Alimentação, gasóleo e roupa nova lideram aumento de preços em março
Com o gasóleo a ficar 17% mais caro face a fevereiro e o preço de muitos bens alimentares a disparar mais de 20% num ano, março colocou ainda mais pressão no bolso, com a roupa nova a custar mais 31%.
- A tensão no Médio Oriente disparou o preço do petróleo Brent, atirando o custo do gasóleo para uma subida mensal brutal de quase 17,4% em março.
- O choque energético alastrou-se rapidamente a outros setores do quotidiano, encarecendo bens essenciais como a alimentação, a roupa e o alojamento.
- Sem depender da crise externa, o arrendamento mantém uma forte pressão nas famílias portuguesas, com as rendas a subirem mais de 5% num ano.
Assim que os primeiros mísseis começaram a voar sobre o Médio Oriente a 28 de fevereiro, os preços do petróleo Brent não tardaram a responder. Se em fevereiro o barril negociava perto dos 70 dólares, em março chegou a tocar nos 119,5 dólares, o valor mais elevado em mais de um ano, fechando o mês perto dos 118 dólares.
Esse choque externo rapidamente alastrou-se à economia nacional e chegou diretamente às bombas de combustível, sendo o principal responsável pela aceleração da inflação para 2,7% em março, confirmada esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Entre os 209 produtos analisados pelo INE para o cálculo do Índice de Preços no Consumidor (IPC), 61% dos artigos registou um aumento do preço entre março e fevereiro e 70% registou um aumento homólogo.
De acordo com dados do INE, a subida da taxa homóloga é de 0,6 pontos percentuais face a fevereiro, e as suas causas vão muito além do simples número. “A aceleração do IPC é quase na totalidade explicada pelo aumento do preço dos combustíveis”, refere o INE em comunicado.
O gasóleo, o combustível mais usado em transportes de mercadorias e logística, subiu 17,36% em termos mensais em março, contribuindo com 0,313 pontos percentuais para a variação total do índice de preços
Os produtos energéticos, que em fevereiro registaram uma variação homóloga negativa de -2,2%, passaram para um aumento de 5,7% em março, uma inversão brutal de 7,9 pontos percentuais num único mês. Na prática, isto significa que encher o depósito ficou muito mais caro em março face ao mês anterior.
O gasóleo, o combustível mais usado em transportes de mercadorias e logística, subiu 17,36% em termos mensais, contribuindo com 0,313 pontos percentuais para a variação total do índice de preços.
A gasolina não ficou muito atrás, com um aumento mensal de 8,08%, representando mais 0,093 pontos percentuais na fatura da inflação. Mas o impacto da guerra no Irão nos preços não se fica pelos postos de abastecimento.
O petróleo é a matéria-prima de uma vasta cadeia de produção, e a sua escalada repercute-se em setores tão distintos como os plásticos e embalagens, os fertilizantes agrícolas, os produtos petroquímicos e o transporte de mercadorias. É por isso que o encarecimento da energia tende a infiltrar-se, com algum desfasamento, nos preços dos bens do dia-a-dia, das prateleiras do supermercado às farmácias, passando pelas lojas de roupa.
A par dos combustíveis, os produtos alimentares não transformados mantiveram-se como um dos vetores de pressão mais persistentes sobre os orçamentos domésticos no último mês, com uma variação homóloga de 6,4% em março, ligeiramente abaixo dos 6,7% registados em fevereiro, mas ainda assim bem acima da inflação geral.
O vestuário de uso feminino subiu 31,54% em termos mensais, e o masculino 19,43%, fazendo da classe do “vestuário e calçado” a que maior contribuição positiva teve para a variação mensal do IPC.
O INE assinala que a classe dos “produtos alimentares e bebidas não alcoólicas” foi uma das que maior contribuição positiva deu para a variação homóloga do IPC, a par dos transportes e dos “restaurantes e serviços de alojamento”.
Já os produtos alimentares transformados, como conservas, laticínios processados ou refeições prontas, cujos preços são particularmente sensíveis aos custos de energia e embalagem, registaram uma variação homóloga de 1,38% e uma variação mensal de 0,88%, valores mais contidos, mas que se somam ao esforço financeiro quotidiano das famílias.
O setor do alojamento e da restauração também contribuiu para o encarecimento do cabaz de preços dos portugueses. Os hotéis, motéis, estalagens e outros serviços de alojamento subiram 8,69% em termos mensais, sendo a terceira maior contribuição positiva para a variação mensal do índice total, atrás apenas do vestuário e do gasóleo.
Esta subida reflete, em parte, o arranque da época de primavera e o crescente dinamismo do turismo em Portugal, que comprime a oferta disponível e empurra os preços em alta; e que é, também ele, agravado pelo aumento dos custos de energia na hotelaria e pelo encarecimento do combustível de aviação, outro derivado do petróleo diretamente afetado pela instabilidade no Médio Oriente.
Num plano diferente, mas igualmente relevante, março trouxe a habitual entrada das novas coleções de vestuário e calçado e os preços refletiram isso com toda a intensidade sazonal. O vestuário de uso feminino subiu 31,54% em termos mensais, e o masculino 19,43%, fazendo da classe do “Vestuário e calçado” a que maior contribuição positiva teve para a variação mensal do IPC, com o índice desta classe a avançar 21,7% face a fevereiro.
Ainda que este movimento seja típico de março, quando as lojas renovam as prateleiras, o INE recorda que a variação mensal “é influenciada por efeitos sazonais e outros mais específicos localizados num (ou em ambos) dos meses comparados”, o que exige cautela na leitura destes números isolados.
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Na habitação, o destaque vai para o mercado de arrendamento, com a pressão sobre os preços a continuar a fazer-se sentir com vigor. Segundo o INE, as rendas das casas por metro quadrado subiram 5,1% em termos homólogos em março, praticamente o mesmo ritmo de fevereiro (5,2%), e com todas as regiões do país a registarem aumentos.
De acordo com dados compilados pelo INE, a Madeira destaca-se nesta matéria, ao contabilizar a subida mais intensa das rendas, com um aumento de 6,5% em termos homólogos. A variação média mensal foi de 0,5%, sem qualquer região a registar descida.
Estes números confirmam que o arrendamento permanece uma fonte de pressão estrutural sobre os orçamentos das famílias portuguesas, independentemente do contexto geopolítico e das oscilações nos mercados energéticos.
A inflação subjacente ficou em 2%, abaixo dos 2,2% estimados para a Zona Euro, o que sugere que, retirado o choque dos combustíveis, a economia nacional mantém uma dinâmica de preços relativamente controlada.
No contexto europeu, Portugal posicionou-se ligeiramente acima da média da Zona Euro, com o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) português a contabilizar uma inflação homóloga de 2,7% em março, 0,2 pontos percentuais acima da estimativa do Eurostat para a área do Euro (2,5%).
A inflação subjacente, que exclui os produtos alimentares não transformados e os energéticos e que é vista como o termómetro da pressão sobre os preços de fundo, ficou em 2%, abaixo dos 2,2% estimados para a Zona Euro, o que sugere que, retirado o choque dos combustíveis, a economia nacional mantém uma dinâmica de preços relativamente controlada.
A pergunta que fica é quanto tempo durará a escalada do petróleo e se os preços nos postos de abastecimento já tocaram o teto ou se o pior ainda está para vir.
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