Fundo do Qatar tem pipeline de investimentos de 150 milhões em Portugal
Em pleno programa para diversificar a economia, Qatar está a analisar investimentos na área do turismo, infraestruturas e tecnologia a partir de Lisboa. Private equity JTA diz que dispensa gestão.
Menos de dois meses depois da Web Summit do Qatar, começam a chegar a Lisboa os primeiros sinais de investimentos de Doha. O fundo de private equity JTA – International Investment Holding, com sede no Qatar, aproveitou os corredores da cimeira tecnológica no Médio Oriente para contratar um português e estabelecer-se a nível nacional. O escolhido foi Fernando Fraga, ex-diretor de Crescimento da Startup Portugal, que avançou ao ECO os planos da sociedade qatari para Portugal: em pipeline estão investimentos no valor de 150 milhões de euros na área do turismo, infraestruturas e tecnologia.
Os projetos encontram-se em análise a partir de Lisboa e seguirão para uma avaliação tanto por parte da casa-mãe no Golfo Pérsico como pelas subsidiárias da JTA com maior expertise nas áreas em que cada empresa se insere.
“São projetos exclusivamente portugueses, selecionados com base numa análise preliminar e que me pareceram os mais sólidos das propostas que recebi até ao momento”, conta Fernando Fraga, duas semanas após ter sido anunciada a abertura do escritório da JTA na capital portuguesa.
“Desde então, tenho estado em reuniões com potenciais parceiros em vários setores, incluindo promotores de projetos, coinvestidores privados e entidades institucionais, entre as quais municípios com interesse ativo na atração de capital para as suas regiões. Portugal tem ativos que estão à espera do capital certo e tem setores onde o capital disponível internamente não tem a escala nem o horizonte temporal necessários para projetos verdadeiramente transformadores”, garante.
Fernando Fraga considera que o setor do turismo, que movimenta mais de 29 mil milhões de euros em receitas anuais, é um “exemplo claro” desta lacuna. “O país é já uma referência mundial, mas existe uma geração de projetos de grande escala, como resorts integrados, destinos temáticos e experiências únicas ligadas ao território, que ficam por desenvolver porque o capital que entra procura retorno rápido e o capital local não tem dimensão suficiente”, explica o country manager do JTA em Portugal.
Na energia, o grupo considera que Portugal “tem condições naturais” para transição verde como poucos congéneres europeus e “ainda está longe de as aproveitar plenamente”, nomeadamente o hidrogénio verde, o armazenamento e a mobilidade elétrica.
A JTA está disponível para aquisições de participações minoritárias ou maioritárias, embora deixe algumas salvaguardas: o objetivo não é estar na gestão da empresa nem ser um parceiro de “private equity clássico” onde o acordo tende a ser orientado para a entrada, o controlo e, de seguida, a saída.
“A percentagem de entrada depende das especificidades de cada deal. Até pode acabar por ser maioritária se a valorização do investimento assim o exigir, mas a filosofia é clara: não queremos gerir nem operar os negócios em que investimos”, reitera o líder da JTA em Portugal.

Fernando Fraga foi ‘captado’ pelo fundo qatari quando se deslocou à Web Summit Doha, em meados de fevereiro, enquanto CEO do family office português FX2 Group, que investe tanto em startups em fase inicial como em infraestruturas de grande escala.
A experiência na associação de utilidade pública Startup Portugal e em gerir, através do grupo FX2, tickets que variam de 10 mil a 400 milhões de euros – através de capital próprio e de uma rede selecionada de coinvestidores e parceiros – interessaram o grupo do Qatar liderado por Amir Ali Salemizadeh.
O modelo de entrada não passa pelo controlo operacional. A JTA posiciona-se como capital paciente. O nosso papel é injetar capital que permita às empresas portuguesas crescerem de uma forma que, dificilmente, conseguiriam apenas com recursos próprios.
Questionado sobre o impacto da guerra no Médio Oriente no trabalho do fundo e na sua perceção sobre o ambiente de negócios, o country manager assegura que a “intenção da JTA de investir em Portugal e apoiar o crescimento de empresas portuguesas permanece exatamente a mesma” e “o conflito não alterou essa estratégia”, até porque o grupo tem presença em mais de 50 países, nomeadamente na vizinha Espanha.
Ao contrário do fundo soberano do Qatar (QIA – Qatar Investment Authority), controlado pela família real, o JTA é de cariz privado. No entanto, opera com as mesmas prioridades de investimento estratégico, até porque ambos pretendem ir ao encontro do programa de desenvolvimento Qatar National Vision 2030 – e o calendário está a apertar. Nos próximos quatro anos, a principal meta do Qatar é intensificar a diversificação económica para deixar de depender (tanto) de combustíveis fósseis.
No portefólio da JTA, além de participadas da Ásia-Pacífico, contam-se empresas como a canadiana Soshianest (inteligência artificial), a alemã LIQU Engineering (engenharia) ou a norte-americana American Premier University (educação).
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