Num setor de pessoas, menos carga fiscal e formação fazem a diferença. E um novo aeroporto

Lina Santos, Hugo Amaral,

Menos carga fiscal, mais formação, mais storytelling. Três líderes do sector do luxo - imobiliário, hospitality e fine dining - debatem o presente e o futuro.

Mulheres com ECO sobre a indústria do luxo: Patrícia Barão, Margarida Almeida e Angélica Salvador

Num setor de pessoas para pessoas, a carga fiscal pesada e a necessidade mais formação são entraves ao crescimento, segundo as três empresárias da indústria do luxo neste painel Mulheres com ECO: Angélica Salvador, chef do restaurante In Diferente, no Porto, que acaba de ganhar uma estrela Michelin, Margarida Almeida, CEO da Amazing Evolution, e a Patrícia Barão, partner da consultora imobiliária Dils e presidente da APEMIP – Associação de Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal. São três otimistas. “Estamos no bom caminho”, disseram ao longo da conversa. Mas um storytelling que ressalte as especificidades de Portugal e um novo aeroporto também são necessários.

“Os pilares estruturais estão cá. Precisamos de um aeroporto melhor”, diz Margarida Almeida, lembrando a diferença em relação à estrutura rodoviária, “excecional”. “As pessoas que chegam a Lisboa chegam aos hotéis esbaforidas. E nós já contamos com isso e temos de encontrar momentos para quebrar esse mau início de viagem, mas também acho que nós temos que nos preocupar no nosso dia a dia com as coisas que nós conseguimos controlar. Na minha área de influência, com as nossas equipas, o que é que nós conseguimos melhorar?”.

Foco nos recursos humanos, sublinhou várias vezes a CEO da Amazing Evolution, lembrando um dos principais obstáculos ao crescimento dos salários. “Nós que contratamos queremos muito valorizar as pessoas, mas depois temos uma coisa que é a carga fiscal que recai sobre o trabalho, que é imensa”, diz a CEO da Amazing Evolution e entidade gestora da recém-renovada Casa da Calçada, em Amarante. “Nós já temos uma excelente infraestrutura, temos que trabalhar na profissionalização, na valorização das pessoas que fazem a diferença no serviço. E eu penso que é nisso que nós, em Portugal, nos temos que focar”, defende Margarida Almeida.

“Os profissionais talentosos são muitas vezes desafiados a ir para países onde a carga fiscal não é tão pesada, precisamente porque o ganho depois no final é bastante superior”, nota Patrícia Barão e concorda Angélica Salvador, que há sete anos fundou o restaurante In Diferente, no Porto.. “Nós queremos boas pessoas, nós temos boas pessoas, elas têm de ser mais bem valorizadas e para isso nós precisamos ter estruturalmente um regime fiscal que seja amigo das pessoas que trabalham”, refere Margarida Almeida. “Temos que profissionalizar um pouco mais o serviço e depois conseguir pagar bem às pessoas”, sintetizou a CEO da Amazing Evolution.

Luxo é experiência, não ostentação

Angélica Salvador, chef premiada com uma estrela Michelin, em 2025, pelo trabalho no restaurante In Diferente
Angélica Salvador, chef premiada com uma estrela Michelin, em 2025, pelo trabalho no restaurante In Diferente

Na restauração, o paradigma está a mudar, como demonstram o aumento do número de estrelas Michelin em Portugal. O In Diferente de Angélica Salvador entrou este ano para uma lista com mais 50 restaurantes e, “este foi um ano em que o Porto, em particular, se destacou imenso”, considera. “Eu não quero servir um cliente. Eu quero dar uma experiência ao meu cliente e, no nosso caso, temos muitos clientes repetidos que voltam e acho que isso é um ponto muito positivo”, diz a chef, a primeira pessoa de nacionalidade brasileira a conquistar este prémio fora do Brasil e há 20 anos em Portugal.

Experiência é a palavra-chave também para Margarida Almeida. “Temos que nos focar muito na valorização do serviço. Aquilo que nos distingue vai ser, acho eu, a experiência, as memórias com que as pessoas ficam dos destinos e dos projetos. E os projetos não podem ser avaliados sem o destino. Temos que trazer o destino para dentro dos projetos, e nós na Amazing esforçamos muito para trazer, por exemplo, para trazer o interior, valorizar o interior de Amarante, na Casa da Calçada, respeitar a história da Casa da Calçada, assim como fazemos no Estoril Vintage, a sua ligação ao mar, no mesmo posicionamento, mas com experiências diferentes”, explica, acrescentando: “A mesma coisa com o Solar dos Cantos em São Miguel”.

“As pessoas vêm para Portugal e obviamente têm estas experiências, de pessoas tão talentosas que nos oferecem experiências gastronómicas inesquecíveis, ao mesmo tempo temos um serviço de hospitality que é altamente atrativo e depois isso leva obviamente a querer permanecer e a querer ficar e a querer pensar em mudar a vida para Portugal”, contextualiza a consultora imobiliária. Para quem vem de fora, nota Patrícia Barão, “Portugal é tão único e oferece condições tão especiais que eu acho que o que nos diferencia é exatamente aquilo que tem de diferente”. Por exemplo, “estar em Lisboa e ao fim de 20 minutos estar numa praia incrível, ou fazer uma viagem de duas horas e estar nas quintas vinícolas que são património”.

“Na componente imobiliária, eu acho que nós oferecemos características também que nos refletem também como povo. Temos desde as casas de madeira e colmo da Comporta que são consideradas um ícone imobiliário e no fundo é a simplicidade que nos leva ao luxo… Porque nós temos que discutir o que é que é luxo”, diz lembrando um famoso cantor britânico e a sua experiência em Portugal. “Quando fomos à Comporta, o Brian Ferry dizia: ‘o luxo é estar aqui numa casa completamente integrada na natureza’. Respeitar aquilo que é esta comunidade muito próxima da nossa essência. E para mim o luxo é isto, não é viver numa mansão em Londres. E nós conseguimos oferecer isto tudo”, diz.

Margarida Almeida desconstrói a frase feita que diz que Portugal, com os seus 92250 quilómetros quadrados, é um país pequeno e que isso é uma desvantagem. “Nós podemos estar na planície do Alentejo ou estar na Serra da Estrela em menos de duas, três horas”, diz a CEO da Amazing Evolution, que como entidade gestora procura fazer a combinação perfeita entre nacionalidade e o que Portugal pode oferecer.

O que nos falta? “Eu acho que o que nos falta é passarmos desta componente transacional, no fundo de oferecer uma casa, de vender uma casa espetacular, uma casa que cumpra aquilo que são os requisitos daquela pessoa em concreto, e passar para o lado do serviço, a exclusividade que nós podemos oferecer naquilo que acompanha tudo aquilo que estas pessoas, no fundo, procuram”. Patrícia Barão defende que entremos “com boa formação, com bons mestres”. “Mas estamos na pista, agora é só deixar fluir”.

Imobiliário de luxo: “Se tivermos projetos especiais, os clientes especiais vão aparecer”

Patrícia Barão, partner da Dils e presidente da APEMIP

 

No mercado imobiliário de luxo, Portugal tem captado o interesse internacional e, confirma Patrícia Barão, norte-americanos e brasileiros, “também pela proximidade cultural, pela língua, têm sido uma nacionalidade muito forte”. “A nossa procura continua altamente dinâmica, mas depois o nosso stock de casas aumentou 1,9% na última década”, precisa. Há duas décadas, estava a aumentar cerca de 20%. “Os preços tendencialmente vão continuar a aumentar se nós não conseguirmos trazer oferta nova para o mercado”, conclui. E, explica, “e nós oferecermos um produto muito especial, os clientes muito especiais vão aparecer. Se nós não tivermos o produto para este tipo de cliente, obviamente ele vai procurar este produto noutro sítio”.

Para Patrícia Barão, é uma questão de narrativa. “Nós oferecemos muita qualidade de vida, nós oferecemos segurança, mas falta-nos um storytelling como, por exemplo, o Mónaco tem. E nós podemos trabalhar mais este ponto. No fundo, as características, os USPs, os Unique Selling Points de Portugal, eles estão lá.
Nós precisamos trabalhá-los mais”. Quais seriam? “Eu dou o exemplo da comporta, porque eu acho que a Comporta tem exatamente esse storytelling. Criou-se, no fundo, um destino, que é um destino que tem a natureza na sua essência. Não é só comprar uma casa para passar umas férias ou ter um poiso de fim de semana. Eu entro naquele território e sinto o tempo a abrandar. Eu vou pôr os pés na terra, eu vou viver com o cheiro dos pinheiros, eu vou comer o peixe fresco acabado de pescar, eu vou ouvir as cegonhas… “, explica a consultora lembrando que para um segmento alto ou muito alto, “possivelmente Portugal vai ser a terceira ou a quarta casa que vai comprar, estas pessoas valorizam o tempo e este tempo é para ser vivido com toda a experiência que no fundo que o território proporciona”.

Um setor cada vez mais paritário

Margarida Almeida, CEO da Amazing Evolution
Margarida Almeida, CEO da Amazing Evolution

 

Na gastronomia, na hospitalidade ou no imobiliário, a presença das mulheres é cada vez maior. Patrícia Barão faz o retrato: “Quando comecei, já lá vão 20 anos, havia muito poucas mulheres em posições de liderança no imobiliário e realmente hoje em dia nós já vimos muitas mulheres. Mas se olharmos para trás, a maior parte das nossas avós não trabalhavam. As nossas mães já começaram a trabalhar, na minha geração nós já tirámos cursos superiores. As mulheres entraram no mercado de trabalho muito depois, portanto, nós estamos numa evolução muito positiva”. E acrescenta: “Eu sou a favor da meritocracia e da competência, não é por ser mulher que a pessoa tem mais direitos do que os homens. Homens e as mulheres complementam-se naquilo que são os seus traços de liderança. Eu acho que as mulheres e os homens fazem uma equipa extraordinária. As mulheres vão fazer o seu trabalho e vão conseguir chegar ao mesmo sítio onde chegam os homens”.

Na Amazing Evolution a paridade é respeitada e já houve tempos em que as mulheres estavam em maioria, “por mérito”. “Eu respeito muito e valorizo muito a entrega, a capacidade de trabalho. E eu acho, com quem eu tenho trabalhado, mas assim, de longe, as mulheres são muito mais capazes. No acompanhamento de obra, operação… O core da hotelaria é muito feminino. É o cuidado com os detalhes, é a preocupação em antecipar problemas que possam aparecer. E, curiosamente, era, e ainda é, uma área onde há uma supremacia do género masculino. Mas na Amazing não, acontecia exatamente o contrário. E acho que precisamos de balançar, porque o equilíbrio é extremamente importante”.

Nas cozinhas de fine dining, os homens são maioria e Angélica Salvador estava praticamente sozinha em palco na noite da entrega das estrelas Michelin, mas é, também, um cenário em mudança, como lembra a própria chef. “A Marlene Vieira subiu no ano passado”, lembra. “Independentemente de nacionalidades ou sexo, nós mulheres somos capazes”, diz. “Neste momento, somos eu e mais duas, o restante são todo homens e tenho uma equipa superunida, superforte, respeitam-me, sabem que é importante essa parte”, diz, contando conhecer uma chef que procura ter equipas exclusivamente de femininas. “Acho bonito ela incentivar na sala, na copa, na cozinha, só mulheres”. E, para lá de qualquer área ou o que quer que seja, diz, “não nos podemos esconder”.

 

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