Dívida de 23 milhões ‘queima’ café da Azambuja com 50% de exposição à banca
Liderada por Ricardo Flores, produtora de cápsulas de café Mocoffee negoceia reestruturação do passivo com os credores. Plano pressupõe injeção imediata de três milhões por parte de novo investidor.
- A Mocoffee, com uma fábrica na Azambuja, iniciou um Processo Especial de Revitalização devido a dificuldades financeiras, com uma dívida total de 23,4 milhões de euros.
- Os principais credores da empresa incluem o BCP e a Caixa Geral de Depósitos, ambos com créditos de 2,7 milhões de euros, refletindo a exposição significativa da banca.
- A empresa precisa de um novo investidor que aporte, pelo menos, três milhões de euros para estabilizar as suas operações e evitar incumprimentos.
Com uma fábrica na Zona Industrial da Azambuja dimensionada para produzir 350 milhões de cápsulas de café por ano, a Mocoffee avançou com um Processo Especial de Revitalização (PER), um mecanismo jurídico que permite a empresas em dificuldade financeira ou insolvência iminente negociar com os credores para evitar a falência.
De acordo com a lista provisória de credores elaborada pelo administrador judicial nomeado pelo tribunal, Jorge Calvete, publicada a 19 de março, com a banca exposta a metade do valor, ascende a 23,4 milhões de euros a dívida total da empresa liderada por Ricardo Flores, que é o maior acionista (27% a título individual) e que tem a família brasileira Opitz como principal sócia.
Vários bancos estão entre os principais credores da Mocoffee, que tem sede em Portugal e subsidiárias no Reino Unido e no Brasil, onde estava a construir uma unidade industrial. À cabeça surgem BCP e Caixa Geral de Depósitos – ambos com créditos de 2,7 milhões de euros –, seguidos do Montepio (2 milhões), Crédito Agrícola (1,5 milhões) e Bankinter (461 mil euros).
Na lista surgem ainda o Banco do Brasil (345 mil euros) ou o Santander Totta (227 mil euros) e sociedades financeiras como o Crédit Agricole Leasing & Factoring (661 mil euros) e a Grenke Renting (555 mil euros), assim como a consultora KPMG (372 mil euros). As dívidas reclamadas pelo Estado têm valores inferiores: quase 200 mil euros à Segurança Social e 185 mil euros ao Fisco.

A empresa que compra, torra, mói e coloca o café dentro de cápsulas – exporta 90% para clientes que distribuam com a sua própria marca –, apresentou no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte “manifestações de vontade de negociações para revitalização” por parte do BCP e da sociedade Iniciativas Comerciales Navarra, uma trading de matérias-primas que tinha requerido a insolvência em junho de 2025.
Segundo um despacho judicial a que o ECO teve acesso, no plano de recuperação, correspondente à reestruturação do passivo, “antevê que será necessária a entrada de um novo investidor, que conceda um novo financiamento, através da entrada de dinheiro novo até ao montante estimado de, pelo menos, três milhões de euros”, destinado a “cobrir necessidade de fundo de maneio imediatas e a estabilizar a operação diária da empresa”.
“A Mocoffee encontra-se a negociar soluções de financiamento que lhe permitam fazer face às suas necessidades de tesouraria de curto e médio prazo”, adianta ainda, reiterando que “a obtenção de um novo financiamento é essencial, no imediato, para permitir estabilizar a empresa, mantendo a sua atividade, e criar condições que lhe permitam executar o plano de reestruturação proposto”.
Sem a obtenção de um novo financiamento, a Mocoffee poderá não conseguir fazer face a todas as suas despesas correntes, correndo o risco de entrar numa situação de incumprimento generalizado das suas obrigações.
Sem a obtenção deste dinheiro fresco, acrescenta no mesmo documento, a fábrica que emprega mais de 30 pessoas e exporta para as suíças Delizio e Oswald, a francesa Cafés Richard, a australiana Vittoria Coffee ou a indonésia Kapal Api “poderá não conseguir fazer face a todas as suas despesas correntes, correndo o risco de entrar numa situação de incumprimento generalizado das suas obrigações”.
Este despacho, com data de 20 de fevereiro, “obsta à instauração de quaisquer ações executivas contra a devedora para cobrança de créditos durante um período máximo de quatro meses, e suspende, durante o mesmo período, as ações em curso com idêntica finalidade”, à exceção daquelas que visam a “cobrança de créditos emergentes de contrato de trabalho, ou da sua violação ou cessação”.
Em dezembro, o Banco Montepio tinha avançado com quatro várias ações de execução no valor agregado de quase 1,7 milhões de euros contra a empresa comandada por Ricardo Flores, que não respondeu ao pedido de contacto do ECO. Também o Bankinter avançou com uma iniciativa semelhante já no arranque deste ano no valor de 460 mil euros.
Da Delta brasileira à fábrica montada na pandemia
As origens da sociedade Mocoffee Europe SA, que em 2024 faturou 13,23 milhões de euros e registou lucros de 1,3 milhões, segundo a documentação consultada pelo ECO, remontam ao negócio fundado há 35 anos pelo inventor da cápsula monodose de café e primeiro CEO da Nespresso.
Como veio parar às mãos de um português esta empresa com ADN suíço, criada com o nome de Monodor por Eric Favre, que revolucionou a maneira como hoje se bebe café em todo o mundo? Tudo começou no Brasil, para onde Ricardo Flores se mudou em 2008 para, nessa altura, abrir o primeiro escritório direto da Delta Q do outro lado do Atlântico.

Em 2011 foi recrutado como diretor de marketing e vendas pela Wine, então um startup brasileira de e-commerce de vinhos, que, volvidos três anos, já com 400 funcionários e “alguma dimensão”, decidiu adquirir outros negócios. Começou por comprar duas empresas de cerveja artesanal e foi à procura de uma empresa de café. Nessa altura, a pensar na reforma, Eric Favre tinha colocado a Mocoffee à venda e em dezembro de 2014 completou-se a transação. Inicialmente, a maioria do capital foi comprada pela Wine e Ricardo Flores ficou com uma participação de 10%.
“A empresa tinha um gestor suíço, a sede estava em Zurique e era basicamente uma empresa de desenvolvimento de patentes e de compra e venda de produto. Tinha uma fábrica parceira em Itália, onde produzia, e depois distribuía no mercado suíço e francês. Até que em 2015 houve a crise com a saída da Dilma e a Wine decidiu vender todos os negócios que não eram vinho porque tudo era importado, o dólar descolou do real e era preciso realizar capital para aumentar fluxo de caixa”, recordou o gestor, numa entrevista ao ECO em maio de 2024.
Foi então que decidiu comprar a maioria do capital da Mocoffee através de um Management Buy Out (MBO) e, com o apoio de outro investidor, finalizou o programa de compra em setembro de 2018. Dois anos antes já tinha aberto um escritório de backoffice em Lisboa, onde colocou as funções de apoio logístico, informática e financeiras que estavam na Suíça. Já com a posição de controlo, decidiu trazer a empresa toda para Portugal, à exceção da parte comercial, que continuou em território helvético, e montar também uma fábrica em Portugal.
Ocupando uma área total de 4.050 metros quadrados que, além da produção, inclui os departamentos de investigação, logística e comercial, a unidade industrial localizada na Azambuja (distrito de Lisboa) entrou em funcionamento em agosto de 2022 e a partir de outubro de 2023 passou a concentrar a totalidade da produção da empresa.
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