Bolsas penalizam Hermès em 14% por vendas “dececionantes” no primeiro trimestre
Crescimento da marca francesa está suportado nos preços e não num aumento de vendas. Marroquinaria mantém-se forte, mas outras divisões mostram fragilidades. CEO alerta para impacto do Médio Oriente.
A Hermès arrancou 2026 com um crescimento de vendas abaixo do esperado. Segundo os dados divulgados esta quarta-feira, a marca francesa registou receitas de 4.070 milhões de euros, uma queda de 1,4% em termos reportados, penalizada por um efeito cambial negativo de 7%, mas com crescimento de 5,6% a câmbio constante. Em consequência, as ações da Hermès chegaram a cair 14% na bolsa de Paris, o seu pior desempenho diário de sempre.
Estes resultados ficam aquém dos 6,7% antecipados pelo Deutsche Bank e depois de, no início do ano, a maison ter apresentado resultados recorde para o último exercício e até ter contrariado a tendência de queda que se via em grupos como LVMH e Kering.
“Num contexto geopolítico tenso, a Hermès mantém o seu rumo, fiel à sua estratégia de longo prazo”, garante o CEO da empresa, Axel Dumas, em comunicado. “Apoiada pela sua abundante criatividade, pela sua qualidade sem concessões e pela fidelidade dos seus clientes, a Hermès continua o seu crescimento rentável em 2026 com confiança e convicção. Os fundamentos do modelo Hermès são, mais do que nunca, um fator diferenciador”, assegura.
A análise do Deustche Bank e o comportamento das bolsas, no entanto, leram os números de outra forma. Para o banco, a fraqueza está na composição do crescimento da Hermès, estimando que terá beneficiado de cerca de 6% de aumento de preços no trimestre. O que, combinado com a abertura de lojas da marca (em fevereiro inauguraram um novo espaço em Pequim), sugere que o volume de vendas não foi expressivo.
Nem todas as categorias de produtos se comportaram da mesma forma nos primeiros três meses do ano.
- A marroquinaria, central na operação da Hermès e na qual se incluem os mais populares itens da marca – as malas Kelly e Birkin – cresceu 9,4% e continua a ser a estrela da companhia – com forte procura e aumento da capacidade produtiva.
- Seda e têxteis cresceram 8% e mantêm-se como uma área forte da marca, impulsionada pela popularidade dos seus carrés.
- Moda e acessórios mantêm-se estáveis com um crescimento de 0,4%, num momento de transição entre a anterior e a nova designer, assim como os perfumes e beleza (0,2%).
- Nos relógios, os resultados são negativos: menos 3,7% .
Para o Deutsche Bank, esta divergência reabre uma questão antiga para a marca: a sua capacidade de atração para itens que não são marroquinaria, como sejam moda e acessórios, perfumes, relógios, dentro do seu modelo de negócio.
De acordo com os números do Deustche Bank, esta foi a distribuição das receitas por região:
- Queda de 5,9% no Médio Oriente.
- França recuou 2,8%, penalizada pela redução do turismo internacional “afetada pelo abrandamento do turismo, particularmente em março, relacionado com a situação no Médio Oriente”, diz a empresa no seu comunicado.
- Europa cresceu 10%, apoiada pela procura local. Tal como a América (+17,2%) e o Japão (+9,6%)
- A casa francesa confirmou igualmente o seu objetivo ambicioso de crescimento de receitas a taxas de câmbio constantes no médio prazo, mantendo a aposta na expansão da capacidade produtiva em França, com a inauguração do 25.º atelier de maroquinaria.
As ações seguem atualmente a cair 8,4% para 1630,50 euros (desde o fecho anterior), acumulando este ano uma desvalorização de 23%.
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