FMI pede vigilância sobre a ‘banca sombra’ enquanto há tempo
A estabilidade financeira global é mais frágil do que parece, avisa o FMI, que aponta os fundos não bancários (hedge funds, ETF alavancados) como o elo mais frágil de um mercado sob pressão crescente.
- O Fundo Monetário Internacional alerta que a estabilidade financeira global está em risco devido a vulnerabilidades no setor financeiro não bancário, que domina mais de metade dos ativos financeiros.
- Os analistas do FMI destacam que vulnerabilidades estruturais associadas a determinados investidores não bancários podem amplificar a transmissão de choques financeiros globais.
- As recomendações do FMI enfatizam a necessidade urgente de reforçar a supervisão sobre as instituições financeiras não bancárias para mitigar riscos e garantir a resiliência do sistema financeiro.
Os mercados financeiros entraram em 2026 de forma robusta, com os preços dos ativos em alta, a volatilidade contida e com condições financeiras favoráveis. Mas esse panorama foi abruptamente perturbado pelo eclodir do conflito no Médio Oriente, a 28 de fevereiro.
Em março, as ações globais, segundo o índice MSCI World, recuaram mais de 7%, as yield das obrigações soberanas dispararam impulsionadas por crescentes expectativas de inflação e as moedas dos mercados emergentes foram particularmente penalizadas, especialmente nos países importadores de matérias-primas energéticas.
“Os riscos para a estabilidade financeira global estão elevados”, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI) no Global Financial Stability Report de abril de 2026, publicado esta terça-feira, notando que “o sistema financeiro global está a confrontar a guerra em curso no Médio Oriente, potenciais pressões inflacionistas, riscos crescentes de um maior aperto nas condições financeiras e vários canais de amplificação que poderiam levar da turbulência dos mercados para a instabilidade financeira”.

Até agora, os mercados têm-se mantido ordenados e os bancos surgem como um bastião de estabilidade, reforçados pelas reformas regulatórias pós-crise de 2008. Contudo, o FMI adverte que esta contenção não deve ser confundida com solidez.
“Não é suficiente avaliar os riscos apenas através do prisma do desempenho recente dos mercados”, escrevem os analistas do Fundo, sublinhando que “os decisores políticos devem avaliar como as vulnerabilidades – como a alavancagem, os desfasamentos de maturidade e liquidez, e a interconexão – podem amplificar as tensões no setor financeiro.”
A mensagem do FMI é de que a ausência de crise não equivale à ausência de risco e é neste contexto que os especialistas da instituição liderada por Kristalina Georgieva apontam o dedo a um setor em rápida expansão, mas pouco supervisionado: o das instituições financeiras não bancárias (NBFI, na sigla inglesa).
A alavancagem elevada em partes do setor financeiro não bancário, a concentração crescente nos mercados acionistas e os spreads de crédito historicamente estreitos aumentam o potencial para vendas forçadas abruptas e súbitas tensões de liquidez.
Hedge funds, fundos de investimento, ETF alavancados, fundos de crédito privado, todos estes atores cresceram exponencialmente na última década e dominam hoje mais de metade dos ativos financeiros globais, operando quase como uma “sombra” do setor bancário. O problema, como o relatório detalha, é que muitas destas entidades estão expostas a vulnerabilidades estruturais que, em momentos de stress, podem transformar-se em aceleradores de crise.
“A alavancagem elevada em partes do setor financeiro não bancário, a concentração crescente nos mercados acionistas e os spreads de crédito historicamente estreitos aumentam o potencial para vendas forçadas abruptas e súbitas tensões de liquidez através de chamadas de margem e de colateral“, destacam os analistas do FMI.
A ideia é simples: quando a volatilidade sobe, como tem acontecido desde o início do conflito no Médio Oriente, os fundos alavancados são sujeitos a chamadas de margem, o que os obriga a vender ativos apressadamente para cobrir as posições. Essa pressão vendedora derruba ainda mais os preços, desencadeando novas chamadas de margem, numa espiral que o FMI classifica como um “efeito dominó”.
“As vendas forçadas por parte de intermediários financeiros não bancários que se expandiram através da alavancagem podem aumentar ainda mais a volatilidade e acrescentar pressões de liquidez através de chamadas de margem e resgates de investidores”, lê-se no relatório.
Os ETF alavancados, por exemplo, foram apontados como tendo contribuído para a queda de 12% do índice KOSPI da Coreia do Sul num único dia, nas primeiras semanas do conflito. A amplificação destes choques é tanto mais preocupante quanto as economias avançadas chegam a este momento com os cofres públicos fragilizados.
Pressões sobre as finanças públicas
Os elevados níveis de dívida soberana, combinados com a redução das compras de obrigações pelos bancos centrais e com a entrada em cena de investidores privados mais sensíveis aos preços tornaram os mercados obrigacionistas mais vulneráveis do que em ciclos anteriores, alertam os especialistas do Fundo.
A sensibilidade das yields nos leilões de dívida pública aumentou significativamente desde 2023, revelando-se como um sinal de que os investidores exigem hoje prémios mais elevados para absorver a mesma quantidade de emissões.
A tudo isto acrescem os riscos do nexo soberano-bancário: se os preços das obrigações soberanas caírem abruptamente, os balanços dos bancos podem ser severamente afetados, precisamente num momento em que os governos têm menos margem para intervir.
A tarefa dos decisores políticos não é prever o próximo choque, mas garantir que as vulnerabilidades estão mitigadas e que o sistema permanece capaz de absorver o stress sem o amplificar.
Além dos mercados obrigacionistas, o FMI dedica especial atenção ao setor do crédito privado e à forma como as suas vulnerabilidades estruturais – opacidade, desfasamentos de liquidez e incumprimentos crescentes – podem propagar-se ao sistema financeiro mais alargado.
Os fundos semilíquidos voltados para investidores de retalho são identificados como uma fonte de preocupação particular: em cenários de stress moderado, os testes do FMI indicam que alguns destes veículos podem ficar sem liquidez em apenas cinco a sete trimestres.
Ao mesmo tempo, os investimentos em inteligência artificial, em rápido crescimento e com estruturas de financiamento circulares entre gigantes tecnológicos, fornecedores de chips e plataformas de computação em nuvem, introduzem novos riscos de concentração e interconexão.
“Vulnerabilidades estruturais associadas a determinados investidores não bancários podem amplificar a transmissão de choques financeiros globais”, conclui o relatório.
Perante este quadro, as recomendações do FMI são extensas, mas convergem num ponto central: é urgente fechar as lacunas de supervisão sobre as financeiras não bancárias.
- O Fundo pede que os testes de stress e os exercícios de cenário sejam estendidos às NBFI, que as lacunas de dados sobre alavancagem e exposições sejam colmatadas e que a cooperação regulatória transfronteiriça seja reforçada para evitar arbitragem regulatória.
- Na política orçamental, apela a um reequilíbrio fiscal gradual que coloque a dívida pública numa trajetória sustentável, com apoios às famílias mais vulneráveis explicitamente temporários e bem direcionados.
- E ao nível das infraestruturas de mercado, o FMI recomenda a expansão da compensação centralizada nas operações de recompra de obrigações soberanas. “À medida que as NBFI se tornam mais alavancadas e mais ligadas aos bancos, fechar as lacunas de dados, melhorar a partilha de dados entre jurisdições e reforçar a supervisão são aspetos críticos”, sublinha o relatório.
A mensagem final do FMI é explícita quanto à urgência da ação. “A tarefa dos decisores políticos não é prever o próximo choque, mas garantir que as vulnerabilidades estão mitigadas e que o sistema permanece capaz de absorver o stress sem o amplificar.”
Numa altura em que o conflito no Médio Oriente continua sem resolução à vista, e em que a instabilidade geopolítica pressiona um sistema financeiro global com fragilidades acumuladas, o aviso do FMI é um apelo à preparação, antes que a próxima vaga chegue às margens.
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