Salários crescem acima da produtividade e pressionam economia

O Conselho de Finanças Públicas prevê que as remunerações dos trabalhadores atinjam 48,5% do PIB em 2026, o máximo desde pelo menos 1995, com a produtividade a crescer apenas 0,2%.

Num ano marcado por choques externos, guerra no Médio Oriente e incerteza tarifária, o mercado de trabalho nacional surpreende pela positiva, com o Conselho de Finanças Públicas (CFP) a projetar um crescimento do emprego de 1,4% este ano — 0,5 pontos percentuais acima dos 0,9% antecipados em setembro –, com a taxa de desemprego a cair para 5,8% e a taxa de atividade a atingir um máximo histórico.

São números que, à primeira vista, pintam um quadro de robustez do mercado de trabalho, mas, por baixo desta superfície brilhante, a instituição liderada por Nazaré Cabral da Costa destaca que a produtividade quase parou e os salários estão a crescer mais do que aquilo que a economia produz.

Em 2025, o mercado de trabalho já tinha superado as previsões, com o INE a registar um crescimento do emprego de 2,3%, quando o CFP esperava menos de metade disso. Para este ano, a taxa de atividade — o peso das pessoas que trabalham ou procuram trabalho na população em idade ativa — deverá atingir um nível sem precedentes, vaticina o CFP.

A perspetiva para o crescimento da produtividade aparente do trabalho é agora menos favorável com um crescimento de 0,2%, após a quebra registada em 2025 [quando a contração chegou aos 0,4%].

Conselho de Finanças Públicas

Relatório 'Perspetivas Económicas e Orçamentais 2026-2030'

Porém, esta é também uma consequência da menor imigração esperada para este ano: a população em idade ativa cresce apenas 0,5%, face a 1,5% no ano anterior. Com menos novos trabalhadores a entrar no mercado, as empresas competem mais intensamente pelos recursos disponíveis. E é aqui que entra um fenómeno com nome inglês, mas com consequências muito portuguesas: o labour hoarding.

A expressão descreve a tendência das empresas para reterem os seus trabalhadores mesmo quando a atividade abranda ou enfrenta choques negativos. “Para a resiliência do mercado de trabalho contribui a elevada proporção de empresas que ainda identificam a dificuldade em contratar pessoal qualificado como um fator limitativo da atividade, fomentando a retenção de mão-de-obra (labour hoarding) perante choques adversos que se assumem ser maioritariamente temporários”, refere o CFP.

Isto significa que as empresas preferem aguentar o custo de manter trabalhadores a correr o risco de não os conseguir contratar mais tarde.

Este comportamento tem uma consequência direta nos dados de produtividade. Se as empresas mantêm trabalhadores mesmo quando produzem menos, o valor gerado por cada trabalhador — a chamada produtividade aparente do trabalho — estagna ou recua. E é por isso também que o CFP projeta um crescimento de apenas 0,2% neste indicador para este ano.

A confirmar-se a quase estagnação da produtividade do trabalho, será o segundo ano consecutivo de fraco desempenho produtivo, num contexto de forte criação de emprego. “A perspetiva para o crescimento da produtividade aparente do trabalho é agora menos favorável com um crescimento de 0,2%, após a quebra registada em 2025″, quando a contração chegou aos 0,4%.

Uma fatia cada vez maior da riqueza produzida está a ser canalizada para o pagamento de salários, algo que pode parecer positivo do ponto de vista distributivo, mas que reflete também uma pressão crescente sobre as margens das empresas e sobre a competitividade da economia.

O desfasamento entre salários e produtividade já se vê nas contas nacionais. O CFP prevê que as remunerações pagas aos trabalhadores atinjam 48,5% do PIB em 2026, “o seu nível mais alto desde, pelo menos, 1995”, fruto de “variações das remunerações por trabalhador superiores ao crescimento da produtividade”.

Significa que uma fatia cada vez maior da riqueza produzida em Portugal está a ser canalizada para o pagamento de salários, algo que pode parecer positivo do ponto de vista distributivo, mas que reflete também uma pressão crescente sobre as margens das empresas e sobre a competitividade da economia, num momento em que as exportações portuguesas já enfrentam ventos contrários de vários lados.

O CFP identifica neste cenário um risco de rigidez estrutural que não deve ser ignorado. Se o labour hoarding protege os trabalhadores no curto prazo, pode tornar a economia mais rígida no longo prazo, dado que as empresas que acumulam mão de obra que não conseguem usar de forma produtiva ficam com menos espaço para investir, inovar e adaptar-se.

A projeção do CFP para a produtividade melhora a partir de 2027, com um crescimento esperado de 1,1% que acelera até 1,6% no médio prazo, mas isso pressupõe que os choques atuais se revelem transitórios. O relatório avisa inclusive que o crescimento projetado para o PIB no médio prazo “é quase inteiramente explicado pelo aumento esperado da produtividade, que se coloca como o principal motor de crescimento económico”.

A fotografia do CFP do mercado de trabalho para este ano é de uma economia que emprega mais do que nunca e paga mais do que nunca — em proporção da riqueza que gera –, mas que ainda não conseguiu traduzir essa contratação em ganhos de eficiência.

O desemprego em mínimos históricos e a taxa de atividade em máximos são uma conquista real e inegável. O CFP, porém, recorda que, sem ganhos de produtividade consistentes, o crescimento de médio prazo ficará inevitavelmente limitado. E isso não se resolve com mais emprego. Resolve-se com melhor emprego.

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