Wall Street já não pode fechar a porta aos pequenos traders. Saiba o que muda
Há 24 anos que quem quisesse negociar ações repetidamente no mesmo dia nos EUA era obrigado a ter pelo menos 25 mil dólares em conta. O regulador americano decidiu acabar com essa exigência.
- A SEC aprovou a eliminação da regra que exigia aos pequenos investidores 25 mil dólares em conta para day trading.
- A nova regulamentação torna a exigência de capital proporcional à exposição real, aumentando a participação de investidores e a volatilidade nos mercados.
- A transição para as novas regras poderá levar até 18 meses, colocando a responsabilidade da gestão de risco nas mãos dos investidores e corretoras.
O regulador do mercado de capitais dos EUA (a SEC) aprovou a proposta da FINRA (o organismo de autorregulação de Wall Street) que elimina a designação de Pattern Day Trader (PDT) e a regra que obrigava os pequenos investidores a manter pelo menos 25 mil dólares em conta para realizar mais de três operações de day trading num período de cinco sessões em corretoras norte-americanas.
Esta regra, em vigor desde 2001, foi introduzida na sequência das avultadas perdas sofridas por investidores de retalho durante o colapso da bolha dot-com, mas passou a ser amplamente criticada por bloquear a participação de milhões de pequenos aforradores nos mercados intradiários.
Com a aprovação em vigor, a restrição deixa de ser um valor fixo e passa a ser proporcional à exposição real de cada investidor no momento da negociação, sendo apenas necessário deter o capital suficiente para cobrir as posições abertas em tempo real. Contas que apresentem repetidas insuficiências de margem ao longo de cinco dias úteis ficarão sujeitas a um bloqueio de 90 dias na criação ou aumento de posições curtas, embora défices inferiores a 1.000 dólares ou a 5% do capital sejam isentos desta penalização.
O aumento da participação de pequenos investidores traz um risco acrescido de volatilidade, sobretudo em ações de menor capitalização e em instrumentos mais especulativos.
Para implementar o novo modelo, as corretoras terão de passar a monitorizar em tempo real a carteira dos investidores ou seguir um cálculo diário da exposição intradiária. Para esse efeito, terão até 18 meses após a publicação do aviso regulatório da FINRA para adaptar os seus sistemas.
Para os investidores portugueses que operam na bolsa através de plataformas de negociação registadas e reguladas por entidades europeias, esta alteração não tem qualquer efeito sobre os seus portefólios e sobre as suas estratégias de investimento. Todas estas corretoras operam fora da jurisdição da SEC e da FINRA, pelo que os seus clientes nunca foram abrangidos pela regra PDT.
Na prática, a eliminação desta barreira beneficia sobretudo os investidores americanos e aqueles que operam diretamente através de corretoras registadas nos EUA, não sendo, por isso, relevante para a esmagadora maioria dos aforradores portugueses.
Mais traders, mais risco e mais volatilidade nos mercados
A eliminação da barreira dos 25 mil dólares deverá provocar uma entrada significativa de novos investidores de retalho nos mercados de ações e de opções norte-americanos, aumentando os volumes de negociação intradiária.
As plataformas de corretagem serão as primeiras a sentir o impacto, como já ficou evidente na reação imediata das ações da Robinhood e da Webull, que esta quarta-feira seguem a valorizar 5,4% e 6,5%, respetivamente, no pré-mercado a poucas horas da abertura de Wall Street, e após terem valorizado mais de 10% na sessão de terça-feira assim que foi conhecida a decisão da SEC.
Na bolsa, este afluxo de liquidez dos pequenos investidores poderá acentuar os chamados ciclos de momentum, em que determinados ativos registam valorizações aceleradas impulsionadas por negociação de retalho, tal como aconteceu com o fenómeno GameStop em 2021.
Vários estudos académicos realizados mostram que a esmagadora maioria dos pequenos investidores que praticam day trading ativo acaba por registar prejuízos.
O aumento da participação de pequenos investidores traz um risco acrescido de volatilidade, sobretudo em ações de menor capitalização e em instrumentos mais especulativos, como as opções com vencimento no próprio dia. A regra de 2001 tinha precisamente como objetivo proteger os investidores menos experientes das perdas rápidas associadas ao day trading, e a sua eliminação coloca a responsabilidade da gestão de risco cada vez mais do lado do próprio investidor e das corretoras.
Vários estudos académicos realizados mostram que a esmagadora maioria dos pequenos investidores que praticam day trading ativo acaba por registar prejuízos, um dado que os reguladores europeus acompanharão com atenção.
A transição para as novas regras não será, contudo, imediata. As corretoras têm 45 dias após a publicação do aviso regulatório da FINRA para iniciar a implementação e até 18 meses para concluir a adaptação dos seus sistemas. Significa que as mudanças só estarão plenamente operacionais no final do ano ou mesmo em 2027, dependendo da velocidade de cada instituição na atualização das suas plataformas de monitorização de margens em tempo real.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Wall Street já não pode fechar a porta aos pequenos traders. Saiba o que muda
{{ noCommentsLabel }}