“BCE deve manter a cabeça fria e estar pronto a agir”, defende governador do Banco de Portugal

Álvaro Santos Pereira defende que o BCE deve agir com prudência perante a incerteza geopolítica, mas avisa que o banco central tem de estar pronto a intervir assim que os dados o justifiquem.

À margem das reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, que decorrem esta semana em Washington, Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal e membro do Conselho do BCE, defendeu esta quinta-feira numa entrevista à CNBC que o banco central deve agir com prudência perante a incerteza geopolítica e os choques nos preços da energia e da alimentação, mas sem baixar a guarda.

“O mais importante é prestar muita atenção aos dados e estar pronto a agir quando necessário”, afirmou. A postura cautelosa do governador reflete a mensagem dominante saída das reuniões de Washington que passa por não repetir os erros do passado.

Álvaro Santos Pereira recordou que, em 2021 e 2022, o BCE e outros bancos centrais utilizaram a palavra “transitório” para descrever uma inflação que acabou por atingir os 10% em vários países europeus. “A grande diferença é que em 2021-2022 tínhamos pressões de procura já muito significativas. Neste momento, a inflação está próxima do objetivo, próxima dos 2% na maioria dos países, e não temos as mesmas pressões de procura que tínhamos então. Estamos agora numa posição muito melhor do que em 2021″, sublinhou.

Repor as reservas de gás vai ser absolutamente essencial para muitos países, de forma a que, se tivermos novamente um inverno frio, não tenhamos problemas de disrupção no abastecimento de gás e um impacto nas nossas indústrias.

Álvaro Santos Pereira

Governador do Banco de Portugal

A comparação serve de alerta e de algum alívio: o ponto de partida atual é substancialmente mais favorável face a 2022, mas isso não elimina os riscos de um agravamento do choque de oferta.

Sobre o rumo da política monetária, Álvaro Santos Pereira recusou comprometer-se com qualquer calendário, insistindo na abordagem dependente dos dados que a presidente do BCE, Christine Lagarde, também tem defendido publicamente, notando que, “neste momento há ainda muita incerteza, incluindo sobre os efeitos de segunda ordem. Por isso, manter a cabeça fria é importante, mas estar pronto quando necessário.”

Sobre quais os dados que mais vai acompanhar antes da próxima decisão de taxas de juro, Santos Pereira refere que os preços do gás natural surgem no topo das preocupações, sobretudo após um inverno particularmente frio na Europa que esgotou reservas de gás. “Repor as reservas de gás vai ser absolutamente essencial para muitos países, de forma a que, se tivermos novamente um inverno frio, não tenhamos problemas de disrupção no abastecimento de gás e um impacto nas nossas indústrias”, alertou.

Estamos a começar a ver os sintomas de uma revolução relacionada com a IA (…) isto terá uma repercussão significativa nas divergências de produtividade entre os EUA e outras partes do mundo. A Europa precisa de recuperar o atraso.

Álvaro Santos Pereira

Governador do Banco de Portugal

A par disso, os preços dos fertilizantes, com consequências diretas no custo dos alimentos, e de matérias-primas críticas para a produção de semicondutores estão também no radar do governador do Banco de Portugal.

Além da conjuntura imediata, Santos Pereira abordou também o que considera ser uma transformação estrutural em curso, notando que, desde 2020, a economia mundial encaixou uma sequência de choques — a pandemia, a invasão da Ucrânia pela Rússia, as tarifas comerciais e os atuais conflitos geopolíticos –, mas tem revelado uma resiliência surpreendente.

No horizonte, o governador vê um fator que pode mudar o jogo produtivo: a inteligência artificial. “Estamos a começar a ver os sintomas de uma revolução relacionada com a IA”, referiu o governador, notando “que isto terá uma repercussão significativa nas divergências de produtividade entre os EUA e outras partes do mundo” e que “a Europa precisa de recuperar o atraso”, salientando que os impactos na produtividade deverão fazer-se sentir mais cedo do que o esperado, precisamente porque a difusão da IA está a ser mais rápida do que foi a da internet ou do computador pessoal.

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