Fosun espreita mais-valia de 2,4 mil milhões com BCP (sem dividendos)
Grupo chinês investiu cerca de 700 milhões de euros em dez anos no BCP. Pode estar agora de saída com uma mais-valia na bolsa na ordem dos 2,4 mil milhões – mais 260 milhões em dividendos.
A Fosun poderá obter um encaixe de 2,4 mil milhões de euros em mais-valias com o investimento de uma década em ações do BCP BCP 0,64% , de acordo com os cálculos do ECO. E isto sem contabilizar dividendos.
O conglomerado chinês está a avaliar as opções para sair do capital do banco português, segundo o jornal Expresso, e já terá contratado assessores para sondar o apetite do mercado por uma participação que ronda os 20,45%. Sem uma proposta interessante, a Fosun prefere manter a posição no BCP por causa dos dividendos, frisou ainda o jornal.
A preços de mercado, essa posição está atualmente avaliada em cerca de 2,7 mil milhões de euros. As ações do banco liderado por Miguel Maya têm vindo a escalar ano após ano desde a pandemia, quando chegou a valer menos de 10 cêntimos. Fechou a sessão da passada sexta a cotar perto dos 90 cêntimos, ou seja, nove vezes mais no espaço de cerca de cinco anos.
Mas a Fosun chegou a ter perto de 30% do BCP em finais de 2023. Foi nesse período que começou o desinvestimento, tendo vendido um bloco correspondente a 10% das ações e que permitiu um encaixe de 430 milhões de euros – no que foi visto como o pontapé de saída dos chineses da estrutura de capital no banco português num esforço para conter a pressão de uma dívida elevada.
Na prática, isto significa que o conglomerado chinês – que em Portugal detém ainda a Fidelidade – poderá receber 3,1 mil milhões de euros com a venda de ações do BCP, se somarmos as operações realizadas há dois anos com esta que poderá estar agora em cima da mesa. Fonte oficial da Fosun disse ao Expresso que mantém um compromisso de longo prazo no mercado nacional.
Mais de 700 milhões investidos
A Fosun entrou no capital do BCP em novembro de 2016, numa altura delicada e em que o banco ainda estava a pagar a ajuda de mil milhões de euros pedida ao Estado no período da troika através dos chamados CoCo’s (obrigações contingentes). Logo aí os chineses injetaram 175 milhões de euros a troco de uma participação de 16,67%.
Três meses depois, em janeiro de 2017, em novo aumento de capital, investiram mais 374 milhões de euros e reforçaram a sua posição para perto de 24%. Não ficou por aqui.
No final de 2021, o grupo chinês já detinha 29,95%. Em cerca de cinco anos, terá gastado perto de 170 milhões de euros na aquisição de ações do banco, aproveitando o facto de estarem a cotar a preços deprimidos, como aconteceu durante a pandemia, em que chegou a negociar abaixo dos 10 cêntimos. Para esta contabilização tivemos em conta a posição da Fosun a cada semestre (que é divulgada no site do BCP) e o preço médio das ações no referido período.
Tudo somado, a Fosun terá investido pouco mais de 700 milhões de euros no BCP. E agora pode estar de saída com um ‘lucro’ de 2,4 mil milhões com a venda de ações – mais cerca de 260 milhões em dividendos.
E agora?
Há muito que se fala da possível saída da Fosun (e também da Sonangol, que detém quase 20%) do capital do BCP. Notícias com as quais o CEO, Miguel Maya, tem convivido com relativa tranquilidade porque o banco está hoje numa “posição sólida”.
“Na medida em que o banco tem uma situação sólida, o normal era ver o BCP a evoluir como os grandes bancos europeus e norte-americanos, em termos de free float: nós temos 60% e grandes bancos têm um free float nos 90% ou mais”, afirmou o gestor na sequência da redução da Fosun. Nessa altura, o ‘vazio’ deixado pelos chineses foi ocupado por investidores americanos e britânicos.
Essa é uma realidade, como refere Miguel Maya, com a qual a banca europeia já convive há muito, em que a maioria das instituições financeiras apresentava estruturas acionistas em que cerca de 90% do capital ou mais estava disperso em bolsa. O BCP pode juntar-se à lista.
O banco espera alcançar lucros acima dos mil milhões de euros nos próximos anos. E a cereja no topo do bolo para os investidores: está com uma política de remuneração acionista ambiciosa. Este ano vai entregar 90% do resultado em dividendos (50%) e em recompra de ações (40%). Como Maya disse uma vez: quer ter acionistas “satisfeitos” pois é a melhor forma de proteger o banco.
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