Impresa: “Estamos alinhados com a MFE numa estratégia pan-europeia”
Pouco mais de um mês após a entrada da MFE na Impresa, Francisco Pedro Balsemão aponta que as áreas com mais potencial de sinergia são as receitas, a publicidade, a tecnologia e a venda de conteúdos.

“Somos o maior player em Portugal, mas precisamos de capital para crescer e precisamos de olhar para a Europa. A MediaForEurope [MFE] é o único player da indústria que está a olhar para isto da maneira certa”, afirmou Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo Impresa, quando questionado sobre o porquê da entrada da italiana como segunda maior acionista há pouco mais de um mês. Durante uma conversa, moderada por Tony Gonçalves, no evento StreamTV Europe, o CEO da dona da SIC e do Expresso destacou estarem “alinhados com a MFE numa estratégia pan-europeia”. A italiana MFE tinha definido, no ano passado, como desafio ser a principal operadora de TV e media na Europa.
Sobre os benefícios para o grupo Impresa, explica que esta parceria permitirá “ganhar sinergias em receitas, publicidade, tecnologia (AdTech) e aquisição e venda de conteúdo”. No entanto, esclarece que a relação “ainda está numa fase inicial”.
À margem do evento, em declarações ao +M, Pedro Balsemão reforça essa ideia. Até ao momento, ” já houve uma reunião do conselho de administração com todos os novos administradores não executivos”, mas apenas com o objetivo de “os novos acionistas passarem a conhecer um bocadinho a casa, o negócio e a cultura” da empresa. O CEO recusa ainda antecipar quando serão produzidos os primeiros efeitos práticos desta parceria.
As recentes alterações na organização do grupo — como a acumulação da direção de Recursos Humanos e Transformação por Mónica Serrano e a nomeação de Teresa Gonçalves como CFO — foram lideradas pela Impreger e são “reflexo” do Plano Estratégico para o triénio 2025-2028, garantiu ainda.
“É preciso que a estratégia seja o mais importante, e depois a governança seja adaptada à estratégia. Não tínhamos isso feito antes porque estávamos num processo de negociação com a MFE, que era um início de uma oportunidade. Concluído esse processo, adaptámos a nossa governança à estratégia”, explica.
Francisco Pedro Balsemão faz questão de frisar que o acordo parassocial mantém o poder de decisão na Impreger, holding através da qual a família Balsemão detém o grupo. “É muito importante que fique claro que o controlo efetivo da empresa está com a Impreger“, nota. “Tudo o que é feito, naturalmente é, neste momento conversado, mas quem toma as decisões finais é a Impreger.” Recorde-se que o acordo parassocial reconhece o direito de designar a maioria dos membros do conselho de administração e de determinar o sentido de voto da MFE em determinadas matérias.
“Tudo o que fizemos ao nível das alterações da estratégia e que, por sua vez, teve reflexo na governança da empresa, fomos nós que lideramos esse processo. Eles não conhecem o negócio, não conhecem as pessoas, e portanto esse processo fomos nós que o fizemos”, reforça.
Tendo como base o plano adotado em 2025, o CEO aponta que já estão a ser desenvolvidos projetos com a MFE na área da publicidade para rentabilizar o core business. No digital, o grupo quer “partilhar experiências e poder ir também beber das boas práticas da MFE”, enquanto no pilar das parcerias operacionais ainda não estão previstas sinergias.
“O quarto [pilar] passa pela otimização de custos e por reforçar a nossa capacidade de financiamento. Por um lado, por via da entrada da MFE, já o fizemos. Em relação à otimização de custos, é um projeto que segue no âmbito da estratégia 25/28, que tem tido bons resultados”, nota.
“Temos o nosso planeamento orçamental para este ano partilhado com os novos acionistas e vamos, tranquilos, procurar atingir os nossos objetivos, mas não temos nenhum objetivo concreto em relação à entrada da MFE para este ano”, conclui Pedro Balsemão.
A ‘nova vida’ das telenovelas no streaming
Num mercado publicitário onde “metade é da TV linear, mas “o digital está a crescer mais do que a TV aberta e a cabo”, a Impresa vê os gigantes do streaming como parceiros, além de competidores.
Durante a conversa moderada por Tony Gonçalves, Francisco Pedro Balsemão defendeu que o grupo tem “mais em comum com as plataformas de conteúdo de longa duração, de qualidade e produzidas profissionalmente [como a Netflix e a Disney+] do que com as redes sociais e agregadores”, tendo aproveitado as condições que estas plataformas estabeleceram na CTV (Connected TV) e no streaming com anúncios.
“Eles abriram o mercado de CTV em Portugal, do qual nós, com o nosso serviço de streaming Opto, mas também outras marcas como a Samsung e a Rakuten que representamos em Portugal, temos tirado partido“, destacou.
O CEO destaca ainda telenovelas, com parcerias já estabelecidas com a Disney+ e a Amazon, formato que há alguns anos não era valorizado pelas plataformas. “É um conteúdo muito ‘aderente’ (sticky), útil para a retenção nestas plataformas e para reduzir o churn“. Nota, aliás, que esta abordagem é seguida por outros players, como a francesa TF1 que transmite uma novela em simultâneo com a Netflix.
O sucesso dos canais FAST (Free Ad-supported Streaming TV) da Impresa foi outro dos pontos da conversa. O canal SIC Novelas fez o caminho inverso. “Os géneros antigos estão a ter uma vida diferente e melhor noutros lugares”, resume.
A conversa no StreamTV Europe tocou ainda na perda de Francisco Pinto Balsemão, que continua a ser uma inspiração para o filho. “Ele era um grande líder, carismático e franco. Procurava sempre alargar os seus horizontes“, recorda.
“O que o tornava especial é que era muito gentil. E ser gentil não é o mesmo que ser simpático. Ele era gentil porque ouvia ativamente as pessoas e mostrava curiosidade genuína. Dava feedback o tempo todo, positivo e negativo. Criticava as pessoas em privado e elogiava-as em público. Fazia as pessoas sentirem-se respeitadas”, explica.
Com o olhar no futuro do setor, Balsemão rejeita o rótulo de “media tradicionais”: “Os media tradicionais morreram ou estão a morrer. Se não inovares, estás a morrer. Então, não podes ser tradicional porque senão vais morrer”. Prefere antes a expressão “empresa de média escala e tradicionalmente de confiança”.
Sobre o apoio ao ecossistema em Portugal, apesar de não ser a favor de subsídios ou esmolas, considera que iniciativas como o programa SCRI.PT — programa de financiamento governamental de 350 milhões de euros — são “o caminho certo”. “Temos visto lá fora, em Espanha há alguns anos, como a economia cresce quando isso acontece”, destaca. Contudo, considera que deveria incluir outros géneros, além de filmes ou séries, como as telenovelas. “Deveriam ver as telenovelas como um género muito diferente do que eram no passado”, conclui.
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