Da dívida pública à segurança alimentar: os 5 avisos e recomendações do FMI para a crise
Preços da energia, impacto nos custos dos alimentos, riscos para a dívida pública, conselhos aos bancos centrais e alertas sobre os intermediários financeiros não bancário esmiuçados pelo FMI.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou as previsões de crescimento económico global e reviu em alta as da inflação, admitindo mesmo que o PIB fique próximo de uma recessão mundial se a guerra do Irão se agravar. Ao mesmo tempo, a instituição deixou alertas e recomendações sobre e para o atual contexto.
Nas Previsões Económicas Mundiais (WEO na sigla em Inglês) e no Relatório de Estabilidade Financeira, ambos publicados na terça-feira no âmbito das reuniões de primavera da instituição liderada por Kristalina Georgieva e do Banco Mundial, traça-se uma análise sobre o choque nos preços da energia e o impacto para o custo dos alimentos, retratam-se os riscos para a dívida pública, mas também se deixam conselhos aos bancos centrais e se alerta para os riscos associados ao crescimento alavancado dos intermediários financeiros não bancário.
O paralelo com o choque dos anos 70
A economia global é menos dependente dos combustíveis fósseis do que na década de 1970, mas há paralelos entre o atual contexto e o choque petrolífero ocorrido naquela altura. O alerta foi deixado pelo economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, no dia em que o diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, considerou que os atuais preços do petróleo apesar de elevados não refletem a gravidade da ameaça que a guerra com o Irão representa para os mercados energéticos globais.
O FMI projeta atualmente três cenários para a subida dos preços da energia, com uma escalada maior no custo do gás natural do que no petróleo. No cenário base, a instituição prevê que os preços das matérias-primas energéticas aumentem 19% em 2026, em contraste com a ligeira queda projetada em outubro. No cenário severo, o choque nos preços das matérias-primas é mais intenso e persistente, com o preço médio por barril de petróleo a situar-se a cerca de 110 dólares por barril em 2026 e cerca de 125 dólares em 2027.
Neste sentido, Pierre-Olivier Gourinchas não só apelou a que os países diversifiquem ainda as suas fontes de energia, apostando na produção interna e nas energias renováveis, como recordou que a principal lição a retirar dos anos 70 é a importância de evitar que um choque energético se transforme num problema inflacionista persistente.
A segurança alimentar sob ameaça
A guerra tem um efeito direto do aumento dos preços das matérias-primas, provocando um choque negativo do lado da oferta. Deste modo, além de subir o custo do petróleo, o impacto estende-se também ao custo dos bens e serviços intensivos em energia, incluindo fertilizantes, produtos químicos, alimentos, transportes e aquecimento. Ao mesmo tempo, perturba as cadeias de abastecimento, pressionando a inflação global e reduzindo o poder de compra.
É precisamente para a pressão nos bens alimentares que o FMI adverte, realçando que “a segurança alimentar pode ficar sob ameaçada, com interrupções nos mercados de fertilizantes antes da época de semeio, levando a uma inflação substancial dos preços dos alimentos“.
No cenário adverso desenhado pelo FMI, registar-se-ia um aumento global dos preços dos alimentos de 2,5%, enquanto no cenário severo subiria para 5% em 2026 e 10% em 2027.
Dívida pública na corda bamba
O FMI acendeu um sinal de alerta sobre os mercados de dívida pública. No mais recente relatório de estabilidade financeira global, publicado na terça-feira, a instituição avisa que a combinação de dívidas públicas elevadas, emissões concentradas em prazos curtos e investidores cada vez mais sensíveis aos preços cria condições para episódios de volatilidade severa nas obrigações soberanas.
Nos países do G4 (EUA, Zona Euro, Reino Unido e Japão), o FMI refere que os governos têm encurtado o prazo médio das emissões de dívida, agravando o risco de refinanciamento. Com a inflação persistente, amplificada pela guerra no Médio Oriente, os Estados são forçados a rolar montantes crescentes de dívida a taxas mais elevadas, pressionando as finanças públicas e fazendo subir os prémios de risco soberano.
No Global Financial Stability Report de abril, o FMI alerta ainda para o chamado “nexo soberano-bancário”: uma queda abrupta no preço das obrigações soberanas pode fragilizar os balanços bancários — os bancos são grandes detentores dessa dívida — num momento em que os governos têm menos margem para apoiar o setor financeiro. O Fundo recomenda que os estados reorientem as políticas orçamentais para estabilizar a trajetória da dívida e que os supervisores incluam este risco nos testes de stress ao setor bancário.
O aperto “difícil” na política monetária
O FMI defende que os bancos centrais apostem numa resposta monetária gradual e adaptada aos desenvolvimentos, de modo a tolerar o choque enquanto as expectativas se mantiverem estáveis, mas agir rapidamente caso se desancorarem. “Os bancos centrais devem manter-se vigilantes e estar preparados para agir de forma clara e decisiva, em linha com os seus mandatos“, pode ler-se no WEO.
É neste sentido, que consideram que é preciso “evitar que choques de oferta prolongados desestabilizem as expectativas de inflação“, considerando que uma comunicação transparente e uma forte independência dos bancos centrais são essenciais para garantir credibilidade.
Contudo, o economista-chefe da instituição também alertou na terça-feira que os bancos centrais poderão ter de impor custos económicos significativamente mais elevados para controlar a inflação gerada por uma guerra prolongada do que aqueles que foram necessários para conter o aumento de preços após a pandemia.
Em declarações à Reuters, Pierre-Olivier Gourinchas considerou que com poderá ser necessário um aperto monetário mais forte, sobretudo se as expectativas de inflação se desancorarem. “Carregar no travão será doloroso” neste contexto, disse o responsável do FMI, acrescentando que “poderá ser preciso impor mais custos para alcançar o mesmo resultado de desinflação”.
Alavancagem financeira como bomba de efeito retardado
O FMI identificou o crescimento alavancado dos intermediários financeiros não bancários como um dos principais canais de amplificação do risco sistémico global. No relatório de estabilidade financeira global, a instituição alerta que hedge funds, ETF alavancados e fundos de crédito privado acumularam posições que, em caso de turbulência, podem desencadear vendas forçadas em cadeia, com efeitos que se propagam rapidamente a outros mercados.
Os hedge funds têm aumentado a alavancagem em estratégias de valor relativo no mercado obrigacionista: se as condições se deteriorarem, o rápido desenrolar dessas posições pode amplificar as oscilações das yields e contaminar os mercados de financiamento de curto prazo. No mercado acionista, os ETF alavancados — que reequilibram mecanicamente as carteiras no fecho de cada sessão — podem intensificar as quedas em momentos de stress, gerando um perigoso efeito de dominó, salientam os analistas do FMI.
No relatório de estabilidade financeira global, o Fundo recomenda que os supervisores fechem as lacunas de dados sobre exposições e alavancagem, melhorem a partilha de informação entre jurisdições e apliquem testes de stress a bancos e, sempre que possível, a entidades não bancárias. A expansão da compensação centralizada nos mercados de reporte é também identificada como uma prioridade para reduzir o risco sistémico no financiamento de curto prazo.
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