Subida do preço do petróleo ameaça repetir a crise inflacionista de 2022 na economia portuguesa
Estudo alerta que progressos das últimas duas décadas não eliminam vulnerabilidade estrutural e novo aumento do preço do petróleo em 2026 pode ter impacto semelhante ao da crise de 2022.
A redução da dependência energética em Portugal não foi suficiente para blindar a economia portuguesa a choques externos e nova subida do preço do petróleo, este ano, pode ter impacto semelhante ao da crise inflacionista de 2022. A conclusão é de um estudo de Luís Folque, economista do Conselho das Finanças Públicas (CFP), que defende que os ganhos de autonomia funcionam como um “amortecedor relevante”, mas “insuficiente face à magnitude deste tipo de choques” externos.
Num contexto de nova escalada dos preços do petróleo em 2026, o alerta ganha atualidade: a economia portuguesa continua exposta à volatilidade internacional, com impactos diretos na inflação, no crescimento e nas contas externas.
Portugal reduziu significativamente a sua dependência energética desde os anos 90, passando de uma média de 83,7% para 64,5% em 2024. Ainda assim, mantém-se acima da média europeia (57,2%), o que evidencia uma vulnerabilidade persistente.

“A dependência energética tem vindo a reduzir-se, mas permanece uma vulnerabilidade macroeconómica relevante”, sublinha o estudo. Esta fragilidade manifesta-se “no risco para a estabilidade do fornecimento, no contributo para o saldo da balança comercial e nas necessidades de financiamento externo”.
Apesar disso, há sinais de convergência com a União Europeia (UE). Portugal passou de um dos países mais dependentes para uma posição intermédia, ocupando agora o 12.º lugar entre os Estados-membros, atrás de países como a Espanha e a Alemanha.
O estudo enfatiza que a energia não é apenas uma variável externa – é um fator central da dinâmica económica interna. “A energia é um input crítico para os custos de produção e de transporte”, lê-se no documento, com efeitos diretos na inflação e no PIB.
Quando os preços sobem, o impacto é transversal: “Um aumento dos custos energéticos reduz o rendimento disponível real das famílias e eleva os custos de exploração das empresas, penalizando o consumo e o investimento”. Além disso, os efeitos indiretos amplificam o choque: margens empresariais comprimidas, transportes mais caros e aumento generalizado de preços.
Crise de 2022 deixou marcas profundas
A crise energética de 2022, desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, é apontada como um momento-chave para compreender a dimensão do risco. O preço do gás natural disparou 320% em poucos meses, contaminando cadeias de valor inteiras – desde fertilizantes até alimentos. “Este episódio reforçou a discussão em torno da resiliência económica e da diversificação de fontes de energia e de fornecedores”, refere o estudo.
O impacto nas finanças públicas foi expressivo. Entre 2022 e 2023, as medidas de mitigação ascenderam a 6.800 milhões de euros (2,6% do PIB). Cerca de 40% desse montante correspondeu a alterações fiscais sobre combustíveis. “Em 2022, foram implementadas reduções na taxa do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP) e a suspensão da atualização da taxa de carbono. Nesse contexto, os apoios extraordinários pagos às famílias com menor rendimento configuram um exemplo de segmentação”, detalha o relatório.
Folque alerta, contudo, para os efeitos colaterais destas políticas: “Medidas de controlo de preços e subsídios tendem a desincentivar a poupança energética” e, quando não são direcionadas, “geram efeitos redistributivos regressivos”.
O cenário voltou a deteriorar-se em 2026, com tensões no Médio Oriente e o bloqueio do Estreito de Ormuz. O preço do Brent subiu “mais de 30 euros por barril” em poucos meses, escreve o autor. Com base na relação histórica estimada, o estudo aponta para uma possível deterioração do saldo da balança energética em cerca de 1,8% do PIB – “comparável ao impacto observado em 2022”. Este efeito traduz-se numa transferência significativa de rendimento para o exterior, agravando o défice externo e pressionando a economia.
Apesar dos progressos, Portugal mantém, assim, um défice energético relevante. Em 2024, ascendeu a 2,1% do PIB, ainda que abaixo da média de 3% registada desde 2000. O estudo destaca que os ganhos de eficiência e a redução da dependência evitaram um cenário mais gravoso. “Caso o rácio de dependência se tivesse mantido ao nível de 2005, o saldo da balança teria sido agravado em cerca de 40%”, refere.
Ainda assim, a exposição aos preços internacionais continua a ser um fator determinante. “Um aumento de 10 euros no preço do barril de Brent esteve associado a uma deterioração do saldo da balança energética em torno de 0,6% do PIB”.
Outro ponto crítico é a concentração das importações. Mais de metade do petróleo importado provém de três países – Brasil (26%), Espanha (17%) e Argélia (12%). No gás natural, a dependência é ainda mais elevada: Nigéria (42%) e Estados Unidos (38%) representam cerca de 80% do abastecimento. “Esta concentração aumenta a exposição a riscos geopolíticos e a disrupções na oferta”, sublinha o estudo.
A redução da intensidade energética é apontada como um dos principais fatores de mitigação. Entre 1995 e 2024, a eficiência melhorou significativamente, sobretudo na indústria (-29%) e nas famílias (-23%). Globalmente, a intensidade energética caiu 31%, permitindo compensar o crescimento do PIB (42%) e da população (7%).

Ainda assim, há exceções: o setor dos serviços registou um aumento do consumo e da intensidade energética (33%), associado ao crescimento do turismo, à climatização e ao aumento esperado de centros de dados.
O aumento da produção interna, sobretudo de origem renovável, foi determinante para reduzir a dependência. Desde 2005, a produção primária mais do que duplicou, representando atualmente mais de 35% da energia disponível. Este é um fator distintivo face à União Europeia (UE), onde a dependência aumentou devido à redução da produção interna. Ainda assim, o estudo defende que será necessário acelerar a transição: “será necessária uma maior penetração de produção renovável e eletrificação do consumo”.
O Plano Nacional Energia e Clima 2030 surge como o principal instrumento estratégico, fixando uma meta de dependência de 65% – já atingida em 2024. Mas o estudo deixa um aviso claro: o atual nível de autonomia não garante proteção suficiente.
“Cerca de dois terços da energia disponível em Portugal dependem ainda de importações, concentradas num número restrito de fornecedores. A experiência da crise de 2022, com medidas de política com um impacto orçamental de 6.800 milhões de euros, demonstrou o custo desta vulnerabilidade”, lê-se no mesmo documento.
“Os resultados”, diz o estudo, “reforçam a importância de uma estratégia que articule investimento em renováveis com a promoção da eficiência energética setorial”, especialmente nos serviços.
Num contexto global marcado por instabilidade geopolítica e volatilidade dos preços, a energia assume um papel central na segurança económica. Como sintetiza o estudo, a autonomia energética deixou de ser apenas uma questão ambiental – é, cada vez mais, uma condição de soberania económica.
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