Seguro, Presidente de proximidade também pressiona o Governo a agir

Com um estilo um pouco diferente, Seguro recupera ideia do homólogo Mário Soares com as chamadas "Presidências Abertas", fazendo eco da estratégia de proximidade à população e pressão no Governo.

Com a primeira Semana Aberta a dominar a agenda política do país, António José Seguro deu um sinal claro do perfil de Chefe de Estado que poderemos esperar neste mandato: um Presidente que não se limita ao conforto de Belém, e tanto se desloca ao terreno para escutar as preocupações da população, como também lhes deixa a promessa de que não ficarão sem respostas. E que não poupa o Governo ao escrutínio e à pressão para executar compromissos, como os apoios prometidos às vítimas do mau tempo de janeiro e fevereiro deste ano, “obrigando-o” a prestar esclarecimentos sobre o que falhou.

Ainda que com um estilo um pouco diferente, o chefe de Estado recupera a ideia do seu homólogo Mário Soares com as chamadas “Presidências Abertas”, fazendo eco da estratégia adotada por Soares nos anos 80 e 90 com foco em problemas sociais e económicos, e dando visibilidade a realidades menos mediáticas. A lógica de Seguro parece ser semelhante, alicerçada no contacto direto com as populações e regiões do país que não querem ficar no esquecimento.

O pedido de ajuda e para que a população não ficasse votada ao abandono marcaram decididamente estes cinco dias em que Seguro realizou um périplo pelos concelhos devastados pelo chamado comboio de tempestades. E escutou um muro de lamentações. Belém marcou o ritmo e o Governo acompanhou um Presidente que se mostrou mais interventivo, fiscalizador, vigilante, mas que também sabe pressionar e enviar recados ao Executivo de Luís Montenegro.

A primeira Presidência Aberta de António José Seguro ficou marcada pelas mensagens a pressionar o Governo, a deixar-lhe recados para que acelere os apoios prometidos às pessoas afetadas pelo chamado comboio das tempestades, mas que também não deixe cair no esquecimento as 115 vítimas mortais dos fogos de junho e outubro de 2017 na região de Leiria.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

Uma certeza ficou, como o próprio teve oportunidade de garantir no seu discurso de balanço desta sexta-feira, na Marinha Grande, após uma reunião com autarcas, ministro da Economia e outras personalidades: manterá uma “cooperação exigente” com o Governo. Falta esperar qual será a reação do Executivo de Montenegro nos próximos tempos a um Presidente que não se inibe de por o dedo na ferida, e exige respostas céleres e eficazes para os problemas da população. Poderá esta Presidência Aberta resultar numa tensão entre Belém e São Bento? O tempo o dirá.

Mas o Presidente da República não parece que lhe vá facilitar a vida. Até porque Seguro avisou no seu discurso de final da Presidência Aberta: “Não pode continuar tudo na mesma. Ninguém compreenderia que assim fosse“; pressionando o Governo a apresentar um relatório sobre as tempestades e a “adequar” os apoios a “situações concretas”, nomeadamente, na agricultura. O Chefe de Estado quer tudo “preto no branco”. Disso não restaram dúvidas.

Se por um lado o Presidente da República assumiu um papel de fiscalizador ao assinalar que as consequências e os estragos do mau tempo “ainda persistem”, já por outro deixou um aviso de que se manterá atento, ou melhor, vigilante. “A minha vigilância em relação à necessidade dos apoios chegarem ao terreno também vai continuar” e “à necessidade do país, em particular o Estado, tirar ilações vai continuar”, avisou no discurso de encerramento na Marinha Grande.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, durante a visita aos Bombeiros Voluntários de Pedrógão para ver os estragos causados pela depressão Kristin. Rui Miguel Pedrosa/Jornal ECORui Miguel Pedrosa/ECO

As pressões e constantes recados ao Executivo de Luís Montenegro foram subindo de tom ao longo dos cinco dias, e nem os ministros que acompanharam Seguro em determinados contextos escaparam de ter de dar explicações a autarcas, população, empresários e até aos bombeiros, foi empurrando o Governo para o centro das respostas.

Como aconteceu no penúltimo dia da Presidência Aberta com o mais recém-empossado ministro da Administração Interna, Luís Neves, no final de uma vista ao Quartel dos Bombeiros de Pedrógão Grande, quando o Chefe de Estado lhe pediu que esclarecesse aos jornalistas porque é que recentemente antecipou que o país estaria a entrar num período complicado relacionado com os incêndios.

Ao lado do Presidente e com uma plateia de jornalistas, bombeiros e outras entidades à sua frente, Luís Neves respondeu, prontamente: “É minha obrigação, obrigação do Governo, alertar para que, de facto, este ano temos fatores de risco acrescidos e todos são necessários”.

Uma das mensagens deixada pelo Chefe de Estado foi precisamente a urgência de se proceder à limpeza dos caminhos florestais, que esperava que “tivesse começado mais cedo”, para evitar uma catástrofe no próximo verão.

Este foi um dos episódios em que os vários governantes do Executivo de Luís Montenegro foram a reboque de uma agenda política ditada pelo próprio Presidente da República e em que os recados não ficaram por aqui. Desde o possível risco de incêndios no país até ao problema da habitação e salários baixos, muito pouco escapou ao escrutínio de Seguro, garantindo esta sexta-feira estar “muito atento” ao problema da habitação, já que os salários dos portugueses não chegam para pagar “as rendas que estão pela hora da morte” ou para comprar uma casa.

Na sua estreia no contacto com as populações no terreno como Presidente, Seguro escutou um muro de lamentações, as reclamações da falta de apoios do Governo e das seguradoras. Sem, contudo, romper com o seu papel arbitral de Presidente, recolheu os testemunhos que levou na bagagem para Belém, para depois dar seguimento; uma espécie de caderno de encargos para fazer chegar ao Governo.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

A todos os queixosos prometeu que não ficariam sem resposta no pós-Presidência Aberta, em que viu in loco o rasto de destruição das intempéries e a tentativa da população, a todo o custo, para recuperar as regiões. Um cenário em que muitos dos visados vivem agora a vida a crédito e risco, de tal forma que é o desespero por terem perdido as poupanças de uma vida e para conseguirem por casas e negócios de pé.

Uma magistratura de influência que Seguro manifestou pretender exercer ativamente, reforçando o papel de escrutínio de Belém e, em simultâneo, elevando a expectativa das pessoas afetadas pelo mau tempo de que teriam resposta do Governo nas próximas semanas. Mostrou-se próximo da população e dos territórios no terreno.

No final, a leitura é clara: Seguro mostrou empatia e solidariedade pelas vitimas do mau tempo, mas também soube mostrar poder ao exigir resposta do Governo, podendo até causar algum desconforto em São Bento.

Mas também desenhou um estilo próprio: um Presidente que sai da sua zona de conforto em Belém e vai ao terreno constatar o rasto de destruição deixado pela depressão Kristin: casas e comércio a céu aberto com estruturas e vigas de madeira arrancadas, e vidros estilhaçados; troncos e ramos de árvores ainda espalhados pela via pública.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO 10 abril, 2026

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