Depois dos ‘Piigs’, agora o alvo dos investidores são os ‘Bifs’

Depois de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, a Europa tem novos alvos no mercado da dívida. Subida dos juros reflete desequilíbrio das contas públicas e risco de instabilidade política.

ECO Fast
  • A crise da dívida soberana na Europa evoluiu, com novos países sob pressão, destacando-se o Reino Unido, Itália e França como os principais alvos no mercado obrigacionista.
  • As yields das obrigações a 10 anos aumentaram significativamente, com o Reino Unido a registar a maior subida, refletindo uma perceção de risco crescente entre investidores.
  • Portugal, ao contrário, apresenta uma trajetória positiva com uma dívida pública de 89,7% do PIB e um excedente orçamental, mas enfrenta desafios devido ao aumento global das taxas de juro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A crise da dívida soberana na Europa, que ganhou força a partir de 2010, cunhou o acrónimo PIIGS, formado a partir das iniciais dos países então na mira dos investidores devido ao elevado endividamento: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Dezasseis anos volvidos, há outros países sob pressão no mercado e um novo acrónimo.

Depois dos ‘Piigs’, agora são os ‘Bifs’ – Britain, Italy, France – os alvos preferenciais no mercado obrigacionista europeu, aponta o Financial Times num artigo publicado esta quarta-feira. Segundo o jornal britânico, foram as economias cujas taxas exigidas nas obrigações (yields) mais subiram desde o início do conflito no Médio Oriente, dentro do universo dos principais mercados europeus.

Os dados da Refinitiv mostram que, entre a última sessão antes do ataque dos EUA e Israel ao Irão, a 28 de fevereiro, e esta quarta-feira, é na dívida do Reino Unido que se verifica a maior subida. A yield dos títulos a 10 anos está 54,3 pontos base mais alta, com a taxa muito perto de 4,78%. Segue-se a Itália, com um aumento de 51 pontos base, para 3,79%, e França, onde o juro exigido pelos investidores saltou 44 pontos base para 3,66%.

Juros de Reino Unido e Itália registam maior aumento (em pontos base)

Variação das yields das obrigações a 10 anos entre 27 de fevereiro e 15 de abril, em pontos base.

Três dos antigos PIIGS tiveram um desempenho melhor do que aqueles três países. As taxas da Irlanda aumentaram apenas 33,6 pontos base, as de Portugal 41,6 pontos e as de Espanha 42 pontos. Mesmo a Grécia, onde a yield subiu 47,2 pontos base para 3,77%, teve um melhor desempenho que Reino Unido e Itália.

Desde o início do conflito no Golfo Pérsico, a taxa da Alemanha avançou apenas 38,4 pontos base para 3,036%. O que significa que em quase todos os países (exceto a Irlanda), a diferença em relação aos juros da dívida germânica aumentou, traduzindo uma maior perceção de risco por parte dos investidores, relacionada com o contexto global mas também com a situação orçamental e política de cada país.

Portugal e Irlanda têm as ‘yields’ mais próximas da Alemanha (%)

Taxa de juro implícita nas obrigações com maturidade a 10 anos a 15 de abril.

Itália, França e Reino Unido destacam-se pela negativa. A dívida pública italiana cifrava-se em 137,1% do PIB no final de 2025, e este ano o saldo orçamental deverá voltar a ser negativo (-2,8%, segundo as previsões da Comissão Europeia). Em França, o rácio subiu para 115,6% do PIB no ano passado, e só a muito custo o Governo liderado por Sébastien Lecornu (o quinto primeiro-ministro de Macron) conseguiu o apoio parlamentar para aprovar um orçamento que baixe o défice este ano, que Bruxelas estima que chegue aos 4,9%.

Também no Reino Unido, onde a dívida pública já vai em 102,3% do PIB, a responsável pelo Tesouro, Rachel Reeves, enfrentou forte oposição política, incluindo de dentro do Partido Trabalhista, para conseguir aprovar o documento para este ano, que deverá baixar o défice de 4,3% em 2025 para 3,6%, de acordo com o Office for Budget Responsibility. A yield das obrigações do Reino Unido –que refletem também uma inflação mais elevada que nos países da Zona Euro — chegaram aos 5,12% a 27 de março, o nível mais elevado desde 2008, quando eclodiu a crise financeira mundial. A dívida francesa atingiu a taxa mais alta desde 2009, nos 3,89%.

Grécia, Itália e França entre países com maior dívida em percentagem do PIB

Dados referentes a 2025.

Portugal destaca-se por ter vindo a fazer o percurso inverso. No final de 2025, a dívida pública era de 89,7% do PIB e o país registou um excedente das contas públicas de 0,7%, embora este ano deva regressar a um saldo ligeiramente negativo.

As yields das obrigações têm vindo a subir a nível global, refletindo a maior probabilidade de uma subida das taxas de juro pelos bancos centrais para contrariar a inflação provocada pelo conflito no Médio Oriente. Uma contrariedade numa altura em que os governos estão pressionados a avançar com apoios financeiros para conter o impacto do aumento dos preços.

“A dinâmica da dívida pública global não melhorou de forma material em 2025, e o eclodir da guerra no Médio Oriente acrescentou uma nova fonte de pressão orçamental a um panorama global já de si pressionado”, salienta o FMI no Fiscal Monitor, divulgado esta quarta-feira. “A dívida bruta global dos governos aumentou para cerca de 94% do PIB em 2025 e, seguindo a trajetória atual, atingirá 100% até 2029, um nível anteriormente observado apenas no rescaldo da Segunda Guerra Mundial”, acrescenta.

Na Europa, existem ainda outros fatores de pressão, salientados pelo FMI: o aumento da despesa com defesa, o envelhecimento da população e a necessidade de investir em infraestruturas.

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