai subir as taxas de juros”, antecipa o responsável. Sobre a reunião de abril “ainda não sabemos”, mas sabemos que “quanto mais o conflito dura, mais vamos ter uma inflação que vai durar e mais vamos ter também probabilidade de uma política monetária mais restritiva que vai ter impacto no custo de financiamento, no consumo das famílias, no investimento das empresas e na atividade em geral”, atira.
Quanto mais [o conflito] dura mais vamos ter uma inflação duradoura e maior também a probabilidade de uma política monetária mais restritiva, que vai ter impacto no custo de financiamento, no consumo das famílias, no investimento das empresas e na atividade em geral.
Bruno de Moura Fernandes destaca que a “situação está longe de 2022“, quando a inflação disparou. “Para já os preços do gás estão muito longe desses níveis. O preço do petróleo está mais perto, obviamente, mas o gás está muito longe e é um fator muito importante, porque é o fator que explica o preço da eletricidade”.
O economista-chefe nota ainda que “durante a pandemia houve muitas ajudas dos governos para as empresas e famílias. As famílias em 2021, quando acabou a a pandemia, podiam e tinham muito rendimento, podiam gastar mais. Esse poder de compra explica porque as empresas puderam, naquele momento, subir os preços. Agora não estamos nessa situação“.
As famílias em 2021, quando acabou a a pandemia, podiam e tinham muito rendimento, podiam gastar mais. Esse poder de compra explica porque as empresas puderam naquele momento subir os preços. Agora não estamos nessa situação.
A taxa de poupança, diz, “não é tão alta como naquele momento”. “A procura ou as tensões do lado da procura não são tão altos como em 2022, ou ou em 2021. Empresas não podem subir preços tão facilmente”, alerta, lembrando que, “naquele momento os preços já estavam a subir a final de 2021 só por pressões do lado da procura e da oferta, porque já tínhamos dificuldades na cadeia de abastecimento pelo arranque muito forte da procura ao acabar a pandemia. Neste momento não estamos a ter isso”.
“Esses fatores explicam o porquê se calhar a inflação não vai subir tanto como subiu naquele momento”, conclui. Além disso, no mercado laboral, “as taxas de emprego não estão tão baixas como naquele momento”, quando “havia muitas tensões só para poder contratar novos trabalhadores” que não estão a existir agora. “Já estávamos a ver um abrandamento da economia, já estamos a ver um aumento leve, mas um aumento da taxa de desemprego“, justifica.
Perante esta situação, Bruno de Moura Fernandes prevê que as “empresas não vão contratar, não vão lançar os novos projetos“, congelando investimentos, adotando uma postura de esperar para ver. Mesmo após o anúncio do cessar-fogo, e num momento em que as partes se sentam à mesa para negociar, continuam as ameaças de parte a parte.
Subida de juros pressiona rendimento
O responsável destaca que, para já, o principal impacto da guerra na Europa é nos preços da energia, “mas também já temos os preços do alumínio que subiram, também os preços de muitos fertilizantes e que subiram”, detalha. No caso de Portugal, apesar de não estar “diretamente exposto aos produtos dos países do Golfo”, destaca que “é tudo uma cadeia de produção e de abastecimento e em que os produtos dessa região depois entram nos produtos, ou seja, do norte da África ou da Ásia, que depois entram na Europa e que são importantes, como petroquímicos, por exemplo”.
Assim, o efeito na economia nacional, explica, será sentido ao nível dos preços, que podem subir e levar a mais inflação, “que depois vai levar a menor rendimento das famílias, que era o motor principal da economia“. O economista-chefe da Coface lembra que os indicadores de confiança das famílias baixaram muito, com as pessoas a anteciparem mais inflação.
“O banco central vai ter que subir as taxas de juros e isso é o impacto maior sobre a economia portuguesa. O investimento das empresas também pode ter o impacto, porque os preços vão subir e algumas margens de lucro podem sofrer, ainda mais em setores que dependem da energia”, refere o especialista.
Para já, a Coface antecipa um crescimento da economia nacional de 2% em 2026, mas a seguradora reconhece que a guerra vai ter impacto na atividade. “Estamos à espera dos números do primeiro trimestre. Há muita incerteza sobre o impacto que vai ter realmente“, assume.
Exportações ainda podem crescer
Sobre o comércio internacional e a realização de acordos comerciais fechados por Bruxelas com outras regiões — Índia, Mercosul e Austrália — , Bruno de Moura Fernandes destaca que “é um sinal importante e positivo para o resto do mundo, mostrar que a Europa pode continuar e que está aberta quando países como os Estados Unidos estão a fechar-se”. “A Europa quer mostrar que estamos dispostos a uma terceira via”, mas “o mercado americano dos EUA é um mercado muito difícil de compensar“.
O economista-chefe reconhece que “a médio prazo há algum potencial” com estes acordos, mas a Europa terá a concorrência chinesa nestes mercados. “A China está à procura de outros mercados para compensar aquela perda de mercado nos Estados Unidos, estão a quase inundar os mercados asiáticos e também subiram muito na América Latina”, aponta. “A concorrência da China vai ser ainda muito forte nos próximos anos”.
Quanto a Portugal, Bruno de Moura Fernandes acredita que “as exportações portuguesas ainda vão crescer, porque a não ser que a guerra dure tanto tempo, o nosso vizinho vai crescer ainda mais de 2%”, refere, lembrando que “Portugal sobretudo exporta para o resto da Europa”.
Quanto à Alemanha, outro importante parceiro comercial, o responsável destaca que vai “recuperar graças ao seu investimento público e as despesas todas nas infraestruturas e no gasto militar”. Quanto a outros importantes mercados europeus, Bruno de Moura Fernandes avisa que se a guerra voltar e “durar mais tempo, então sim, vamos ter uma estagnação em França”.
“Não podemos perder de vista sempre que o mercado principal para nós é a Europa e se tivermos um crescimento sólido em Espanha e uma recuperação na Alemanha”, isso terá um efeito positivo nas exportações nacionais, remata.
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