Ataques cibernéticos lideram riscos identificados pelas empresas portuguesas em 2026. Riscos globais sobem ao “top 5”

Confronto geopolítico e falha na cadeia de fornecimentos entram no "top 5" das preocupações das empresas nacionais, evidenciando os receios associados a temas como tarifas e tensões geopolíticas.

Depois de dois anos de eleições, o risco político e social saiu do “top” das preocupações das empresas portuguesas, com os ataques cibernéticos a ascenderam ao topo da pirâmide, revela estudo anual da Marsh. Pela primeira vez, riscos globais, associados a temas como as tarifas, instabilidade e falhas nas cadeias de fornecimento, entram na lista de riscos identificados pelos empresários.

Mais de metade das empresas inquiridas (53%) aponta os ataques cibernéticos como o principal risco em 2026, revela o estudo ‘A Visão das Empresas Portuguesas sobre os Riscos’, realizado pela Marsh Portugal, empresa do grupo Marsh McLennan, e apresentado esta quinta-feira. Na lista segue-se a retenção de talentos (42%), eventos climáticos extremos (38%), confronto geoeconómico (37%), e, em quinto lugar, a concorrência e a falha na cadeia de fornecimentos, ambos com uma votação de 24%

O estudo destaca que “a subida dos riscos digitais ao topo do ranking nacional marca uma mudança relevante face a 2025, ano em que a principal preocupação das empresas era a instabilidade política e social, seguida dos ataques cibernéticos e da retenção de talentos”. A reeleição de Luís Montenegro como primeiro-ministro parece ter afastado os receios de uma crise política interna, com os empresários a focarem-se noutros desafios.

“Os números revelam que a instabilidade política que vinha a demonstrar preocupação nos últimos anos deixou de ser tema“, realça Fernando Chaves, risk specialist da Marsh Portugal, ao ECO. O especialista destaca que os ataques cibernéticos passaram do segundo ao primeiro lugar e a retenção de talento também continuou a ser uma das grandes preocupações.

“os riscos globais estão a entrar nos riscos locais“, aponta, explicando que a perceção das empresas em relação a estes temas é que cada vez mais questões como tarifas, conflitos, problemas na cadeia de fornecimento vão afetar a atividade e a sua gestão. “Há a visão dos empresários de entender que o que as afeta a elas não é só o que acontece em Portugal”, acrescenta o especialista.

Fernando Chaves realça ainda que o inquérito, realizado entre dezembro e janeiro, foi feito antes do conflito no Médio Oriente. “Se [o estudo] fosse feito hoje, os confrontos geoeconómicos poderiam aparecer mais perto do topo”.

Há a visão dos empresários de entender que o que as afeta a elas não é só o que acontece em Portugal (…) Se [o estudo] fosse feito hoje, os confrontos geoeconómicos poderiam aparecer mais perto do topo.

Fernando Chaves

Risk specialist da Marsh Portugal

Depois de um ano marcado pelo anúncio de tarifas e crescentes tensões geopolíticas, 2026 trouxe uma nova guerra no Médio Oriente, que conduziu à escalada dos preços da energia, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz e que deverá marcar um regresso da inflação na generalidade dos produtos.

Segundo refere o estudo, “a inclusão simultânea da concorrência e da falha na cadeia de fornecimento no 5º lugar dos principais riscos em 2026 reflete a complexidade e interdependência dos desafios que as empresas portuguesas enfrentam“.

Para a Marsh, “reconhecer e gerir estes riscos de forma integrada será determinante para garantir a sustentabilidade, a resiliência e a competitividade num ambiente empresarial cada vez mais exigente e volátil”.

Empresas “atacadas” diariamente

A liderança dos ataques cibernéticos nos riscos percecionados pelas empresas para a sua atividade “reflete não só o aumento da frequência e da sofisticação das ameaças – incluindo ransomware, phishing e violações de dados –, mas também a crescente dependência das organizações de infraestruturas tecnológicas”, explica o estudo, apontando que, nos últimos anos, a digitalização acelerada das operações empresariais expôs vulnerabilidades que exigem respostas mais robustas, tanto ao nível do investimento em cibersegurança como da capacitação das equipas”.

Cada vez mais as empresas estão conscientes que estão a ser atacadas diariamente. Os ataques cibernéticos passaram a ser uma certeza“, explica Fernando Chaves, falando num “risco permanente” para os negócios.

No que diz respeito à retenção de talentos, a segunda maior preocupação dos empresários, o estudo nota que “num mercado de trabalho cada vez mais competitivo e global, as organizações enfrentam dificuldades crescentes em atrair e reter profissionais qualificados, especialmente em áreas tecnológicas e especializadas”.

A Marsh destaca ainda que “a evolução das expectativas dos colaboradores, nomeadamente em termos de flexibilidade, equilíbrio entre a vida pessoal e profissional e desenvolvimento de carreira, exige novas abordagens à gestão de talento e à cultura organizacional”.

Clima preocupa, mas precisa preocupar mais

Os eventos climáticos extremos surgem como o terceiro maior risco antecipado em 2026. “À escala global, esta preocupação é ainda mais evidente: os eventos climáticos extremos são apontados por 50% das empresas como o principal risco para 2026”, refere o estudo.

Para Fernando Chaves estes eventos climáticos extremos “precisam de maior atenção” por parte dos empresários nacionais. “Há a sensação que os eventos climáticos extremos são de outras geografias”, mas este é um risco ao qual é preciso “dar resposta” e é “permanente”, lembrando o comboio de tempestades, que provocou prejuízos acima de cinco mil milhões em Portugal. “Estes temas parece que são muito distantes, mas não são”, avisa o responsável.

Temas como a concorrência e falhas nas cadeias de fornecimento são outros riscos que dependem mais do que se passa lá fora do que lá dentro, mas que pode afetar a atividade e a gestão das empresas nacionais.

“Para as empresas portuguesas, que dependem fortemente do comércio global, estas falhas representam riscos significativos, nomeadamente atrasos, aumento de custos e dificuldades na obtenção de matérias-primas e produtos essenciais. A diversificação de fornecedores e a revisão das estratégias logísticas são, por isso, prioridades para mitigar estes impactos“, detalha o estudo.

O estudo mostra ainda diferenças entre as pequenas e médias empresas e as grandes empresas. Enquanto os ataques cibernéticos sejam o principal risco para ambos os grupos, as PME’s atribuem maior relevância (38%) comparativamente às grandes empresas (28%).

“Esta diferença pode decorrer da menor capacidade das PME para investir em cibersegurança robusta, tornando-as mais vulneráveis e preocupadas com este risco”, justifica. Há também diferenças no que diz respeito à retenção de talentos, um tema mais valorizado pelas PME (30%) do que pelas maiores organizações (22%), “possivelmente devido à maior dificuldade das PME em competir por profissionais qualificados face às condições e benefícios oferecidos pelas Grandes Empresas”.

No que diz respeito a falhas na cadeia de fornecimento e medidas de cibersegurança, as grandes empresas destacam a falha na cadeia de fornecimento (18%), enquanto as PME valorizam mais a falha de medidas de cibersegurança (20%).

Instabilidade política ou social e concorrência são questões mais referidas pelas PME (20% cada) do que pelas Grandes Empresas (concorrência 10%, instabilidade não destacada), “possivelmente devido à maior sensibilidade das PME a mudanças no ambiente político ou social e à pressão competitiva local”.

A Marsh questionou 124 empresas para a realização deste estudo, com representação em 18 setores de atividade.

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