No ‘stopover’ entre reestruturação e venda (parcial), TAP apresenta-se com o pior lucro de quatro anos

A companhia aérea fecha o período pós-pandemia e entra na privatização com o lucro mais baixo no ciclo. Margem EBITDA continua volátil, mas melhorou em 2025.

O ano passado trouxe dois marcos na história da TAP, um dos quais foi sublinhado pelo CEO Luís Rodrigues na comunicação dos resultados esta quinta-feira, enquanto o outro ficou de fora, até porque o processo de privatização que começou em 2025 e deverá ser concluído em 2026 é da competência do acionista único — o Estado.

“Este ano assinalou igualmente um marco importante para a TAP, com a Comissão Europeia a reconhecer a conclusão dos compromissos operacionais e financeiros previstos no Plano de Reestruturação aprovado pela União Europeia, confirmando a transformação bem-sucedida da companhia, e a sua capacidade para assegurar viabilidade a longo prazo e um crescimento equilibrado”, referiu Rodrigues, citado no comunicado.

O CEO não referiu o processo de venda de até 49,9% da TAP que o Governo iniciou em 2025 e que ainda este mês teve mais uma etapa, com a submissão de propostas não-vinculativas por parte de dois grupos — o alemão Lufthansa e o franco-neerlandês Air France-KLM —, com o britânico-espanhol IAG a desistir do interesse principalmente por ser uma venda de uma posição apenas minoritária.

Apesar da omissão da referência, os resultados apresentados pela TAP em 2025 vão ser principalmente analisados da perspetiva dessa privatização. A companhia aérea portuguesa registou um tombo de 92% no lucro líquido no ano passado, com o efeito extraordinário de atualização de IRC e o aumento dos custos num momento de incerteza no setor a sobreporem-se à subida das receitas operacionais. Sem esse efeito extraordinário fiscal — decorrente da reavaliação dos ativos por impostos diferidos após a redução progressiva da taxa de IRC introduzida pela Lei n.º 64/2025, explicou a empresa — o lucro líquido teria sido de 46 milhões de euros.

Ainda assim, o CEO, Luís Rodrigues, destacou os aspetos positivos do desempenho da empresa. “Em 2025, a TAP apresentou resultados sólidos, suportados por uma procura resiliente de passagens em toda a rede, principalmente na segunda metade do ano, e por um contributo relevante do negócio de Manutenção, que continuou a reforçar o seu peso nas receitas totais”, escreveu.

“Este desempenho suportou um resultado líquido positivo pelo quarto ano consecutivo“, vincou Rodrigues. A sequência seguida de lucros mostra uma viragem depois do drama da pandemia, mas numa altura de intenso olhar sobre o valor empresa com uma privatização em curso, é útil olhar para esse histórico de retornos em maior detalhe.

O resultado foi positivo, como explicou o CEO, o quarto seguido, mas também foi, no entanto, o pior do período.

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O ano de viragem foi 2022, com o fim de um longo ciclo de prejuízos, que atingiram os 1.600 milhões no ano anterior, devido ao impacto da pandemia. Perdas que levaram ao resgate da companhia com a injeção de 3,2 mil milhões em ajudas de Estado e à aplicação de um plano de reestruturação, com milhares de despedimentos e cortes nos salários. A recuperação do resultados pós-pandemia continuou em 2023, com a companhia aérea a registar os lucros mais altos de sempre nos 177,3 milhões e com Luís Rodrigues a sublinhar também o recorde de receitas, que ultrapassaram a marca dos 4 mil milhões de euros.

A curva ascendente iria reverter, contudo, em 2024, com uma queda de 70% nos lucros para 53,7 milhões, penalizado por perdas cambiais e provisões para fazer face à decisão do Supremo Tribunal de Justiça relativa à reclassificação de tripulantes de cabine. O ano até estava correr bem, com um resultado líquido de 118,2 milhões nos primeiros nove meses, mas as contas foram pressionadas pelo prejuízo de 64,5 milhões de euros no último trimestre, que a TAP atribuiu à provisão extraordinária constituída “após a 11 de dezembro de 2024 ter sido proferido um acórdão uniformizador de jurisprudência pelo Supremo Tribunal de Justiça relativo à reclassificação de tripulantes de cabine na sequência da nulidade do termo do contrato”.

Contexto desafiante

A TAP acrescentou que registou um EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) recorrente de 742,9 milhões de euros, com uma margem de 17,2%, e um EBIT recorrente de 243,4 milhões (margem de 5,6%), “num ano marcado por um primeiro trimestre particularmente desafiante”.

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Ao nível desta rubrica, a viragem foi também em 2022, com um EBITDA de 778 milhões a disparar face aos 12 milhões do ano anterior e até a ultrapassar em 22% os 528 milhões de 2019, o ano antes da pandemia. Em 2023 a subida foi de 15% para 873 milhões de euros, mas no ano seguinte a tendência estagnou, com o EBITDA a ficar praticamente inalterado nos 875 milhões e inverteu em 2025 com uma descida para o nível mais baixo do período.

Luís Rodrigues sublinhou esta quinta-feira que “apesar de um contexto desafiante, marcado por pressões inflacionárias nos custos e por constrangimentos nas cadeias de abastecimento e operacionais significativos em toda a indústria, a TAP manteve margens resilientes e reforçou a posição financeira da companhia”.

A margem EBITDA recorrente é um dos parâmetros de análise pelos potenciais compradores da TAP, e neste campo a empresa tem conseguido manter os números entre 15% e 22%, com destaque para a recuperação para 17% no ano passado, apesar de um primeiro trimestre particularmente desafiante.

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Para 2026, a TAP prevê “crescimento disciplinado e sustentável, suportado pela expansão e modernização da frota com aeronaves Airbus NEO, reforçando eficiência operacional e sustentabilidade”.

Sem se referir diretamente aos impactos da guerra no Médio Oriente, o CEO referiu que a TAP prevê que “a evolução dos preços do combustível deverá ser parcialmente mitigada por ajustamentos de pricing alinhados com as tendências de mercado, mantendo-se o foco nos principais mercados e na qualidade da receita”.

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