FMI admite recessão económica global à espreita se guerra escalar
Instituição desenhou três cenários para o crescimento mundial e inflação. No caso mais severo, economia fica próxima de uma recessão, definida como um crescimento inferior a 2%.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já admite um cenário próximo de recessão económica global se o conflito no Golfo se intensificar e levar a danos nas infraestruturas energéticas na região. Nesse caso, considerado severo, a instituição liderada por Kristalina Georgieva estima que a inflação mundial pode mesmo ultrapassar ligeiramente os 6% até 2027.
Na atualização das Previsões Económicas Mundiais, divulgadas esta terça-feira, o FMI alerta que as perspetivas globais deterioraram-se “abruptamente” na sequência do início da guerra no Médio Oriente a 28 de fevereiro e poderão agravar-se ainda mais. “O encerramento do Estreito de Ormuz e os danos significativos em infraestruturas críticas de produção numa região central para o fornecimento global de hidrocarbonetos poderão desencadear uma crise energética de dimensão sem precedentes“, pode ler-se na análise.
Antes do conflito no Golfo, o FMI preparava-se para rever em altas as projeções económicas globais. Contudo, os desenvolvimentos na guerra levaram a intenção dos técnicos da instituição de Bretton Woods a ficar pelo caminho e a avançar mesmo com a opção contrária: cortar as perspetivas. Ainda assim, o impacto é desigual entre regiões com os importadores de petróleo e emergentes a serem mais afetados.
FMI cortou as projeções económicas mundiais para 3,1% este ano, menos 0,2 pontos percentuais do que no relatório de janeiro, e para 3,2% em 2027. Porém, dada a incerteza desenhou dois cenários alternativos. E nesses as perspetivas são mais negativas.
Deste modo, o FMI passa a prever um crescimento global de 3,1% em 2026 (menos 0,2 pontos percentuais do que no relatório de janeiro) e 3,2% em 2027, abaixo do ritmo recente de cerca de 3,4% em 2024–25, estabilizando em torno desse nível no médio prazo e inferior à média histórica de 3,7%. Paralelamente, projeta que a inflação acelere para 4,4% em 2026 e recue para 3,7% em 2027, representando revisões em alta para ambos os anos.
No entanto, alertando que a duração e a escala do conflito, bem como o tempo necessário para normalizar a produção e o transporte de energia após o fim das hostilidades, determinarão a dimensão final do choque para a economia global, os técnicos desenvolveram mais dois cenários alternativos: um adverso e um severo.
No cenário adverso, o FMI estima que o crescimento deverá avançar 2,5% e a inflação acelerar para 5,4%. Porém, no cenário severo — com disrupções nos mercados energéticos até ao próximo ano, desancoragem das expectativas de inflação e agravamento das condições financeiras — com uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2%, a economia global poderá aproximar-se de uma recessão, “algo que ocorreu apenas quatro vezes desde 1980, sendo as duas mais recentes a crise financeira global e a pandemia”.

Os efeitos sobre o crescimento seriam também mais persistentes, com o crescimento global a diminuir em um ponto percentual em 2027, para 2,2%. Ademais, a inflação seria assim 190 pontos base mais elevada em 2026, atingindo 5,8%, e 260 pontos base mais elevada em 2027, chegando a 6,1%.
“O aumento dos preços do petróleo e do gás teria não só um impacto mais forte, mas também mais duradouro no crescimento, retirando 0,6 pontos percentuais em 2026 e mais 0,5 pontos percentuais em 2027. O efeito amplificador através das expectativas de inflação e das condições financeiras seria igualmente significativo, reduzindo o crescimento em 0,7 pontos percentuais em 2026 e em 0,5 pontos percentuais em 2027″, explica a instituição.
Preço do petróleo sobe, mas custo do gás escala ainda mais
O FMI projeta três cenários para a subida dos preços da energia, com uma escalada maior no custo do gás natural do que no petróleo. No cenário base, a instituição prevê que os preços das matérias-primas energéticas aumentem 19% em 2026, em contraste com a ligeira queda projetada no relatório de outubro.
Assim, os preços do petróleo deverão subir 21,4%, devido a perturbações na produção e no transporte no Médio Oriente, correspondendo a um preço médio de 82 dólares por barril. Paralelamente, espera que “os preços do gás natural sejam ainda mais afetados do que os do petróleo, devido à complexidade técnica de retomar a produção e ao nível relativamente mais baixo de reservas disponíveis”.
No cenário adverso, os técnicos apontam para um preço médio do petróleo de cerca de 100 dólares por barril este ano e cerca de 75 dólares em 2027, pressupondo um aumento de 80% a partir do segundo trimestre de 2026, face ao cenário de base de janeiro de 2026, antes de recuarem para cerca de 20% acima do cenário de base em 2027. Por seu lado, os preços do gás deverão aumentar, na Europa e na Ásia, em 160% no segundo trimestre face ao cenário de base, antes de também recuarem em grande medida em 2027.
No cenário severo, o choque nos preços das matérias-primas é mais intenso e persistente, com os preços do petróleo a aumentarem 100% a partir do segundo trimestre de 2026, face ao cenário de base da atualização de janeiro de 2026, mantendo-se nesse nível também em 2027. Deste modo, o preço médio situar-se-ia a cerca de 110 dólares por barril em 2026 e cerca de 125 dólares em 2027. Já os preços do gás na Europa e na Ásia aumentariam 200% no mesmo período.
Os três canais do choque
O FMI explica que o impacto global do choque depende de três canais. Primeiro, o efeito direto do aumento dos preços das matérias-primas constitui um típico choque negativo do lado da oferta, aumentando o custo dos bens e serviços intensivos em energia, incluindo fertilizantes, produtos químicos, alimentos, transportes e aquecimento. Ao mesmo tempo, perturba as cadeias de abastecimento, pressionando a inflação global e reduzindo o poder de compra.
Porém, o choque direto pode ser amplificado por efeitos de segunda ordem, à medida que trabalhadores e empresas tentam compensar perdas de rendimento esperadas através de salários e preços mais elevados. “O risco de espirais salariais e de preços será maior em países onde as expectativas de inflaçãja política monetária, com custos acrescidos para a economia“, realça o FMI.
O terceiro canal é a reação dos mercados financeiros, com a instituição a salientar que pode prejudicar a valorização dos ativos, aumentar os prémios de risco, provocar a fuga de capitais e uma valorização do dólar, ao mesmo tempo que reduz a procura agregada.
“Tal como noutros choques de preços de matérias-primas, os países importadores de energia estão particularmente expostos, sendo os países em desenvolvimento de baixos rendimentos — especialmente os que já apresentam vulnerabilidades macroeconómicas e têm margens de manobra limitadas — os mais afetados“, assinala.
Afetados serão também os exportadores de energia da região do Golfo, com encerramentos de produção, restrições às exportações e redução do turismo e da atividade económica. Neste sentido, o FMI destaca ainda que a redução dos recursos orçamentais, num contexto de maiores necessidades de despesa, “poderá obrigar muitos destes países a diminuir a poupança líquida, possivelmente através da utilização das reservas externas, o que poderá elevar as taxas de juro reais globais e agravar as condições financeiras internacionais”.
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