Grandes consumidores de energia pedem mais apoios face a preços “insustentáveis”. Linha de crédito não torna operação “viável”

As indústrias nas quais os custos com energia mais pesam alertam que a medida de apoio avançada pelo Governo não torna a operação viável, e defendem que outros apoios sejam avançados.

O Governo lançou recentemente uma medida para ajudar as empresas cuja atividade depende fortemente de energia. A Associação Portuguesa dos Industriais Grandes Consumidores de Energia (APIGCEE) frisa que, apesar de todas as medidas de apoio serem “bem-vindas”, uma linha de crédito não resolve as dificuldades em manter a viabilidade e rentabilidade da operação, num contexto de preços “insustentáveis”.

Os preços de energia continuam anormalmente elevados e, como tal, insustentáveis para os setores intensivos em energia”, escreve a APIGCEE, em declarações ao ECO/Capital Verde.

“Os danos já infligidos em infraestruturas de produção de gás natural deixam antever um impacto prolongado nos preços do gás, mesmo que se restabeleça o tráfego marítimo” no Estreito de Ormuz, escreve fonte oficial da associação, para depois notar que o alívio a que se assistiu na última quarta-feira, na sequência do acordo de tréguas entre Estados Unidos e Irão, “é de apenas uma fração daquilo que subiu nas últimas semanas”.

Os preços de energia continuam anormalmente elevados e, como tal, insustentáveis para os setores intensivos em energia.

APIGCEE

A perda de competitividade da indústria portuguesa por via dos maiores custos de energia face aos outros países europeus é anterior ao conflito, manteve-se durante o conflito, e tenderá a agravar-se à medida que os outros governos adotam medidas de proteção da sua indústria em virtude da crise energética”, avalia a mesma associação, ao mesmo tempo que frisa que “não há sinais tangíveis” no preço da energia que a crise esteja resolvida e, mesmo quando estiver, “a perda de competitividade relativa mantém-se”.

A associação reconhece que “todas as medidas para apoiar as empresas cuja atividade é intensiva em energia, no atual contexto de custos elevados de energia, são bem-vindas”. Contudo, confrontada com a linha de crédito de 600 milhões de euros avançada pelo Governo, a mesma entidade entende que “não é por ter acesso a crédito que essa operação [das empresas grandes consumidoras de energia] passa a ser viável, rentável”, olhando aos casos em que “toda ou parte da operação da empresa” se torna “inviável” face aos atuais custos “elevados” de energia.

Todas as medidas para apoiar as empresas cuja atividade é intensiva em energia, no atual contexto de custos elevados de energia, são bem-vindas, [mas] não é por ter acesso a crédito que essa operação [das empresas grandes consumidoras de energia] passa a ser viável, rentável.

É por isso importante que sejam adotadas medidas em Portugal, dentro dos mecanismos estabelecidos pela UE [União Europeia] em cumprimento do normativo das ajudas de estado, para restaurar a competitividade da nossa indústria eletrointensiva, sob pena de que esta se torne economicamente inviável no nosso país“, conclui a APIGCEE. A associação garante que tem feito chegar “propostas detalhadas” sobre como tornar os custos de energia e de transporte mais acessíveis para os industriais que mais exigem energia para desenvolver a respetiva atividade, mas prefere não as avançar.

"Não é por ter acesso a crédito que essa operação [das empresas grandes consumidoras de energia] passa a ser viável, rentável.”

APIGCEE

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou imediatamente antes do fim de semana de Páscoa uma linha de apoio, a “Portugal Resiliência Energética”, no valor de 600 milhões de euros, destinada a financiar as empresas cujos custos da energia representam mais de 20% dos seus custos de produção. A mesma foi aprovada a 9 de abril, em sede de Conselho de Ministros.

“O Estado prestará a garantia pública que cobre 70% para as grandes empresas e 80% para as pequenas e médias empresas. Vai reforçar a capacidade das empresas para responder à instabilidade internacional e para proteger a nossa competitividade, o nosso emprego e a resiliência do nosso tecido produtivo nacional”, adiantou, na altura, o primeiro-ministro. Depois da aprovação em Conselho de Ministros, o ministro da presidência, António Leitão Amaro acrescentou que a linha de crédito terá uma maturidade de cinco anos, carência de um ano e spread “mais vantajoso do que a banca comercial, em condições normais conseguiria” entregar.

"[A linha de crédito] vai reforçar a capacidade das empresas para responder à instabilidade internacional e para proteger a nossa competitividade, o nosso emprego e a resiliência do nosso tecido produtivo nacional.”

Luíos Montenegro

Primeiro-ministro de Portugal

A APIGCEE representa 13 empresas de peso no tecido empresarial nacional, entre elas a Altri, Ba Glass Portugal, Bondalti Chemicals, Secil, Navigator e Cimpor.

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