Manuel Tarré: “A vida que eu tenho nem sequer nos meus sonhos pensei ter”

  • ECO
  • 13 Abril 2026

Começou o seu percurso a vender roupa, mas acabou a vender peixe. Hoje, Manuel Tarré é presidente da Gelpeixe e conta como encontrou a sua oportunidade profissional nos desafios do negócio da família.

Manuel Tarré, presidente da Gelpeixe, é o 73º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Cresceu a acompanhar os negócios dos pais, que durante muitos anos se dedicaram à venda de tecidos e acessórios para vestuário, mas acabou por herdar esse legado numa área completamente diferente: a indústria alimentar.

Eu cresci atrás de um balcão. Os meus pais tinham uma loja de roupas, em Loures, onde vendíamos tecido a metro, fechos éclair e tudo o que era acessório. O meu pai era muito hábil no negócio e passou-me esse feeling de entender o que é que o mercado podia precisar e de criar a necessidade nas pessoas. Portanto, a minha identidade está muito ligada aos negócios”, começou por dizer.

Essa capacidade de se inovarem e de responderem ao mercado refletiu-se no negócio familiar, que acabou por se transformar ao longo dos anos: “Nós começamos a vender fazendas e depois passamos a vender chapéus para os homens, chapéus-de-chuva, botas de borracha, acompanhando as necessidades que a região tinha. E depois veio outra possibilidade, que foi vendermos máquinas de costura para as modistas”.

Das máquinas de costura passaram aos eletrodomésticos, “com a venda de fogões a gás em vez de fogões a carvão, de ferros elétricos em vez de ferros a carvão, e de panelas de pressão”. “Depois veio aquilo que está na origem da Gelpeixe, nomeadamente os frigoríficos e, mais tarde, os congeladores. E foi aí a chave que fez o clique para aquilo que somos hoje“, contou.

A verdadeira mudança aconteceu quando o pai de Manuel Tarré aproveitou a rota de distribuição que já fazia para entregar roupa, chapéus e botas de borracha, para vender arcas frigoríficas a esses mesmos clientes: “O grande clique foi fazer com que as pessoas desses pontos, mesmo que estivessem ligadas a outros ramos de atividade, aceitassem colocar uma arca frigorífica nos seus estabelecimentos, que seriam pagas em letras. A proposta era ficarem com a arca e nós levarmos peixe congelado e gelados”.

Nós vendíamos a arca, que era o nosso negócio, e atrás disso vinha um contacto com a Gelmar para distribuir o peixe, e um contacto com a Olá para vender os gelados. O negócio que isso viria a dar para o cliente era o suficiente para ele poder pagar a letra das arcas no final do mês. Era um custo de praticamente zero para o cliente”, continuou.

No entanto, alguns dos clientes encomendavam “tão pouco” que ambos os fornecedores acabavam por não fazer as entregas. “Tínhamos os clientes a reclamar e a dizer que o meu pai lhes tinha vendido a arca, mas não tinham nada para pôr lá dentro. Foi aí que vimos a oportunidade. Numa fase inicial, para tapar as necessidades e cumprir a palavra do meu pai, íamos buscar o peixe à Gelmar e os gelados à Olá, e entregávamos ao cliente. Inicialmente, sem lucro. Só que viu-se a oportunidade de criarmos uma dinâmica diferente“, disse.

A oportunidade consistia em comprarem o peixe, embalá-lo e distribuí-lo: “Era uma nova rota, que obrigava a dizer adeus à parte do passado, que eram as roupas”. E, além das roupas, esta decisão também obrigou Manuel Tarré a deixar para trás os seis anos de carreira militar na força aérea para se dedicar a 100% ao negócio da Gelpeixe, juntamente com o pai e o irmão.

“Começamos os três sozinhos e eu tirei a carta de pesados para poder ir carregar o peixe a Aveiro, ao Porto e à Gafanha da Nazaré. Numa primeira fase, começamos a vender na nossa região. Depois já vínhamos a Lisboa, mas até criarmos reconhecimento e confiança junto do consumidor demorou algum tempo“, acrescentou.

Essa demora justifica-se, sobretudo, pela desconfiança do cliente relativamente à capacidade de conservação dos produtos alimentares em gelo. Até então, guardavam-se os alimentos em sal ou em conservas e desconheciam-se outras formas de os preservar: “O conceito do congelado era de tal forma prático que começou a causar dúvidas. Por isso, convencer as pessoas a comer congelados demorou algum tempo“.

Contudo, passadas algumas “décadas”, o conceito dos produtos congelados consolidou-se e a confiança gerada nos consumidores foi tal que levou a um crescimento exponencial da Gelpeixe. Hoje, a empresa fatura mais de 65 milhões de euros e conta com 183 funcionários, entre eles os dois filhos de Manuel Tarré, que acabaram por também se juntar ao negócio da família. “E uma coisa que realmente me dá muita satisfação é que os meus filhos estão no projeto por sua vontade. Nenhum foi forçado”, afirmou.

Apesar do orgulho que sente em ter os seus filhos consigo, o presidente da Gelpeixe também reconheceu a importância de “dar carta branca a outras pessoas responsáveis por gerir alguns departamentos”: “Se temos uma pessoa que está encarregue de uma área da empresa, essa pessoa tem de ter livre arbítrio para tomar decisões. E posso dizer que, na maior parte das vezes, não sou eu que deixo de dormir, são eles. Porque sentem a empresa como deles“.

“Talvez uma das coisas que mais me orgulha é o facto de termos ganho duas vezes a distinção de melhor PME para trabalhar em Portugal. E isso é realmente o nosso cartão de visita. Nós vendemos produto, mas a parte social, o envolvimento com as pessoas, o entrar na empresa e ver a felicidade que todos têm lá dentro, é algo que está no nosso ADN“, partilhou.

Esta importância dada à partilha, à entreajuda e ao lado social reflete-se também na Associação do Peixe Congelado e do Fresco, da qual é presidente há 33 anos, mas também na Associação Duarte Tarré, criada em homenagem ao filho falecido de Manuel Tarré: “Hoje ajudámos miúdos com dificuldades financeiras no ensino superior e cada bolseiro tem um padrinho ou uma madrinha. Essa ajuda e esse sentimento de partilha ao ficarmos felizes por fazermos os outros felizes, ligados à perda de um filho, que era o meu, é algo de uma outra dimensão“.

“A vida que eu tenho nem sequer nos meus sonhos pensei ter. Tirando a perda do meu filho, todo o resto tem sido um percurso que me deixa muito feliz. E tenho de ficar feliz, sobretudo, pelos valores que vou passando a todos aqueles que estão à minha volta e que acreditam. Aqueles a quem nós damos um abraço ou um aperto de mão e sabemos estarem debaixo do mesmo compromisso. Não se trata de ter mais coisas, trata-se de tocar o coração“, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

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