Conselho das Finanças Públicas corta crescimento para 1,6% devido à guerra e tempestades
Conselho das Finanças Públicas prevê uma desaceleração mais acentuada do crescimento do PIB este ano e alerta para incerteza associada ao desenrolar da guerra. Aponta ainda para uma inflação de 2,9%.
- O Conselho das Finanças Públicas (CFP) reviu em baixa a previsão de crescimento da economia portuguesa para 1,6% este ano, devido à guerra no Médio Oriente e ao impacto das tempestades.
- A inflação também foi revista em alta para 2,6%, refletindo o impacto do aumento dos preços do petróleo com o encerramento do Estreito de Ormuz.
- A economia portuguesa é importadora líquida de petróleo e gás natural, com um grau de dependência energética de cerca de 60%, alerta o CFP.
A guerra no Irão e as tempestades que fustigaram o país no início do ano levaram o Conselho das Finanças Finanças Públicas (CFP) a ficar mais pessimista sobre o desempenho da economia portuguesa este ano. Nas previsões divulgadas esta quarta-feira, a instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral revê em baixa o crescimento para 1,6% este ano e ainda em alta as perspetivas para a inflação para 2,6%.
O relatório de perspetivas económicas e orçamentais 2026-2030 da instituição traz dois destaques: uma desaceleração mais acentuada do crescimento esperado para este ano e um aumento da inflação.
O primeiro caso está associado ao impacto do aumento dos preços do petróleo, devido ao conflito no Médio Oriente, bem como os efeitos económicos das tempestades de janeiro, que colocaram 90 municípios em situação de calamidade, e o segundo, sobretudo, às pressões inflacionistas externas.
Perante este enquadramento, e apesar do efeito de arrastamento do final do ano passado, o CFP cortou a previsão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano para 1,6%, menos 0,2 pontos percentuais (p.p.) do que no anterior relatório e menos 0,3 p.p. face à taxa de crescimento registada em 2025.
A previsão coloca o CFP como a instituição mais pessimista, depois de o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter revisto, na terça-feira, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) português para 1,9%, e o Banco de Portugal, em março, para 1,8%. A Comissão Europeia e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico apontam para uma taxa de 2,2%, mas as projeções datam do ano passado. Do ano passado data também a previsão oficial do Governo, de crescimento de 2,3% este ano, mas quer o primeiro-ministro, quer o ministro das Finanças já admitiram que o cenário macro dificilmente escapará ileso ao impacto das tempestades.
O CFP adianta, por um lado, que a revisão em baixa do crescimento em 2026 tem especial incidência na primeira metade do ano, no consumo e no investimento privado, explicando que, por outro lado a atividade beneficiará de uma orientação expansionista da política orçamental e de um aumento do investimento público (em volume) superior a 15%, associado ao término do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
A projeção da instituição aponta para um aumento da taxa de investimento das Administrações Públicas no PIB de 3% em 2025 para 3,4% em 2026, o “nível mais elevado desde 2011”. “Este aumento, juntamente com um crescimento do consumo público de 2%, permitem compensar o desempenho anémico das exportações e um menor crescimento do consumo das famílias na ausência de novas medidas de estímulo ao rendimento”, refere.

Para 2027, projeta uma recuperação do crescimento do PIB real para 1,8% em 2027, apoiada pelo desanuviamento do choque energético.
Contudo, a instituição alerta que o grau do impacto económico da guerra no Golfo dependerá da duração e da extensão regional do conflito e dos danos a infraestruturas energéticas nos países da região. “Sendo a economia portuguesa importadora líquida de petróleo e gás natural, com um grau de dependência energética de cerca de 60%, o aumento do preço destas matérias-primas tem um impacto negativo sobre o crescimento do PIB e agrava diretamente os termos de troca”, adverte.
Ou seja, ao efeito direto no preço dos consumidores “soma-se o efeito indireto resultante do aumento do custo de produção de outros bens, nomeadamente alimentares – cujo encarecimento decorre não apenas do custo direto da energia, mas da perturbação das cadeias de produção química e de adubos que dela dependem –, os quais reduzem o rendimento disponível real das famílias e comprimem as margens das empresas”.
Taxa de inflação acelera para 2,9%
Com o ressurgimento de pressões inflacionistas externas, o CFP estima que a taxa de inflação, medida pelo Índice Harmonizado de Preços do Consumidor (IHPC), acelere de 2,2% em 2025 para 2,9% este ano, quer diretamente na componente energética, através dos combustíveis, eletricidade e gás, quer com efeitos de segunda ordem nos alimentos, transportes e bens industriais.
“O aumento dos preços dos alimentos ocorrerá com desfasamento temporal, mas com impacto distributivo regressivo, dado o seu peso superior no orçamento das famílias de menor rendimento”, alerta.
A previsão do CFP signfica uma revisão em alta face aos 2,1% anteriormente previstos. Ainda assim, espera que a taxa volte a desacelerar para 2,3% em 2027.
Contudo, de uma forma geral, os riscos para as previsões macroeconómicas são predominantemente descendente para a atividade económica e ascendente para a inflação, o que, realça, acontece pela primeira vez desde setembro de 2023.
“No plano externo, destaca‑se a incerteza associada à duração do conflito no Médio Oriente, com potenciais impactos mais amplos sobre a inflação e o crescimento num contexto de menor margem orçamental na Europa, a par dos riscos ligados à política comercial norte‑americana e à instabilidade financeira”, adverte.
Internamente, elenca riscos relacionados com “a execução do investimento no termo do PRR, a crescente incidência de fenómenos meteorológicos extremos, a evolução dos fluxos migratórios e a despesa com defesa no âmbito do plano ReArm Europe, não incorporada no cenário central do CFP”.
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