Ormuz: Bloqueio dos Estados Unidos complica ainda mais os seguros

Agora, quem cumprir com um lado incumpre com o outro contendor. Para armadores e seguradores os riscos de guerra vão continuar elevados e as coberturas estão cada vez mais difíceis de definir.

A ordem de Trump para que a Marinha dos EUA apreenda qualquer navio que tenha pago taxas de trânsito ao Irão introduziu uma nova categoria de risco nas cláusulas existentes das apólices marítimas de guerra. Uma apreensão por uma nação beligerante a atuar sob uma alegada autoridade legal situa-se numa zona cinzenta entre risco de guerra e confiscação governamental — sendo que esta última é normalmente excluída das apólices padrão de casco e guerra marítima.

Os seguradores, que até agora têm marcado o preço do risco de trânsito sobretudo com base na ação militar iraniana, enfrentam agora um cenário em que navios que cumpram as exigências iranianas podem ser apreendidos pelas forças americanas, enquanto navios que tentem cumprir as exigências americanas podem ser alvo do Irão. Para alguns navios já no estreito, os dois conjuntos de obrigações podem ser potencialmente irreconciliáveis.

Regularização pode demorar mesmo depois do conflito terminado

O cessar-fogo de duas semanas anunciado no conflito entre EUA, Israel e Irão dificilmente trará alívio imediato aos exportadores. Os custos de transporte marítimo e os prémios de seguros deverão manter-se elevados, com o Golfo Pérsico a continuar classificado como zona de “alto risco” pelas seguradoras.

O Daytona Beach foi o primeiro navio a atravessar o estreito de Ormuz após o anúncio de cessar-fogo. Com bandeira liberiana, partiu do porto iraniano de Bandar Abbas.

Stale Hansen, CEO do P&I Club Skuld, uma das mais importantes mútuas seguradoras que cobre 200 dos cerca de 1.000 navios atualmente presos no Golfo Pérsico, avisa que os armadores esperam clareza sobre como vai funcionar o cessar-fogo das próximas duas semanas. À Argus, Jakob Larsen, chefe de segurança da associação de armadores Bimco, afirmou que a “indústria espera detalhes técnicos dos EUA e do Irão sobre como navegar em segurança o estreito de Ormuz, realçando que “o Irão continua a manter controlo sobre o canal marítimo”.

Os navios que atravessam a região continuam a necessitar de coberturas adicionais de risco de guerra, refletindo a persistente incerteza geopolítica. Em declarações ao jornal The Financial Express, Arti Mulik, Chief Technical Officer da Universal Sompo General Insurance, explica que a escassez de navios disponíveis para operar em zonas de risco está a pressionar os preços do frete. “Há um aumento significativo dos custos de transporte devido à indisponibilidade de embarcações nestas áreas. Com a retirada de coberturas de guerra por parte de vários resseguradores, os custos de seguro também subiram”, afirma. Apesar do cessar-fogo, sublinha, “a cobertura de guerra continua essencial”.

Também Balasundaram R, responsável de seguros marítimos na Policybazaar for Business, considera que o alívio será limitado. O maior foco de preocupação continua a ser o fluxo de exportações globais através do Estreito de Ormuz, uma rota crítica para mercadorias essenciais como alimentos, carne e bens diversos. “Só um fim completo das hostilidades permitirá uma redução gradual dos prémios de seguros”, diz.

Desde o início do conflito, seguradoras marítimas agravaram os prémios de risco de guerra para navios que transitam no Golfo. Além disso, algumas coberturas anuais foram canceladas ao abrigo de cláusulas específicas, com revisão em alta dos prémios adicionais e maior escrutínio das operações. Ainda citado pelo mesmo jornal, Vaidhehi Desikan, da Anand Rathi Insurance Brokers, traça paralelos com eventos anteriores como a Guerra do Golfo ou a pandemia de Covid-19. Nesses casos, os custos adicionais mantiveram-se durante três a seis meses, devido à volatilidade dos combustíveis e à prudência operacional. “Embora o frete demore a normalizar, os seguros reagem mais rapidamente aos sinais de risco. Podemos ver uma redução de 30% a 40% nos prémios de risco de guerra no curto prazo, mas não para níveis pré-conflito”, explica.

Os dados atuais mostram um agravamento significativo dos custos: as tarifas de frete aumentaram entre 60% e 80% desde o início do conflito, enquanto os prémios de risco de guerra no Golfo passaram de cerca de 0,005%–0,025% para 0,25%–0,50%.

Especialistas auguram que não haverá descidas relevantes dos prémios no curto prazo. “As transportadoras estão a aplicar sobretaxas de risco e de combustível, e o custo do seguro de guerra aumentou dez vezes, com capacidade limitada de subscrição”, refere Gaurav Agarwal, da Prudent Insurance Brokers.

Grandes operadores marítimos já refletiram este cenário nos preços. A MSC introduziu uma sobretaxa de 800 dólares por contentor para destinos no Médio Oriente, enquanto a CMA CGM fixou um adicional de 3.000 dólares por contentor de 40 pés para envios para a região.

Por sua vez, Hari Radhakrishnan, da Insurance Brokers Association of India, indica que os prémios de seguro marítimo para travessias pelo Estreito de Ormuz podem situar-se entre 5% e 10% por viagem. Em alguns casos, navios com ligações aos EUA ou a Israel estão mesmo a ser excluídos de cobertura.

Panamá ganha, Suez perde e seguro de Trump duplica

Com o ataque ao Irão o canal do Panamá registou 1.148 passagens de navios em março, um recorde desde dezembro de 2021 durante a Covid-19, uma subida de 19% principalmente com origem em operadores do Pacífico.

O Canal do Suez, por onde passa 40% do tráfego mundial de contentores, perdeu movimento dada a instabilidade óbvia em Ormuz, mas também pela imprevisível ação do grupo pró-Irão Houti a partir do Iemen e sobre o estreito de Bab el‑Mandeb, a entrada no Mar Vermelho.

Entretanto, a US International Development Finance Corporation, que está a promover o programa de resseguro lançado pelo presidente Trump, anunciou a duplicação dos capitais cobertos para 40 mil milhões de euros, depois de se terem juntado à Chubb, as seguradoras Travelers, Liberty Mutual Insurance, Berkshire Hathaway, AIG, Starr e CNA.

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