Quem ganha na guerra dos números? FMI vê economia americana a crescer 2,3% e iraniana a contrair 6,1%
Entidade liderada por Georgieva prevê que os EUA absorvam o choque e até beneficiem do aumento dos preços da energia, enquanto o Irão enfrenta um severo impacto económico.
A ofensiva lançada no final de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão desencadeou uma onda de choques económicos, mas as perspetivas são que a economia americana consiga resistir se o conflito não se intensificar, ao contrário da iraniana. O Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou esta terça-feira uma atualização das perspetivas económicas mundiais, nas quais aponta para uma taxa de crescimento em terras de Uncle Sam de 2,2% este ano e uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) da antiga Pérsia de 6,1%.
Na semana passada, a instituição liderada por Kristalina Georgieva lançou uma análise sobre o impacto de conflitos armados desde o fim da Segunda Guerra Mundial, cuja principal conclusão é de que estas provocam perdas económicas superiores às das crises financeiras ou de catástrofes naturais, com impactos que persistem mais do que uma década.
Não é, portanto, surpreendente o resultado das projeções publicadas agora pelo FMI durante as reuniões de primavera entre a instituição e o Banco Mundial em Washington. No relatório, os técnicos de Bretton Woods apontam para uma desaceleração do crescimento do Médio Oriente e Ásia Central de 3,6% em 2025 para 1,9% em 2026, antes de recuperar para 4,6% em 2027, refletindo o impacto mais direto do conflito e recuperação subsequente, caso as partes cheguem a entendimento.
“Para os exportadores de matérias-primas diretamente afetados pelo conflito, a redução da produção e das exportações implica uma revisão em baixa significativa das previsões de crescimento do PIB para 2026, dependendo do grau de estragos nas infraestruturas energéticas e de transporte, bem como da dependência do Estreito de Ormuz e da disponibilidade de rotas alternativas de exportação”, explica o FMI.
Para os exportadores de matérias-primas diretamente afetados pelo conflito, a redução da produção e das exportações implica uma revisão em baixa significativa das previsões de crescimento do PIB para 2026, dependendo do grau de estragos nas infraestruturas energéticas e de transporte, bem como da dependência do Estreito de Ormuz e da disponibilidade de rotas alternativas de exportação.
À cabeça, o Irão é bastante afetado, desde logo por estar no centro do choque. O crescimento esperado para 2026 é revisto em baixa em 7,2 pontos percentuais face às previsões de janeiro, para -6,1%, enquanto para 2027 é revisto em alta em 1,6 pontos percentuais, para 3,2%. Ao mesmo tempo, a taxa de inflação acelera de 50,9% em 2025 para 68,9% este ano, abrandando para 39,6% em 2027.
Por outro lado, o FMI prevê que a economia americana deverá crescer 2,3% em 2026, impulsionada pela política orçamental e pelo impacto desfasado dos cortes nas taxas de juros da política monetária em 2025, apesar do aumento das tarifas desde abril do ano passado continuar a pesar no nível de atividade.
Os técnicos fazem um corte de apenas 0,1 pontos percentuais face à anterior projeção, justificado pelo “equilíbrio de um pequeno efeito negativo da guerra — dado o status de exportador líquido de energia dos Estados Unidos — e compensações de uma recuperação da atividade no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o quarto trimestre de 2025, após o fim da paralisação do Governo federal em 2025, um crescimento da produtividade mais forte do que o previsto anteriormente”.
Nesta perspetiva, acreditam que o crescimento continuará “sólido” em 2027 (2,1%), com um impulso orçamental de curto prazo associado a incentivos fiscais. Ainda assim, os riscos espreitam, sobretudo ao nível da inflação. No que toca a este indicador, o FMI prevê um acelerar da taxa de 2,7% em 2025 para 3,2% em 2026, antes de abrandar para 2,1% em 2027.
Impacto estende-se aos exportadores de petróleo do Golfo
A contração do crescimento do PIB em 2026 não se resume contudo apenas a Teerão, verificando-se noutros países da região. Nas perspetivas do FMI é mais acentuada no Bahrein, Irão, Iraque, Kuwait e Qatar, e menos significativa em Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Para estas economias, prevê-se uma recuperação do crescimento em 2027, com base no pressuposto de que a produção e o transporte de energia serão normalizados nos próximos meses, o que os técnicos admite que poderá ter de ser revisto caso o conflito se prolongue ou se intensifique.
Já para os países importadores de matérias-primas no Médio Oriente e Norte de África, como o Egipto ou Paquistão, o choque nos termos de troca decorrentes da subida dos preços contribui para uma revisão em baixa, ainda que relativamente moderada, das previsões de crescimento em 2026 e 2027, com diferenças entre países resultantes da exposição às importações de energia e bens alimentares, bem como das trajetórias económicas antes do início do conflito.
No Egito, o crescimento deverá abrandar para 4,2% em 2026 e recuperar para 4,8% em 2027, o que representa um corte acumulado em baixa de 1,1 pontos percentuais.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Quem ganha na guerra dos números? FMI vê economia americana a crescer 2,3% e iraniana a contrair 6,1%
{{ noCommentsLabel }}